A deficiência como uma oportunidade
Do seu currículo constam quase duas centenas de medalhas em natação, ciclismo, atletismo e triatlo. Aos 25 anos, Hoi Long, atleta surda-muda, alcançou a notoriedade em Macau, já sendo considerada por muitos “a melhor desportista do território”.
Luciana Leitão
O seu mundo é silencioso. Os carros podem buzinar que ela continua, indiferente, a pedalar na bicicleta. Quando disputa natação ou atletismo, por não ouvir o sinal de partida, arranca, muitas vezes, em último lugar. As dificuldades são muitas, mas Hoi Long, sobejamente conhecida pelas vitórias locais, regionais e internacionais, superou-as e é hoje considerada por muitos a melhor atleta de Macau. E sim, é surda-muda.
Começou a praticar natação aos seis anos, apenas porque a mãe queria. Àquela idade, nada mais era do que um hobby. Durante dez anos foi o único desporto que treinou, sem particular entusiasmo, até descobrir o ciclismo. “Era bem mais divertido do que a natação”, diz. Um ano depois, viria o triatlo e as medalhas começaram a acumular-se.
As primeiras vitórias
Logo em Setembro de 2002, alcançou o primeiro lugar na prova local de triatlo e, um mês depois, obtinha um terceiro lugar no Campeonato Asiático de Triatlo de Hong Kong, categoria de senhoras (juniores). Mas continuava sem levar muito a sério o desporto e desvalorizou estas vitórias. “No primeiro caso, só mais havia mais duas raparigas a competir”, declara, rindo-se.
Acabou por vir a concluir a licenciatura na Faculdade de Gestão Desportiva da Universidade de Educação Física de Pequim. Só depois disso é que decidiu levar a sério a prática desportiva, aumentando a intensidade dos treinos.
Assim, logo que concluiu a licenciatura, dedicou-se ao triatlo, praticando, em média, entre três a quatro dias por semana.
Ao longo da sua carreira, foram inúmeros os eventos locais, regionais e internacionais onde participou, mas lembra-se em particular de um, por ter sido o seu pior resultado de sempre. “Recordo-me bem da competição do ano passado na Coreia. Foi a primeira vez que, em ciclismo, fiquei em último lugar”, diz, acrescentando: “De início, fiquei desiludida, mas, eventualmente, apercebi-me de que há sempre alguém que termina em primeiro e em último.” Lição aprendida, seguiu em frente, em busca de mais medalhas.
Em Maio do ano passado, acabou por fazer História ao conquistar a medalha de ouro nos Jogos de Arafura, Austrália, tornando-se a primeira atleta surda-muda a vencer na categoria de triatlo e com uma marca olímpica – 1.5 quilómetros na natação, 40 quilómetros no ciclismo e 10 quilómetros no atletismo, em 2 horas 13 minutos e 13 segundos. Acabou, assim, por relegar para segundo lugar a antiga campeã da Austrália, Sophie Hawken.
As dificuldades da comunicação
Hoi não mente. Ser surda-muda e competir, de forma igual, com atletas de alta competição coloca algumas dificuldades. Por exemplo, no caso do ciclismo, chegou inclusivamente a ter dois acidentes por não ouvir a buzina de um carro e de um autocarro. “É a modalidade mais perigosa para alguém nas minhas condições”, diz, acrescentando: “A minha mãe tem sempre medo de que eu tenha novos acidentes à conta disso.”
Quanto às modalidades de natação e atletismo, como não ouve o sinal de partida, arranca sempre depois dos restantes colegas. “Dantes, isso era uma grande desvantagem, mas agora os meus treinos têm isso em conta e tento minimizar esse tempo perdido”, garante a atleta.
Os resultados comprovam-no. É por isso que, ao longo do seu percurso como atleta – que Hoi concilia com o trabalho no Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) –, alcançou tantas medalhas que nem se lembra. “Quase duas centenas”, afirma, arriscando um número, explicando que “algumas foram pela natação, outras por ciclismo e atletismo e umas pelo triatlo”.
Mas, de todas as modalidades, definitivamente é do triatlo que gosta mais. “É aquela em que se despende mais tempo e o resultado varia mais vezes. Adoro esta instabilidade”, diz Hoi.
O futuro dos atletas
Diz que não é uma atleta profissional, essencialmente porque trabalha durante o dia no Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) e, só depois, é que tem tempo para treinar. E, garante, mesmo que tivesse oportunidade, não se tornaria profissional. Tudo por ter consciência de quão curta é a carreira de um atleta e por ter medo de não saber o que fazer assim que terminar o seu apogeu no desporto.
É também por isso que, na sua agenda preenchida, ainda há tempo para um mestrado que está a frequentar, em Pequim, e que apenas obriga a que se desloque, três vezes por ano, à capital chinesa.
Sente-se lisonjeada com o título que por vezes lhe é dado de “melhor atleta de Macau”, mas discorda. “Até me podem dizer isso, mas sempre que vou lá fora e vejo os outros atletas, sei logo que não é verdade”, afirma.
Macau e o desporto
Hoi nem pensa na falta ou não de condições no território para melhorar a prática desportiva. “Se poderia ser melhor atleta, caso tivesse nascido noutro local? Não necessariamente. Estou satisfeita com as condições do território”, declara, sem hesitar.
Além disso, garante, conforme lhe diz o próprio treinador, “sabe que poderia ser melhor se o empenho no desporto fosse a 100 por cento”, mas nem sequer pondera abandonar o emprego.
Quanto a ser surda-muda, Hoi chegou a ficar nervosa com isso, sobretudo porque lhe dificultava a comunicação com os outros. “Como tenho dificuldade em articular as palavras, é preciso sempre alguém para interpretar o que quero dizer; caso contrário, não me percebem”, afirma. Acrescente-se a isso que, por não se tratar de uma deficiência visível, por vezes as pessoas acabam por considerá-la “mal-educada”.
Mas Hoi nem pensa nos inúmeros “ses” que se colocam na sua condição. Afinal, se não fosse surda-muda, talvez não tivesse conhecido as pessoas que hoje conhece e que a ajudaram a entrar no desporto. Talvez nem tivesse começado a praticar triatlo. É assim, e pronto.
