33 projectos, 17 originais, 3 territórios, 1 álbum
É um projecto único que pretende ser inspiração para músicos e para todos os que acreditam no poder das interacções culturais através da música. Algo como T(h)ree nunca antes havia sido feito, juntando músicos de Macau, Hong Kong e Portugal. O resultado da fusão está prestes a ser conhecido.
Paulo Barbosa
Juntar pela primeira vez no mesmo projecto músicos de Macau, de Hong Kong e de Portugal. É esta a ideia subjacente ao projecto “T(h)ree”, cujo disco será lançado em Maio. Ao todo, estão envolvidas 33 bandas, 17 faixas originais e, na estimativa do mentor do projecto, David Valentim, cerca de 100 músicos. Todos foram desafiados a fazer parcerias com artistas de outras paragens, com que tivessem alguma afinidade estética. Valentim baralhou e deu as cartas. O resultado é único.
“Em dois pontos diametralmente opostos do mundo, duas pessoas fazem exactamente os mesmos gestos, entram em casa e a luz acende-se”, ouve-se na faixa “The Double Life of Jeremy Bentham”, que junta os portugueses Erro! aos A.O.S., de Hong Kong. A letra adequa-se ao tom que perpassa por todo o disco. Como não juntar criadores oriundos de “dois pontos diametralmente opostos do mundo” sem sentir uma certa estranheza? Mas a verdade é que, mesmo em lugares tão distantes, os gestos podem ser os mesmos. E parcerias entre pontos opostos são frequentemente frutuosas, como reconhecem os promotores de “T(h)ree, que fazem a apologia do multiculturalismo: “É tempo de nos orgulharmos das nossas raízes culturais, promovê-las e partilhá-las com o mundo. Sem saudosismos, mas com o caminho delineado para o futuro como um novo meio de aproximar os povos. A música é uma das formas mais eficazes de interligação entre pessoas culturalmente distantes. Portugal, Hong Kong e Macau têm novas vozes, novas formas de expressão prontas para serem ouvidas através das suas singulares musicalidades. Estes músicos merecem ser escutados, promovidos e apreciados”.
O primeiro volume deste projecto musical inédito está prestes a ver a luz do dia. Por esta altura, está a ser feita a remasterização de todas as faixas e finalização do grafismo e dos textos que acompanharão o álbum. Mas não foi fácil juntar tanta gente no mesmo barco.
O plano começou a ser gizado há 15 meses, após uma conversa entre David Valentim e músico dos Evade, uma banda electrónica de Macau que estava a trabalhar num álbum. “Como sou amigo deles, perguntaram-me se havia alguém que pudesse fazer remisturas. Comecei a pensar em juntar uma banda portuguesa ou um DJ e também bandas de Hong Kong”, recorda o produtor. Fruto da sua experiência nos três territórios – é português, já viveu em Macau e reside actualmente em Hong Kong, onde tem estado envolvido em vários iniciativas, entre eles a organização do festival Flash, que foi realizado três vezes, duas em Macau e uma outra em Hong Kong –, Valentim começou a imaginar um projecto musical de fusão entre os três territórios. O mais próximo que disso tinha sido feito, segundo se lembra, foi uma gravação envolvendo o Rão Kyao e uma orquestra chinesa tradicional. Nada que tenha a ver com género musical de T(h)ree, mais alternativo e moderno.
Contactados os músicos nos três locais, foi preciso tempo para fazer com que se motivassem, dado que “não lhes era dado nada a não ser a ideia”, rememora David Valentim. “Houve bandas que saíram e bandas que entraram ao longo de todo o processo. Ao princípio tínhamos dez músicas, depois fui-me entusiasmando e convidei mais gente, para colmatar alguns estilos musicais que não estavam a ser englobados.”
O critério para escolha dos projectos envolvidos prendeu-se primeiramente “com a qualidade, depois com o grau de experimentalismo que todas as bandas conseguem dar nas suas obras e procurou-se juntar algumas bandas de carácter diferente para que no final o resultado seja muito diferente das músicas que estão habituados a mostrar em público”, descreve o produtor. “Escolhi as bandas nos três territórios que mais garantias me dão de qualidade e que exploram mais outros géneros musicais, para além daqueles em que estão inseridos”.
O resultado de tantas combinações foi, na visão de David Valentim, “uma espécie de ‘melting pot’, ninguém sabia, à partida, o que é que haveria de esperar, mas isso, por si só, era motivo de interesse”. O mentor de T(h)ree, que tem formação em arquitectura, destaca os méritos do produto final que está prestes a ser apresentado ao público e que é composto, na grande maioria, por músicas que foram propositadamente feitas para o álbum, se bem que haja algumas versões originais, nunca antes publicadas
Para além do disco, os promotores pretendem levar as bandas portuguesas que participam neste projecto a Hong Kong e Macau e fazê-las colaborar em palco com as bandas com quem fizeram parceria neste projecto, colocando o resultado das gravações ao vivo. Mas, ressalva Valentim, “bandas actuais, que estão a dar cartas hoje em dia e não nos anos 90 ou 80, como algumas que vão passando em Macau”. Outros dos objectivos anunciados passam por levar músicos de Macau e de Hong Kong para a Europa e por criar uma continuidade, incentivando os músicos locais a produzir mais música, para que no futuro existam mais projectos do género. Continuidade essa que envolve a gravação de mais álbuns, sempre com Portugal e Macau como elos de ligação, sendo que o terceiro território poderá ir mudando.
