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“Por vezes, sentimos que estamos a reinventar a roda em Macau”

March 29, 2010

A cena local de  música ao vivo tem bases sólidas para aspirar a ir mais longe. Segundo Ray Granlund e Victor Garnier, da Solid Sounds,  público, bandas e o número de eventos multiplicaram-se ao longo dos anos mais recentes. É tempo de nova etapa com a promoção de uma série regular de concertos com bandas convidadas de fora.

Maria Caetano

“Vai haver música por toda a cidade”. Os empresários Ray Granlund e Victor Garnier, da Solid Sounds, fizeram a aposta na cena musical local há perto de dois anos ao tomarem para si a organização de uma mostra regular de bandas de originais. Outrora “Macau Underground”, o evento lançou bases sólidas e com a nova designação de “Live on Solid Ground” e acompanha a segunda etapa do duo de músicos: uma série regular de concertos por músicos convidados de Hong Kong.
Já não é a primeira vez que trazem ao território bandas de fora, mas desta vez Granlund e Garnier passam a fazê-lo com carácter regular. O primeiro evento está marcado para 17 de Abril. Tommy Chung and The All Blues actuam nessa noite no espaço Blue Frog, localizado no Venetian.
“Ele é ‘o’ músico de blues de Hong Kong”, descreve Ray Granlund. Formado em Direito, Chung trocou a profissão pela guitarra, para formar a sua própria banda e também, em 2001, o primeiro bar de blues de Hong Kong, chamado 48th Street Chicago Blues. “A certa altura, toda a gente lhe dizia quão bom ele era e já tinha lançado um álbum. Por isso, deixou o Direito e abriu um bar. Já não existe, mas esteve aberto durante muitos anos”.
“Foi o primeiro e único bar de blues de Hong Kong durante muito tempo”, conta Granlund. Chung é conhecido sobretudo dos públicos de Hong Kong e Japão, onde um promotor musical o levou a gravar três álbuns (“Play My Blues”, “Blues Talk” e “Blues Time”).
“Vai ser o início de uma série de eventos. Ainda não podemos confirmar o que serão. Mas iremos trabalhar em conjunto com o Blue Frog para que haja música ao vivo numa base regular”, garante a dupla da Solid Sounds, que em poucos anos tem imposto com sucesso um ritmo constante de concertos, alem de actividades de formação e produção em áudio.

Diversificar a oferta

Dizem que chegaram a um ponto de “consistência” em que músicos e público já sabem com que contar. O ex-Macau Underground já deu ouvir mais de três dezenas de bandas locais, oferendo sempre temas novos a melómanos fiéis que acompanham o evento. Vai prosseguir “Live On Solid Ground, mas a acção da Solid Sounds pretende expandir-se agora também a outras zonas da cidade e a outros públicos.
“A ideia é diversificar. Macau é um sítio com muitos espaços diferentes, mas apesar disso é pouco comum haver música ao vivo. Há os casinos, com bandas que tocam êxitos ‘top-forty’. É bom, mas é para um mercado muito específico”, entende Victor Garnier. “A nossa ideia é diversificar. Conseguir tem o máximo de música ao vivo possível e chegar também ao maior público possível”.
“Temos uma plataforma estável. Sobretudo, no que diz respeito á cena musical local. Os músicos sabem que este evento regressa a cada dois meses e que terão sempre uma oportunidade de actuar e tocar novo material original. É um incentivo a que pratiquem e componham mais”, considera também Ray.
Com a dinâmica gerada em torno dos projectos locais, há agora tempo para explorar outros campos. “A outra face da moeda é chamar outras pessoas para que toquem em Macau. Isso também é bom. Temos de apoiar os músicos locais, mas isso é apenas uma das metades da cena musical. Também há que haver concertos e eventos interessantes de fora. É isso que fará de Macau um sítio mais agradável para viver”, defendem.
Para já, os convites serão endereçados a músicos de Hong Kong. “É o primeiro passo lógico. Mas queremos expandir os eventos que estão sob o nosso chapéu e começar a convidar músicos de mais longe”.

Criar hábitos

O espaço Blue Frog junta-se à rede de oferta de música ao vivo que está a ser estendida pela Solid Sounds, e que já tem uma das bases na Live Music Association, que acolhe os espectáculos com bandas de Macau. “Estamos a dialogar com as pessoas. Vai haver música por toda a cidade. Parece uma ideia um pouco radical, mas em qualquer outra cidade esse é o cenário normal – haver espectáculos de música em diferentes locais. Estamos apenas a tentar que Macau atinja esse estádio considerado normal”, afirma Granlund.
“Não há clubes para a música independente, excepto a Live Music Association que é muito direccionada para fãs”, junta também Victor, para quem o truque do negócio – já que é de música que os empresário vivem – está em tornar a ideia de ter música ao vivo atractiva para todas as partes, incluindo para os outros empresários que detêm espaços com bares abertos na cidade. “Há poucos locais que juntem a fórmula padrão de música, bar e talvez um pouco de comida. Torna o negócio rentável e permite continuar com os eventos”, explica Ray.
“Por vezes, sentimos que estamos a reinventar a roda em Macau, quando toda a gente usa a roda há milhares de anos. É necessário convencer os empresários que esta uma boa ideia”, diz o músico e empresário.
Há os grandes espectáculos dos casinos que são como que “a cobertura” do bolo musical, e depois há “o pão com manteiga”, na expressão anglófona, que chega às orelhas de todos, todos os dias. “Chamava-se música alternativa. Agora é a primeira escolha e aquilo que as pessoas ouvem na Rádio Macau, por exemplo, que é muito bom. Há bons DJ’s e é a música que preenche o quotidiano das pessoas. É desse tipo de musica que se pode fazer um concerto num clube”, defende.  O principal é “habituar o público ao facto de que há realmente essa oferta”.

Caras novas

E o público de Macau, dizem Granlund e Garnier, tem dado mostras de estar receptivo. “O público está a expandir-se. Estão lá as pessoas que acompanham sempre a música ao vivo. Depois, as caras novas pertencem sobretudo às gerações mais novas, o que é muito bom”, conta Victor Garnier.
A produção local também dá sinais de evolução. Nesta altura, é possível falar de duas bandas em estúdio, Why Oceans e Forget the G, com trabalhos a serem lançados muito em breve
A Solid Sounds arrancou em Outubro de 2008, mas “já havia sinais” a apontar no sentido de um crescimento da música local. “Juntámo-nos para isto porque fomos capazes de ver a oportunidade a aparecer”, lembra Granlund.
“É um desenvolvimento recente em termos de consistência, mas já havia algo para trás”, resume também Garnier. “Nos últimos dois anos, cresceram as oportunidades para que as bandas tocassem ao vivo e para que o público as conhecesse. Foi um desenvolvimento exponencial”.
A Solid Sounds dedica também parte da sua actividade à orientação de pequenos cursos de formação em aplicações informáticas de edição e produção de som. “É uma outra forma de adicionar combustível à cena musical local. Os ‘softwares’ que ensinamos são ferramentas para compor. Se interessarmos as pessoas e lhes mostrarmos que podem fazer música no computador, haverá mais gente a criar música em Macau. Estamos a plantar mais uma semente, para que haja mais compositores e DJ’s. Vale a pena. E, além disso, é divertido”, explica Ray.
O momento de maior dinamismo na cena musical local é vivido com empreendedorismo, mas não sem cautelas. “Vamos passo a passo. E acreditamos no valor do trabalho quando é feito de forma consistente. As coisas estão cada vez melhores a processarem-se a um passo mais rápido”, acreditam Granlund e Garnier.

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