O Monstro precisa de amigos
Partiu, voltou, partiu, voltou. É assim com muitos dos que têm Macau como terra e também com António Conceição. O Monstro, heterónimo e projecto musical que nasceu no território e foi parir a Portugal, veio na mala e está em hibernação. Mas ou muito nos enganamos ou não vai aguentar muito tempo na toca.
Hélder Beja
Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque escreveram assim: “Olha Maria/ Eu bem te queria/ Fazer uma presa/ Da minha poesia/ Mas hoje, Maria/ Pra minha surpresa/ Pra minha tristeza/ Precisas partir”. O Monstro canta assim: “Quem já não te vê sou eu/ E quem me espera é a Maria…”. Podia não ter nada que ver – afinal, Marias há muitas. Mas tem. António Conceição, O Monstro – projecto a solo de que “Canção Diário”, disco editado em 2009, é o primeiro registo – revela sonoridades partem de influências como (cá está) Jobim, Los Hermanos ou os míticos Ornatos Violeta (o título deste texto não vem ao acaso) e está de volta a Macau. Hibernado, que isto do calor não quer nada com canções românticas. Não quer?
“O Monstro é um romântico, para o bem e para o mal”, diz-nos este António Conceição, 24 anos, mestre em Cinema e Televisão, aprendiz das artes da guitarra e de escrever para ela. Como muitos dos que vivem no território, foi para Portugal estudar, no Porto. Trabalhou com VJ em discotecas, editor de publicidade em agências lisboetas, músico ocasional em bandas diversas. Agora regressa e promete superar-se, investir na música, no cinema, na vida. “Só encontras uma grande cura no amor quando tens o coração muito partido. Nesta minha música [“Temia Ser Verdade”], essa cura é a Maria”. Um Monstro (http://www.myspace.com/omonstro) que é mesmo para levar a sério, faz favor.
- Vens de Portugal com música na bagagem mas começaste a tocar em Macau, certo?
António Conceição – Sim. A malta aqui, tanto nos liceus como a malta amiga fora dos âmbitos escolares, incentivava-nos a tocar e a fazer música. Tinha cá um grande amigo que também foi para Portugal para fazer o curso comigo e ficou em Barcelona pelo caminho, e tínhamos uma banda de rock’n’roll, os Bleach Effect. Uma coisa assim a puxar para o punk mas nada de muito pesado. Em Portugal, conheci muitos músicos – é das coisas boas que Portugal tem, parece que se sente uma predisposição para que se encontrem músicos, para que existam trocas de experiências musicais – e comecei a tocar com os Dislexic no Norte de Portugal e em Espanha. Em 2009 vim passar três meses a Macau, num momento de limbo em que não sabia se devia regressar ou se continuava em Portugal. Nessa altura comecei a compor as coisas do Monstro e decidi que gostava de apostar num projecto que não dependesse de mais pessoas.
- Nos projectos anteriores tocavas baixo?
AC - Tocava baixo, guitarra, era vocalista, noutros tocava bateria. Ia sempre rodando os instrumentos. A partir do momento em que conseguíamos conjugar os esforços, não interessava o que estava a tocar ou a fazer.
- Fizeste o Conservatório aqui?
AC – Não fiz o Conservatório todo. Até aos 14 anos, cá, tocava violino.
- E ainda tocas?
AC - Não. Depois descobri um instrumento espectacular chamado guitarra (risos). Não desvirtuando absolutamente nada o violino, aquela idade puxava mais para guitarra, o pessoal tocava guitarra e era o que eu queria aprender. Com a ajuda e a guitarra do pai [António Conceição Júnior], lá fui aprendendo.
- O teu pai também tocava?
AC - Tocava num conjunto chamado Os Intelectuais, que era uma cena toda folk, ao que me dizem era uma cena porreira. Ele fala de uma gravação que se tinha feito, acho que num concerto na Escola Comercial, em que jovem macaense tinha registado tudo com um gravador. O meu pai gaba-se imenso, altos aplausos na actuação deles (risos). Talvez esse jovem ainda ande por aí e leia esta entrevista. Era bom ouvir Os Intelectuais um bocadinho.
- Vamos ao Monstro. Neste projecto escreves para canções. Era uma coisa que já tinhas feito?
AC – Sim, já tinha feito isso. Aqui nunca sentimos grande necessidade de estar a tocar músicas dos outros, gostávamos muito desse processo de compor. Nem que fosse pela escola do CD, ouvir 200 CD e tentar perceber as estruturas e basearmo-nos muito neles. Na verdade fazíamos autênticas cópias de outras músicas com uma enorme vontade de que fossem nossas. Clarificávamos muito bem aquilo que queríamos fazer, o som que queríamos atingir, e a partir daí tentávamos musicar à nossa maneira. O Monstro foi a primeira experiência a compor em português, até lá tinha sido sempre em inglês. O inglês é uma forte influência aqui em Macau, o contacto com a música portuguesa é muito reduzido.
- Como foi esse processo de criares a tua própria poética?
