“A China vai mudar a sua maneira de governar”
D. José Lai, o bispo de Macau, acredita na aproximação entre a igreja sob a égide de Pequim e a Santa Sé. Entende que a China mudará a sua maneira de governar e que já não se justifica hoje a existência de uma igreja patriótica, independente do Vaticano.
A abertura da China nos últimos 30 anos permite antever que a sua “maneira de governar” vai mudar, defende o bispo D. José Lai ao constatar que se está a caminhar no sentido da comunhão da Igreja Católica.
“Verificaram-se muitas mudanças na China, por exemplo, a abertura de muitas igrejas católicas e seminários e concessão de autorização a alguns seminaristas para estudarem no estrangeiro, porque eles (China) sabem que não se pode fechar tudo, a Igreja é universal, e os seminaristas e padres precisam de uma formação sólida”, constatou em entrevista à Agência Lusa o bispo de Macau.
D. José Lai sublinha “não ser profeta”, mas considera que se “está a “caminhar no sentido da comunhão de toda a Igreja Católica” ao defender que, “com um sistema baseado numa cada vez maior abertura e reforma, a China vai mudar a sua maneira de governar”.
A união entre a Igreja Patriótica, reconhecida apenas por Pequim com bispos nomeados pela Associação Católica Chinesa e não pelo Vaticano, e a igreja clandestina católica, que continua a obedecer ao Papa, a par da transformação da primeira numa organização que fosse reconhecida pelo Vaticano são para D. José Lai as soluções que abririam caminho a uma reconciliação entre Santa Sé e Pequim.
“Essa divisão é uma situação dolorosa porque a Igreja deve ser una, devendo-se a vários factores, designadamente históricos, decorrentes da decisão do Governo chinês na década de 1950 de não aceitar missionários estrangeiros no país”, explicou o bispo.
D. José Lai considera este como o momento oportuno para se “unir as duas comunidades católicas na China”, com cerca de 12 milhões de católicos, ao constatar que “têm havido tentativas de diálogo, mas que existem impedimentos”, como a falta de confiança mútua e a interferência do Governo central, que “não facilita esse intercâmbio e comunicação”.
Por outro lado, defende, hoje “já não existe a necessidade de existir uma Igreja independente” (Patriótica), que o Papa já salientou “ser contrária à doutrina católica”, e a sua função “tem de mudar, porque não pode estar acima da Conferência Episcopal”.
“Penso que poderá funcionar como uma ligação entre a Igreja Católica e o Governo ou para coordenar as actividades sociais da Igreja junto do Governo, mas sem a colocar acima do bispo, pois isso seria inaceitável para a Igreja Católica”, sublinha D. José Lai, que já sugeriu às autoridades chinesas a possibilidade da Igreja submeter à apreciação nomes para bispos.
“É um costume da Igreja Católica, que seria uma forma de resolver o problema entre o Governo chinês e o Vaticano”, sustentou o bispo ao referir que nos últimos dois/três anos não foram discutidos mais pormenores com Pequim.
D. José Lai deslocou-se, entre 22 e 24 de Março, ao Vaticano para uma reunião da comissão encarregue de estudar as questões da Igreja católica na China, em que a formação do clero esteve no centro da agenda, disse à Lusa, ao acrescentar que Macau aguarda ainda autorização para dar formação a seminaristas do continente chinês.
