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Resolvemos o enigma da casa-museu?

April 28, 2010

O director do Albergue não confirma mas há demasiados factos que batem certo. É mais que provável que a casa-museu a ser instalada no bairro de São Lázaro seja a da família Jorge e, consequentemente, de José Vicente Jorge. A que se juntarão ainda os espólios dos escritores Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha. Perceba porquê.

Hélder Beja

Como num puzzle: Carlos Marreiros juntou algumas peças, o PONTO FINAL tentou completar o resto. O director do Albergue da Santa Casa da Misericórdia disse a este jornal que a casa-museu –  proposta ao Chefe do Executivo, Fernando Chui Sai On, em conjunto com o provedor da Santa Casa da Misericórdia, António José de Freitas – ficará no bairro de São Lázaro e receberá “espólio autêntico de uma família com pergaminhos em Macau”. E disse mais.
De acordo com Marreiros, ao espólio da família vão juntar-se “os espólios de dois grandes escritores portugueses que viveram em Macau no princípio do século passado”. O puzzle já estava composto e o arquitecto acrescentou ainda que em breve arrancará a inventariação do legado familiar, que chegará de Portugal, e que permitirá compor na casa-museu “um quarto de dormir, sala de jantar e a biblioteca do patriarca da família”. “Estes núcleos já estão garantidos”, anunciou.
As casas de São Lázaro que receberão os espólios “são um projecto de 1903, do arquitecto José Maria Casuso, que trabalhava com a Santa Casa”. O responsável adianta ainda que o levantamento e inventariação do material cedido, recuperação das casas, e criação do núcleo museológico “levará pelo menos três anos”. Instando a avançar o nome da família e dos escritores, Marreiros prefere não o fazer. E aqui entramos em modo dedutivo.
Não há coincidências

É só juntar peças, que é como quem diz, factos. Pedro Jorge Barreiros esteve no passado sábado a falar sobre o seu avô, José Vicente Jorge, no Albergue, a propósito do seminário dedicado a este macaense que desempenhou um importante papel em Macau enquanto mediador, tradutor e professor na primeira metade do século XX. Exactamente uma semana depois de, pela primeira vez, Carlos Marreiros ter tornado pública, em declarações à Rádio Macau, a ideia de construir uma casa-museu em São Lázaro.
É sabida a importância de José Vicente Jorge, em particular, e da família Jorge no território – indiscutivelmente uma família “com pergaminhos”, usando a expressão de Carlos Marreiros. Ora, o director do Albergue disse ainda que o espólio virá de Portugal – e José Vicente Jorge morreu em Portugal a 22 de Novembro de 1948, com 75 anos.
O “patriarca” dos Jorge, conhecido também por ser coleccionador de arte chinesa, nasceu em Macau em Dezembro de 1872 e entrou para a Repartição do Expediente Sínico em Março de 1890, seguindo o exemplo do pai, Câncio Jorge, que fora intérprete-tradutor.
Ora, recuperemos agora uma das afirmações da historiadora Tereza Sena sobre o trabalho feito pelo avô de Pedro Barreiros: “José Vicente Jorge revelou os segredos da poesia chinesa a Camilo Pessanha, tendo posteriormente trabalhado em conjunto nas traduções, bem como os segredos da arte chinesa que ambos coleccionavam. Por esta razão, os escritores portugueses Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes permaneceram na família Jorge como homens sensatos, dignos de respeito e de honra”.

Pessanha e Moraes a caminho?

Parece evidente que os dois escritores cujo espólio Carlos Marreiros refere estão encontrados. Mas, confrontado com os nomes, o responsável, bem disposto, prefere não confirmar. “Já pensou em António Patrício? E na poetisa Anna Tamagnini Barbosa? Agora tem quatro nomes”, atira. Ambos os escritores viveram, de facto, em Macau no começo do século XX – Patrício, conhecido pela sua dramaturgia, assinou textos como “Pedro, o Cru” (1918) e “Dinis e Isabel” (1919); Tamagnini Barbosa é a autora de “Lin Tchi Fá – Flor de Lótus”, poesias publicadas pela primeira vez em 1925. Só que as relações entre a família Jorge, Wenceslau e Pessanha são evidentes e estendem-se também aos dias de hoje e a Pedro Jorge Barreiros.
O neto do mediador de culturas regressou pela primeira vez a Macau, onde nasceu em 1943, para o 70º aniversário da “Clepsydra”, de Camilo Pessanha, em 1990. Em 1995 publicou em Portugal, pela Gradiva, a obra “As Elegias Chinesas de Camilo Pessanha”, ilustrada com pinturas também da sua autoria.
É o próprio Pedro Jorge Barreiros que, num texto datado de 1990 sobre Pessanha e um episódio que envolve Amália Barreiros, sua tia, dá conta da proximidade do poeta à família: “O austero José Vicente Jorge – meu Avô – não concordava de vez com a sua vinda, achava que não era de deixar uma sua filha atravessar o Mundo para vir para Lisboa estudar. Foi Camilo Pessanha, seu amigo e grande frequentador da sua casa que o conseguiu convencer a deixá-la partir estabelecendo-lhe uma mesada e escrevendo uma carta à sua irmã maçónica D. Ana de Castro Osório a recomendar a ‘gentil menina’ e a pedir-lhe que a recebesse em sua casa. E assim a Tia Amália veio para Lisboa estudar Medicina, sob a égide do Poeta!”
Mais tarde, já em 2004, Pedro Jorge Barreiros comissaria as comemorações do 150º aniversário do nascimento de Wenceslau de Moraes em Portugal. E ainda hoje é presidente da direcção da Associação Wenceslau de Moraes (www.wenceslaudemoraes.net), criada em 2007.
É certo que Carlos Marreiros não corrobora a tese de uma casa-museu que albergue sob o mesmo tecto os espólios da família Jorge e ainda dos dois escritores referidos. Mas, dito tudo isto, tire o leitor as suas conclusões.

Fotobiografias a caminho

À fotobiografia de José Vicente Jorge, já anunciada e que conta com um prefácio de Tereza Sena, o Albergue da Santa Casa da Misericórdia vai juntar a de Carlos d’Assumpção, advogado e antigo presidente da Assembleia Legislativa de Macau.
Uma vez mais, o trabalho de investigação pertence a Celina Veiga de Oliveira, que já assinara uma biografia de Carlos d’Assumpção e, no ano passado, coordenara uma exposição de fotografias no Albergue. Carlos Marreiros garante que, como noutras ocasiões, “a edição será trilingue”.
O director do Albergue quer continuar a publicar fotobiografias, “ao ritmo de duas por ano, e avança também o nome de Roque Choi, empresário e antigo presidente do Leal Senado. A instituição, refere o director, não tem capacidade para produzir mais que duas fotobiografias por ano, uma vez que “este é só um dos vários aspectos do trabalho do Albergue”.

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