Macau com borbulhas na cara
Como um adolescente, também o território vem mudando depressa e às vezes de modo inconsequente e desordenado. Três estudantes filmaram “Macau no Limite”, um documentário sobre “adolescentes marginais” e o modo como a RAEM os trata. Passa a 2 de Abril no Festival Internacional de Cinema e Vídeo.
Hélder Beja
A aparência de um adulto, a substância de um adolescente. “Para mim Macau é como um teenager”, diz Fei Ho, 25 anos, realizador de “Macau no Limite”, documentário sobre “adolescentes marginais” que integra a programação do Festival de Cinema e Vídeo de Macau, na secção Macau Indies. “Aqui tudo muda depressa tal como na vida de um adolescente que tenta escapar da infância, ao mesmo tempo que luta com o mundo complexo dos adultos”.
O paralelismo entre a cidade dos casinos que crescem como cogumelos e as borbulhas da puberdade serve para introduzir as histórias filmadas em quase 50 minutos de documentário, que passará a 2 de Abril na mostra organizada pelo Centro Cultural de Macau (CCM). “Macau mudou imenso mas neste pequeno pedaço de terra a gentileza humana não muda, nem o odor das ruas. As ruas apertadas continuam a existir, bem como os problemas sociais. O interessante é que esses problemas, involuntariamente, carregam muitas histórias”, refere Fei Ho.
Histórias de jovens não necessariamente brilhantes ou surpreendentes: adolescentes normais que o estudante de Jornalismo, na companhia de Emily Chan e Jason So (ver entrevista nestas páginas), também alunos da UMAC e com apenas 20 anos, resolveram filmar. “Falamos sempre dos pilares da sociedade e de como o futuro está nas suas mãos. Mas quem ou quais são afinal esses pilares? Os grandes empresários? Os políticos sábios? Os literatos, estudantes exemplares ou músicos talentosos? E a juventude marginal? Devemos simplesmente rejeitar a sua capacidade? Vivem no limite ou somos nós que lhes impomos normas? Têm sonhos?”
São muitas perguntas do jovem realizador que tenta explanar os seus pontos de vista através das três personagens que “Macau no Limite” segue. O documentário, apoiado financeiramente pelo CCM e já finalizado, mostra jovens que “não são compreendidos”. No territórios, os adolescentes “têm as suas qualidades, os seus talentos, mas faltam oportunidades para que os possam mostrar ou explorar”, atira Fei Ho. Depois, nota, “os teenagers não comunicam suficientemente com as suas famílias e não sabem como expressar-se. É preciso ser-se menos crítico e mais encorajador em relação aos jovens”.
Numa terra em constante mudança, Fei Ho, que já trabalhou em Publicidade e está a especializar-se em produção de vídeo, encontra ligações afectivas em todas as esquinas. “Todas as ruas me transmitem várias sensações, prazenteiras ou dolorosas. Macau mudou muito, mas os meus sentimentos por ela não mudaram nada.”
