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História de uma vida nada normal

April 16, 2010

É a única arguida que se encontra em prisão preventiva. A mulher de Chan Lin Ian, um dos empresários que alegadamente subornou Ao Man Long, foi ontem ouvida em tribunal. Acusada de branqueamento de capitais, Lam Man I jurou desconhecer o propósito das transferências que fazia a pedido do marido, que se encontra em parte incerta. E contou que nem sequer viviam juntos.

Foi ontem ouvida em tribunal a mulher do empresário Chan Lin Ian, no âmbito do quinto processo relacionado com o escândalo Ao Man Long. Lam Man I é a única arguida num total de 13 (duas são pessoas colectivas) que se encontra detida em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Macau. É acusada de cinco crimes de branqueamento de capitais, todos eles em co-autoria com o marido e outros arguidos do caso.
O Ministério Público diz que Lam Man I – mãe de três filhos e apenas com o 3º ano do ensino primário – abriu contas bancárias em Macau e Hong Kong que serviram para fazer transferências de valores prometidos a Ao Man Long. De acordo com a Rádio Macau, a mulher confessou ser titular dessas contas, mas garantiu desconhecer a finalidade com que o marido as utilizava. Bastante emocionada, admitiu ter passado cheques e feito transferências. Mas fazia-o por indicação do marido, de quem nunca desconfiou. Chan, que se encontra a monte e está a ser julgado à revelia, dizia-lhe que os valores eram para pagar mercadorias no âmbito dos seus negócios. Era ele que depositava o dinheiro e ela limitava-se a fazer os movimentos.
Uma das contas bancárias indicadas nos autos é de Hong Kong; outras são de Macau e serviam, explicou, para o pagamento de imóveis adquiridos. No caso da conta da RAEHK, Lam e o marido tinham a intenção de comprar casa na antiga colónia britânica, porque a mulher queria mudar-se para lá. Acabou por abrir a conta sem o conhecimento do marido em 2005, relatou a Rádio Macau, numa deslocação a Hong Kong para ir ao médico.
A arguida foi ainda inquirida sobre os negócios do marido. Na resposta, o tribunal ouviu Lam Man I dizer que não acredita no envolvimento de Chan
em práticas ilícitas, mas sublinhou desconhecer os pormenores da sua actividade. Sabia apenas que o engenheiro – consultor da Melco para a construção do Crown e do City of Dreams – trabalhava na área da construção. Pouco falavam sobre o trabalho dele, acrescentou ainda, referindo que “não tinham uma vida normal”.

Um casamento, casas separadas

Lam Man I contou em tribunal que “não convivia socialmente” com o marido e nem sequer dormiam debaixo do mesmo tecto. Pelo depoimento que fez, trata-se de uma relação atípica: ela vivia com os três filhos do casal e Chan Lin Ian habitava a casa da mãe. O casamento só foi registado em 2004, já depois do nascimento dos filhos. E só aconteceu por sentir obrigações familiares.
Questionada pelo seu defensor, Pedro Redinha, acerca de não ter uma “vida normal”, a arguida explicou que, quando conheceu Chan Lin Ian, este era divorciado e tinha um filho. Porém, mais tarde surgiram outras duas mulheres e duas crianças, uma situação que a chocou e que a fez sentir-se “enganada”, citou a estação de rádio em língua portuguesa. E essa foi a causa do adiamento do casamento.

Wu e o pai de Chiang

Antes de Lam Man I ser ouvida, o tribunal concluiu a inquirição ao empresário Miguel Wu Ka Yi, acusado de corrupção activa em co-autoria por causa de um projecto da sua empresa, da qual Pedro Chiang era também sócio, relativo à construção de 17 vivendas junto ao Túnel da Guia, e que acabou por não ser concretizado.
Miguel Wu começou a ser ouvido na quarta-feira. Ontem, reiterou a confiança que tinha em Pedro Chiang, com o qual trabalhava há 20 anos, e disse mais uma vez desconhecer o alegado acordo entre este e Ao Man Long relativo ao projecto.
David Gomes, advogado de defesa do pai de Pedro Chiang, também arguido neste caso, quis saber da participação do octogenário Lam Yim nos negócios do filho. Wu contou que o facto de Pedro Chiang ter muitos negócios o levou a pedir aos familiares para o representarem, tendo ainda afiançado que Lam Yim jamais participou em reuniões da empresa – limitava-se a assinar documentos e escrituras a pedido do filho.
O julgamento continua na próxima quarta-feira.

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