M – Foi mais instintivo, não foi um projecto de laboratório. Foi mesmo tentar fazer alguma coisa com o pouco que tinha à minha volta. Não sei se foi por ter passado muito tempo em Portugal e ter começado a apreciar mais bandas que cantassem em português. Lembro-me também que na altura tinha uma enorme influência do Seu Jorge, do CD “The Life Aquatic”, em que ele toca músicas do David Bowie em português, e eu admirava imenso a capacidade que ele tinha para mudar as letras e criar um resultado incrível. Quando comecei a pegar na guitarra foi também num momento se calhar de alguma solidão, de sentir que deixei em três meses muita coisa para trás, que não me apetecia ter deixado, e as recordações que me vinham eram em português. Antes, a grande de vontade que tínhamos quando compúnhamos em inglês era internacionalizar a música, sempre naqueles sonhos altíssimos de pensar ‘se alguma vez isto der, ao menos o mercado internacional há-de estar aberto’. Neste caso não, foram músicas compostas em forma desabafo. Se são letras com profundidade, já não posso ser eu a dizer.
- Há pouco falavas de músicos que conheceste em Portugal. Houve outras influências, de pessoas que não conheceste mas que foste descobrindo?
AC - Sim. A banda que mais impacto teve em mim em Portugal foram os Ornatos Violeta. Nem considero que me tenham influenciado muito, mas são uma banda muito presente no Porto, mesmo depois de terem acabado, parece que existe uma aura gigante sobre o espírito dos Ornatos. Que já não passa só pelo Manel Cruz [vocalista, compositor e letrista dos Ornatos] nem pela poesia dele, passa por aquele conjunto ter aparecido naquela altura e naqueles conformes. Tudo o que veio a seguir a eles nunca me chamou. O Foge Foge bandido, mais recentemente, se calhar também teve algum impacto em mim, mas já apareceu depois de eu começar a escrever as coisas do Monstro. Mas, surpreendentemente, teve muito mais importância neste processo todo ouvir música brasileira do que portuguesa. O Tom Jobim, os Los Hermanos… E o contacto com as bandas desconhecidas que eu conheço, os projectos do Porto, dos meus amigos… Eram também pessoas que gostavam de experimentar coisas em português e isso ajudou bastante.
- O nome do teu projecto tem alguma coisa a ver com os Ornatos Violeta e o disco “O Monstro Precisa de Amigos”?
AC - Não, por acaso não. É um heterónimo que não passa pelo género musical mas pelo género temático. Aquilo que canto faz-me chamar a esse heterónimo o Monstro.
- Consegues definir melhor esse heterónimo?
AC – Sabes quando os miúdos estão sozinhos à noite no quarto? É o único momento em que os monstros aparecem. Agora que adultos, os nossos monstros, os nossos fantasmas, aparecem de noite e de dia. É uma imagem que nos transporta para um momento de reflexão, de solidão. As músicas deste Monstro são marcadamente de amor, o Monstro canta amor.
- É um romântico, o Monstro?
AC - Sim, para o que é bom e para o que é mau, é um romântico. Proporcionalmente falando, fala tanto de amor como de dor. O amor não pressupõe só mulheres mas também a vida, o melhor amigo, os meus pais, aquilo que merece ser amado. O Monstro foi criado porque as cancções não se associam à dimensão atómica do cantor. A minha massa é demasiado grande para alguém achar que um gajo grande e barbudo está a cantar estas coisas. A maior parte das pessoas pensa num magricela, pequenino, que chora pelos cantos, quando não é – é um gajo que também se enraivece, que se indigna e tem chatices. É sobretudo o contraste da minha figura com a sensibilidade, na perspectiva em que sou sensível a pessoas e a situações, e é isso que me faz escrever as músicas.
- Em Portugal apareceu uma corrente que podemos relacionar com a música que fazes e que se concentrou em Lisboa, em boa parte na editora Flor Caveira. Alguma vez tiveste contacto com eles?
AC – Houve uma queda para este estilo de música em 2009, sem dúvida. Tive contacto com um deles antes de ele ser o que é hoje: o João Coração (www.myspace.com/joaocoracao) era do meu curso de Som e Imagem, na Universidade Católica do Porto. Não fui correndo atrás deles, mas a certa altura começámos a perceber – e falo no plural por causa das pessoas que também intervieram neste projecto – que o que fazíamos se estava a encaixar num género musical que estava a ter bastante atenção em Portugal. E acabei por ter alguma projecção, mais que a que esperava que viesse a ter. Musicalmente, eles não me influenciaram. Influenciaram sim na onda que estava a surgir em Portugal. Se calhar também tirei um bocado de proveito disso e fui-me chegar perto das pessoas que sabia que tinham algum interesse por esses músicos e perguntar-lhes se estavam interessados na minha música, se gostavam da minha música.
- O teu disco, “Canção Diário”, teve uma edição limitada de 100 cópias. É uma edição de autor?
