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“Pintar Mao é muito útil”

March 31, 2010

Útil para quem chegou há pouco tempo à profissão de artista, apressa-se a explicar Meng Yan, que veio a Macau mostrar como vê o mundo a partir de Xangai. Retratar celebridades não é necessariamente um exercício de diletantismo. Pode também ser o modo mais indicado de usar a aparência de cada um para dar expressão à alma humana, diz ele.

Ricardo Pinto

Meng Yan, artista plástico nascido em Jiangsu e radicado em Xangai, está em Macau para mostrar alguns dos seus trabalhos no mesmíssimo local onde a revista Macau Closer celebra esta noite o seu 3º aniversário: o último andar do Hotel Sands – The View.
Aos 38 anos, Meng Yan começa a ver a sua obra ganhar um reconhecimento internacional cada vez maior, depois de ter efectuado duas exposições em Banguecoque, na Tailândia – que foram também as suas primeiras fora da China. Licenciado pelo Colégio de Belas Artes de Pequim, passou os primeiros anos da sua carreira a pintar paisagens, por encomenda. Com o advento do movimento da arte contemporânea chinesa, decidiu tomar conta da sua obra e trabalhar com temas e técnicas que o realizassem enquanto artista. O resultado pode agora ser visto no The View, onde a actuação em paralelo da banda The Nuke e de vários DJs promete fazer da festa da Macau Closer uma noite memorável. Antes do evento, Meng Yan explicou ao PONTO FINAL algumas das opções que vem tomando ao longo da sua carreira.

– Como começou a sua carreira artística? Onde foi buscar inspiração?
Meng Yan –
Em primeiro lugar, para se ser verdadeiramente artista tem de se abraçar a vida com paixão. Tem de ser qualquer coisa como o fogo e gerar um amor sem fim para todos os seres no Universo. Mas para se conseguir isso, tem de se passar por um processo de aprendizagem. Tem de se adquirir uma boa técnica de pintura; tem de se viver com uma forte determinação e perseverança, e disposição para sofrer sozinho; partilhar sabedoria e compreensão fora de comum; ser afectuoso, atento e benevolente. Para se criar arte, tem de se começar por interpretar os sentimentos próprios. No mundo de hoje, um sentimento de perda emerge de várias crises, sempre que alguém tem de se confrontar com desastres naturais, poluição ambiental, aquecimento global, a ambição sem fim do ser humano, a guerra, os assassínios, a alienação humana, o colapso moral, a crise religiosa, a corrida às armas entre as nações. Os meus trabalhos passam por viver a vida com paixão para assim amarmos o mundo, na esperança de aprendermos, alertarmos e lembrarmo-nos do necessário retorno à autenticidade. Se alguém é bom, o seu rosto não deixará de reflectir isso. Se alguém é mau e ambicioso, o seu retrato será feio, se não mesmo distorcido. A aparência das pessoas diz muito sobre elas. E o que eu procuro fazer é usar do melhor modo a aparência de cada um para dar expressão à alma humana.
– O que o leva a embarcar em diferentes estilos nas diferentes fases da sua carreira? Primeiro as paisagens bucólicas, depois os retratos de celebridades, mais tarde a mulher, e agora um certo fascínio pela morte.
M.Y. –
À medida que fui crescendo interiormente, no conhecimento, na compreensão, nas necessidades pessoais, na paixão pela vida, nas experiências de vida, fui criando trabalhos de diferentes estilos. Em geral, só tenho dois tipos de trabalhos. Uns são líricos e laudatórios; os outros são críticos, educacionais e reveladores.
– O seu público compra os seus trabalhos porque os admira ou por uma questão de investimento?
M.Y. –
Não tenho grandes estudos feitos sobre isso, mas tenho a certeza que gostam dos meus trabalhos. Quanto a poderem ser considerados um bom investimento, isso será sempre verdade enquanto lhes for atribuído um valor comercial.
– Há muito quem pense que a arte chinesa contemporânea se está a tornar demasiado comercial.
M.Y. –
O que tenho podido apreciar até aqui é que muitas das obras contemporâneas tendem a ser muito comerciais e muito poucas têm um pendor puramente artístico.
– Que tipo de atitude podem ou devem os artistas chineses adoptar face às pressões comerciais ou políticas?
M.Y. –
É muito difícil um artista viver unicamente da produção artística na China, já que não existem instituições idóneas que os suportem. Daí que os artistas tenham especiais cautelas para que os seus trabalhos não tenham conotações políticas e prefiram seguir um rumo diferente, mais focado nas questões estéticas. Nesta perspectiva, a arte não está tanto condicionada por preocupações politicas ou financeiras, antes tem um maior cuidado pelo valor intrínseco de cada obra.
– Pintou muitos retratos de Mao Zedong e também de celebridades do mundo do entretenimento. As pessoas têm razão se pensarem que essas são também obras comerciais?
M.Y. –
Pintar o Mao ou outras celebridades que nos são familiares é muito útil para quem acaba de chegar a esta profissão, porque se torna mais fácil transmitir assim emoções. Mas acredito que a forma como apreciamos as obras deriva em grande parte do ângulo que os artistas adoptam nos seus trabalhos. Se um apreciador achar que é comercial, então é porque provavelmente é mesmo, independentemente de se referir ou não a uma celebridade.
Em todo o caso, não interessa muito a forma como outros avaliam o nosso trabalho. Enquanto tivermos uma atitude correcta perante a arte, enquanto procurarmos seguir uma forma de expressão única e original, e enquanto tivermos preocupações de afectividade, tenho a certeza de que seremos capazes de reproduzir a real dimensão da natureza humana.
– Os seus trabalhos mais recentes tendem a tornar-se mais abstractos e a fixar-se sobretudo na questão da vida e da morte. Receia que isso possa ter reflexos negativos na avaliação que fazem do seu trabalho?
M. Y. –
Os preços das minhas obras são fixados de acordo com o seu valor. Se é alto, a avaliação também é alta. Ninguém quer ter uma obra má, mesmo que seja dada. O preço diz-me pouco, já que está muito dependente das vendas e do estado do mercado.
Mas não acho que os meus trabalhos estejam a tornar-se abstractos. Julgo que são até muito sólidos e vivos. Quem quer que tenha visto os meus trabalhos recentes, tenho a certeza que terá ficado profundamente tocado, fazendo em torno deles um certo esforço de introspecção. É por isso que eu pinto. A mim o que me interessa não é se a minha reputação é muito boa ou muito má; o que me interessa é saber que sou uma pessoa bem intencionada. Alertar as pessoas para a necessidade de enfrentarem os problemas com uma atitude saudável, de aprenderem a dar importância à vida, ou de fazerem alguma coisa boa por este mundo, tudo isso requer coragem e determinação.
– Alguma vez achou que viria expor a Macau, ou a Hong Kong ou a qualquer outro ponto fora do Continente chinês?
M.Y. –
Eu tenho sempre esperança que os meus trabalhos cheguem às pessoas e que as influenciem. Por isso, sempre que a oportunidade surgir, irei expor onde for preciso. O importante é o significado de estar presente.

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