Para que haja continuidade, serão precisos apoios e Valentim admite que talvez seja mais fácil obter obtê-los, para um projecto com este conceito, em Macau e Portugal. “Mas estou a obter apoios também em Hong Kong da parte dos media locais, que estão a prestar alguma atenção a este projecto, porque há muitas bandas reconhecidas a nível local envolvidas neste projecto”, descreve.
O projecto T(h)ree surge cunhado como um empreendimento da era da comunicação instantânea, em que artistas que estão distantes fisicamente podem comunicar as suas ideias e criações através da Internet. O produtor concorda que este factor é decisivo para o concluir que T(h)ree não seria possível, por exemplo, há uma década. Mas acha que há também um factor qualitativo a considerar: ”A questão da Internet é incontornável, gerou-se tudo através da Internet. Mas há dez anos a qualidade das bandas a nível de Hong Kong e Macau não era tão elevada. Nos anos 90 em Portugal, as coisas estavam um bocado adormecidas. Em termos de música, essa década não foi também importante em Hong Kong e Macau. Hong Kong estava muito ligado à música britânica, tinha pouca inovação e as bandas que surgiam eram mais uma espécie de cópia da música do Reino Unido. Em Macau, a música local era muito fraca, só no princípio desta década é que começaram a surgir bandas mais ligadas à música electrónica, porque em Macau não há muitos locais de gravação, onde as bandas consigam praticar a sua música. Portanto, é uma música feita de forma mais caseira, que pode ser feita em computador. Isso tem sido desenvolvido a um grau muito elevado em Macau, o que muitos locais desconhecem. A música electrónica é muito apreciada em Hong Kong e é muito forte. Há 10 anos atrás isto era impossível fazer algo como “T(h)ree” em Macau ou em Hong Kong.”
Vendas para doar
António Falcão, o mentor da Bloom, que vai editar o disco, concorda com essa impossibilidade de concretizar um projecto deste género há uns anos. “É claro que há 10 anos já havia projectos de pessoas a trabalhar em sítios diversos. Mas era impossível pôr pessoas a trabalhar à distância”, refere.
O fotógrafo confirma que o projecto se encontra “em fase de angariação de patrocínios, não só para o disco, mas para possíveis concertos futuros”. Depois do lançamento em Hong Kong e Macau, está previsto que o álbum seja lançado em Portugal, no mês de Setembro. Para acompanhar o disco, estão a ser produzidos videoclips e imagens dos concertos, e será criado um site próprio do projecto, para além do já existente endereço no Myspace (http://www.myspace.com/projectothree).
O disco será suportado pelos patrocinadores que estão a ser angariados nos três territórios e não tem um propósito comercial. A maquia gerada pela venda do álbum será doados a associações de intervenção social e cultural, designadamente a Unicef, em Hong Kong, a Anima – Sociedade Protectora dos Animais de Macau e o projecto ambiental Na Terra, que está a estabelecer uma base em Timor Leste.
Em termos de repertório, Falcão salienta que as “bandas foram escolhidas porque tinham alguma semelhança no estilo e conceito, não se juntaram bandas muito distintas, tinha que haver sempre qualquer coisa que as pudesse unir”. Fruto das parcerias, terá havido alguma orientalização dos artistas europeus e europeização dos asiáticos? “Houve a tendência para fazer coisas mais fora do que aquilo que costumam fazer, dar um toque mais oriental. Há letras cantadas em chinês, por exemplo”, responde.
O rosto da Bloom esclarece que as bandas foram escolhidas e emparelhadas por David Valentim, mas foi a editora que sugeriu a integração de António Conceição, conhecido pelo nome artístico de ‘O Monstro’, que já tinha editado um álbum com a Bloom, lançado em Portugal e actualmente esgotado. Conceição surge creditado como um artista de Portugal, embora tenha raízes familiares em Macau, onde voltou a residir recentemente. O facto de se exprimir em português leva-o a assumir-se como “cantautor português”, embora hoje, dada a mudança de residência, admita que possa ser visto “como um artista de Macau”. A sua participação no projecto T(h)ree resumiu-se a entregar uma composição que já tinha criado para que alguém – Lobo, um DJ de Macau – a remasterizasse. O músico considera que o projecto “já é de sucesso pelo facto de ter conseguido juntar três pontos geográficos tão distintos” e refere que “interessa que as pessoas adiram pela causa [caritativa] e pelo produto que está associado à causa”.