AC - É uma edição de autor mas com a Bloom por trás. Foi a Bloom que editou o CD. Depois a agência em Portugal, os 02mamutes, tomou conta da distribuição e da divulgação. Desafiei os meus amigos desta agência, eram colegas de curso que também estavam numa situação de pouco trabalho e precisávamos de nos safar. E a música era um caminho, é um caminho. Ajudámo-nos uns aos outros. Eu faço-te o videoclip, tu fazes-me a produção, íamos trocando no fundo aquilo que tínhamos aprendido com a experiência e com o curso e servíamo-nos uns aos outros. A gravação do disco foi nuns moldes mais influenciados por artistas como Devendra Banhart, que tem um CD que basicamente foi gravado em casa, com um microfone muito reles, mas que é doce. Como Bon Iver, como o John Frusciante. São gravações que te contextualizam, que te põem num espaço, que não fazem de qualquer espaço onde estejas o espaço da música. É convidativo a entrares no cenário.
- Em Portugal actuaste muito?
AC – Dei alguns concertos nas Fnac mas essencialmente em várias casas portuenses. Estive no Pinguim Café, na Fábrica do Som. Era para ter ido ao Passos Manuel e tive muita pena de não ter ido.
- A tua relação com Lisboa e Porto deve ser diferente. Numa estudaste, noutra trabalhaste. Como é que as vês?
AC – Lisboa é uma cidade feminina, uma cidade mulher. O primeiro impacto que tive foi a falta de contacto visual, as pessoas têm uma grande tendência a olhar para baixo. Se calhar pela agitação toda, a quantidade de tarefas, o stress… Cada um segue a sua rotina no meio de milhares de rotinas. Lisboa é mais resguardada, não é tão denunciada e torna-se misteriosa porque quando existe esse contacto visual parece que é uma surpresa dos dois lados. Já o Porto, acho muito mais másculos, mais afrontador e directo. São pessoas que não se ficam e que por um contacto visual compreendem qualquer coisa ou procuram compreender, ao ponto de te virem perguntar ‘Mas estás a olhar? Queres alguma coisa?”. Depois é a parte nocturna. A noite de Lisboa não é pior nem melhor que a do Porto mas é muito mais feminina. O índice feminino em Lisboa é enorme e a noite é conduzida pelas vontades delas. O Porto é uma cidade muito mais irmã do que cúmplice em amores ou noutra coisa qualquer.
- Agora não há Porto nem Lisboa. Como é que pensas este projecto a partir de Macau?
AC – Pretendo superar-me. A distância para Portugal pode ser uma barreira, porque isto é China, por mais presença portuguesa que exista. A situação geográfica não me permite dizer que isto é Portugal, nem a situação cultural. E ainda bem, porque é o que faz de Macau o que é. Mas o facto de estar longe não permite ter tanta actuação de Monstro, não permite tanta audiência como gostaria de ter, mas são factores normais. Sabes que quando falei com o António Falcão [responsável pela Bloom, que editou o disco] sobre o projecto, tínhamos vontade de tornar isto num objecto de culto, que não fosse uma coisa mainstream, circulável em todo o lado. Queríamos que fosse um bombom muito gostoso, distribuído aqui e ali, que fosse parar às mãos certas, às pessoas que realmente apreciavam este tipo de música. Este é um heterónimo que depende muito das estações do ano, não acho que seja um heterónimo de verão nem de primavera, é um heterónimo de frio. É uma música que pretende chegar as pessoas mais perto umas das outras e se calhar entrar numa onda mais de introspecção, mais de sussurros. No verão tu queres é festa, queres saltar e pular, entrar na água e sair, apanhar sol. Isto não é uma música para fazer isso. O Monstro volta para a sua toca, para onde começou.
- Mas volta e a prepara o regresso. Estás a trabalhar um novo disco, certo?
AC - Sim, tento conseguir completá-lo, se não no próximo inverno, no que vier a seguir. As composições já tinham sido trabalhadas antes de regressar a Macau, não na perspectiva de fazer um novo álbum mas porque surgiam músicas e porque queria falar. Este heterónimo é muito pessoal, quase que não é um heterónimo.
- O Monstro vai estar em hibernação total? E tu?
AC – Fui convidado por um grupo de amigos para tocar nos Nuuq. Estou a tocar guitarra eléctrica, outra vez na onda mais rock’n’roll. Agora, se O Monstro vai aparecer outra vez, não te vou dizer (risos). O Monstro não aparece, faz umas aparições. Quem está, está, quem não está…
- Mas concertos programados tão depressa não?
AC - Serão mais de surpresa do que programados. Coisas mais pontuais, se forem, mas não vou entrar numa agenda de concertos. Se tanto, guardarei isso para o inverno.
- E o cinema, está arrumado numa gaveta ou pensas fazer coisas em Macau?
AC - Estou a fazer e a planear muita coisa. Não estou parado, continuo a trabalhar para Portugal, mas estou a apostar nas minhas ficções e no Monstro.
- A trabalhar em ficções?
AC - Sim, vão existir ficções a nível videográfico. Mas isso fica para depois (risos).
