Quando o metro era só uma medida
Inaugura hoje, no Museu de Arte de Macau, a exposição “Fluxo de Mudança: Imagens Antigas da Paisagem Urbana ao Longo do Traçado do Metro de Macau”. São 59 fotografias para recordar um território que já não existe.
Hélder Beja
A Avenida Almeida Ribeiro e a Infante D. Henrique, o Porto Interior nos anos 1950 ou Coloane na década de 1970 são alguns dos lugares que a exposição “Fluxo de Mudança: Imagens da Paisagem Urbana ao Longo do Traçado do Mentro de Macau”, recupera no Museu de Arte (MAM) a partir de hoje.
Ao todo, são 59 fotografias pertencentes à colecção do MAM, para ver na Galeria do Piso 3 até ao final do ano. A ideia é revisitar os lugares por onde, a partir de 2014, estarão instaladas as 21 estações do metro ligeiro de Macau. “São registos feitos em diversos momentos do tempo e permitem um olhar sobre as transformações da cidade”, explica o MAM em comunicado.
Os condutores de riquexó, viagens de autocarro até Hac Sa ou os barcos de vela na Praia do Manduco podem ver-se pela objectiva de fotógrafos como Lei Chiu Vang, Ou Ping, Lei Iok Tin e José Neves Catela. Catela, português já falecido que teve uma exposição individual no MAM em 2003, chegou a Macau em 1925 e viveu no território durante 16 anos, tendo trabalhado como fotojornalista para várias publicações.
“Desenvolvimento necessário”
No prefácio da exposição, o director do MAM, Chan Hou Seng, refere que “a mudança e o desenvolvimento são ambos necessários”. “Mas não devemos ser imprudentes na implementação das mudanças”, aponta, remetendo para a modernização da rede de transportes através do novo sistema de metro. “Conseguir um equilíbrio entre o desenvolvimento e o ambiente” é, para o responsável, o factor decisivo.
Sobre a exposição, Chan Hou Seng não diz grande coisa. Considera “que todos os que nasceram e cresceram em Macau, irão olhar para estas fotografias com o sentimento de ‘o que me abandonou ontem’ [sic]”. E acrescenta: “Ao mesmo tempo, a ânsia por um sistema de transporte moderno levará a que alguns sintam ‘são estas coisas de hoje’ [sic]”. As referências um pouco truncadas são para um texto do poeta da dinastia Tang, Li Bai, que o director do MAM cita juntamente com Confúcio.
Chan Hou Seng lembra que “há mais de quatro séculos, Macau era apenas uma pequena localidade piscatória, inconsciente da série de acontecimentos que a transformariam num centro cultural de intercâmbio entre a China e Ocidente”. O responsável repassa depois a evolução do território durante o século XX, também visível nas fotografias agora expostas. “Ainda nos anos quarenta e cinquenta, Macau era uma cidade pequena e com pouca população (…). Nos anos setenta e oitenta, deu-se um grande desenvolvimento económico, e a cidade começou a partilhar da visão da comunidade internacional.”
Mas “o grande ponto de viragem” para este fluxo de mudança de que fala o título da exposição “deu-se em 1999, com o retorno da administração chinesa, um baptismo histórico que transformou a bucólica cidade numa cidade fervilhante, ao entrar na corrente da actividade internacional”, refere Chan. As mudanças operadas pela “reforma monumental da indústria do jogo” vão do “grande desenvolvimento do turismo e indústrias de lazer” à “pressão sobre as infra-estruturas dos transportes”. O resultado, refere o director do MAM, foi a “abertura de um novo capítulo na forma como a população se desloca na cidade”.
Os lugares de Macau que as fotografias mostram já não os mesmos e sê-lo-ão ainda menos depois da chegada do metro ligeiro. Chan considera que, quando o novo meio de transporte entrar em funcionamento, “novas e interessantes mudanças irão ocorrer no cenário da cidade. A beleza do cenário citadino é precisamente a mudança que ocorre entre as suas alterações, e as alterações decorrentes das mudanças”, frisa.
