Uma no cravo, outra na ferradura
É um clássico da diplomacia ou, se preferimos, da propaganda chinesa. Quando o assunto em questão envolve minorias étnicas, como é o caso do sismo de Qinghai, a agência oficial de notícias faz questão de sublinhar o respeito pelos hábitos de uma sociedade que se apresenta como sendo multicultural. Mas não há esforço de comunicação que valha: tal como noutras situações do género, registam-se detenções e discrepâncias até no número de mortos e feridos.
Isabel Castro*
São em abundância e muitas delas destacam a importância que o poder central confere às minorias étnicas. Desde que o terramoto de 7,1 de magnitude abalou a província de Qinghai que a agência Xinhua tem sido pródiga em notícias que dão uma particular atenção à diversidade cultural. Grande parte das vítimas do sismo é de etnia tibetana. A China tenta, deste modo, contrabalançar episódios igualmente infelizes, mas de outra natureza, que opuseram as autoridades às minorias (nem sempre satisfeitas) do país.
A página principal da agência oficial de notícias dava ontem grande visibilidade à visita de Jia Qinglin, membro do Politburo que se deslocou à zona devastada. Há dois dias, a Xinhua garantia que “os costumes étnicos e a vontade das famílias enlutadas estão a ser totalmente respeitados nos funerais das vítimas do terramoto de Qinghai”.
O principal meio de divulgação de notícias da China em língua inglesa reservava ainda espaço para dar conta das contribuições financeiras de uma associação de tibetanos a viver nos Estados Unidos, que recolheu fundos no valor de 500 mil yuan para apoiar a população de Yushu, onde o sismo se fez sentir com maior violência. “Os donativos serão canalizados para a zona do terramoto através das agências governamentais responsáveis ou de organizações filantrópicas no terreno”, especificava a Xinhua.
Para o politólogo Eric Sautede, que tem a China e a utilização dos meios de comunicação como uma das suas áreas de estudo, a forma como as autoridades chinesas têm vindo a apresentar as notícias relacionadas com Qinghai não surpreende. “Não é invulgar. Estão a tentar dar a ideia de que a China é uma nação multicultural, que respeita as minorias e o seu elevado grau de autonomia. O facto de insistirem nisso também não é novo”, apontou ao PONTO FINAL, recordando a campanha que foi feita para mostrar que tudo vai bem em terras tibetanas.
Intelectual tibetano detido
A tónica colocada não é nova, “mas é interessante”. Mais preocupante – mas igualmente no alinhamento do que tem sido a postura de Pequim em reacção à crítica – são as notícias que dão conta da detenção de um importante intelectual da região. Ontem, a Associated Press noticiou a detenção de um escritor de etnia tibetana que foi levado pela polícia depois de ter publicado um livro em que questiona o modo como o poder central lidou com os conflitos no Tibete em 2008 e por, mais recentemente, ter feito reparos sobre as operações de ajuda em Qinghai.
De acordo com amigos de Tagyal, que escreve com o nome Zhogs Dung, a polícia apareceu, na sexta-feira passada, na editora onde o escritor trabalha, na capital provincial de Qinghai, Xining. Os agentes passaram a pente fino a casa e a biblioteca de Tagyal, tendo apreendido os seus computadores. O mandado de detenção foi mostrado pela polícia à mulher do escritor. As suas duas filhas tentaram ver o pai na esquadra da polícia, mas a visita não foi autorizada.
O Governo Central não deu qualquer explicação para a detenção de Tagyal, o homem de 45 anos considerado o grande intelectual tibetano. No passado, escreveu livros em que apoiava frontalmente as perspectivas de Pequim em relação à modernização, religião e cultura do Tibete.
O politólogo Eric Sautede recorda que, aquando dos conflitos no Tibete e em Xinjiang, as autoridades chinesas tiveram acções semelhantes. “Neste caso, pode ser preocupante. É um intelectual que mantinha uma relação com o Partido Comunista, era um elemento de ligação. A sua detenção poderá despertar a fúria da população tibetana” de Qinghai, avisa.
A discrepância dos números
Diferente do que é costume foi a forma como as autoridades da maioria ‘han’ lidaram com a participação dos monges nos trabalhos de ajuda às pessoas afectadas pelo sismo. “Esta ajuda espontânea foi mais bem aceite do que noutras alturas semelhantes”, aponta Sautede. Para o politólogo, a construção desta imagem de tolerância está também relacionada com um factor interno – a alteração cíclica de quadros do Partido Comunista Chinês aos níveis provincial e regional -, e uma razão externa: a Exposição Mundial de Xangai.
No final da passada semana, as autoridades vieram dar explicações públicas sobre os pedidos feitos aos monges budistas, que foram avisados para deixarem a zona afectada pelo sismo. Pequim garantiu que, na origem do ‘afastamento’ dos monges não estiveram razões políticas, mas sim a necessidade de abrir espaço ao pessoal especializado no trabalho de apoio, bem como questões de segurança.
Ainda assim, e não obstante a aparente harmonia social, a discórdia existe – até no cálculo do número de vítimas. Tanto o Governo como os mosteiros do Tibete fincam o pé nas suas contabilidades, que mostram mais do que uma mera disparidade numérica. As autoridades governamentais anunciaram esta semana que os esforços vão agora ser concentrados no trabalho de reconstrução de Yushu. No domingo passado, o número oficial de vítimas mortais estava fixado nas 2.220, sendo que havia ainda 70 desaparecidos.
No entanto, os monges budistas dizem que o número é muito superior. Há quem alegue que só no Mosteiro de Jiegu, o maior de Yushu, foram cremadas 2.110 vítimas do sismo, em cerimónias que decorreram todas elas no passado dia 17. As estimativas apresentadas pelos diferentes mosteiros apontam para números entre os quatro mil e os 10 mil mortos.
Em jeito de conclusão, Eric Sautede considera não haver qualquer mudança significativa na postura da China em relação aos seus assuntos mais sensíveis. Mas vinca também que, apesar de Pequim se defender das críticas externas com a sua soberania para tratar dos assuntos domésticos, tem “a preocupação de reagir de forma rápida, usando os diferentes meios ao seu dispor para sublinhar o respeito pela diversidade”.
*com agências
