Skip to content

“Não metam etiquetas nos teenagers”

March 29, 2010

Faz parte do trio que gizou “Macau no Limite” e, por ser o que melhor se amanha com o inglês, é uma espécie de porta-voz. Jason So, 20 anos, fala-nos do filme e das pessoas dentro do filme.

Hélder Beja

A biblioteca da Universidade de Macau (UMAC) é o lugar escolhido por Jason So para falar sobre “Macau no Limite”. É domingo e surpreende-nos que esteja aberta, ao contrário do que acontece, por exemplo, em grande parte dos pólos universitários de Portugal. Mais surpreendente é o número de gente que por aqui anda, a estudar, ler, conversar, na Internet. “É um lugar agradável para se estar e ir fazendo algum trabalho”, explica Jason. E tem razão.
Estamos para falar de “Macau no Limite”, documentário em que Jason assegurou o som, a tradução e toda uma série de processos de pós-produção. Agora, mantém também a página do Facebook criada propositadamente para o filme que passa a 2 de Abril no Festival de Cinema e Vídeo. Jovem (20 anos), nascido em Hong Kong, Jason indica as motivações que levaram ao desenvolvimento do projecto, os problemas com adolescentes, mais concentrados na zona Norte de Macau, e o modo errado como Governo, sociedade em geral e comunicação social em particular encaram a questão: desinvestindo, criando estereótipos, denegrindo, etiquetando pessoas.

- Porque é que decidiram fazer este documentário?
Jason So –
Notámos que Macau tem mudado muito depois da transferência de Administração para a China. A seguir à transferência, a economia desenvolveu-se bastante, com a abertura de casinos por toda a parte. Mas o problema que identificámos está a tornar-se cada vez mais sério: os pais dos adolescentes vão trabalhar para os casinos, onde trabalham por turnos, perdem dias e noites, e ninguém olha pelos filhos. Os adolescentes, desacompanhados, podem acabar por fazer coisas erradas, já que ninguém toma conta deles. Outro problema é que a comunicação social descreve quase sempre negativamente os teenagers de Macau, dá uma imagem negativa dos jovens. Tentámos descobrir o que está realmente a acontecer aos teenagers marginais em Macau.
- Que papel é esse que a comunicação social tem neste problema?
JS -
A questão é que focam sempre os aspectos negativos dos adolescentes. Esquecem-se que esses problemas são causados pela sociedade. Acho que não há nada de errado com os teenagers de Macau.
- E o Governo, como avalias as políticas para a juventude?
JS -
Acho que o Governo não está a disponibilizar recursos suficientes aos adolescentes. Apenas vendem terrenos às operadoras de jogo, constroem-se arranha-céus muito bonitos mas esquecem-se das áreas que são necessárias para que os cidadãos vivam melhor.
- Tu ou algum dos teus amigos teve essa experiência de não ter os pais presentes por trabalharem nos casinos, durante a adolescência?
JS -
Pessoalmente não tive esses problemas, sou de Hong Kong. Mas aqui tenho alguns amigos que viveram essa situação. Aliás, uma das personagens deste documentário é uma dessas minhas amigas. Ela fala-nos do seu passado, de como se tornou numa ‘bad girl’ e do modo como, depois, voltou à escola e chegou mesmo à universidade. As outras duas histórias são de um rapaz também com problemas na escola e de uma rapariga que engravida antes de casar.
- Fala-nos dessa história.
JS –
Na história da rapariga grávida, seguimo-la até ao banquete de casamento. A família não tinha dinheiro suficiente para contratar uma equipa de fotógrafos para o casamento e nós tratámos disso. Filmámos toda a cerimónia e acho que é bastante especial, porque é difícil filmar uma verdadeira cerimónia destas para um documentário – nós conseguimo-lo. Depois do casamento, mostrámos ao jovem casal as fotos e os vídeos que tínhamos feito, e também os entrevistámos. O casamento aconteceu menos de um mês depois do nascimento do bebé e um dos momentos mais inspiradores foi perceber que o casal, apesar de não estar pronto para ter uma criança ou para organizar uma família, parecia bastante forte e unido por causa do filho.
- Podes contar mais alguma coisa sobre as outras duas histórias?
JS –
Numa delas, o rapaz tem fracos resultados na escola, os pais não o compreendem. Ele deixa a escola, vagueia pela cidade por alguns tempos até ser descoberto por assistentes sociais que o levaram para o seu centro. Lá aprendeu técnicas de produção de vídeo e hoje trabalha num canal de TV de Macau. Acho que foi uma boa mudança para ele. Apesar de não estar a estudar, como as pessoas da idade dele normalmente estão, pôde encontrar o seu caminho.
A história da rapariga é mais ou menos parecida. Depois de deixar a escola por um ou dois anos, foi descoberta por assistentes sociais e voltou a estudar. As coisas não correram bem da primeira vez, ela voltou a deixar as aulas, foi novamente encontrada pelos assistentes sociais e finalmente conseguiu uma boa escola, que não a descriminava. Esforçou-se e chegou mesmo à universidade.
- Quando dizes que os assistentes sociais a encontraram, o que é que isso significa? Ela vivia fora de casa?
JS –
Ela não ia a casa. Ficava até tarde nas ruas e há uma patrulha de assistentes sociais que tenta identificar estes adolescentes, perceber quais são os seus problemas e tentar ajudá-los.
- O documentário foi todo filmado em Macau?
JS –
Sim, e a maior parte foi rodada à noite. Filmámos perto das Portas do Cerco. Há sempre adolescentes a vaguear por ali, sem fazerem nada mas decididos a não voltarem para casa, já que as suas famílias não os compreendem.
- Os teenagers mais problemáticos estão na zona Norte do território?
JS –
Talvez. De acordo com as estatísticas, as pessoas com mais dificuldades financeiras vivem na zona das Portas do Cerco. São famílias com dificuldades, que têm de trabalhar duro para conseguir sustentar os filhos. É por isso que os pais têm problemas com os filhos: não passam muito tempo com eles.
- Que tipo de problemas mostram no documentário?
JS –
Estas três personagens mostram, do seu ponto de vista, como interpretam o termo ‘juventude marginal’ e de como esse termo é uma espécie de etiqueta que lhes é colocada. É preciso que não metam etiquetas nos teenagers. O que tentamos perceber é se este é um problema do Governo, das famílias ou deles próprios. Mas parece-nos que é um problema da sociedade em geral. De acordo com um dos entrevistados neste documentário, um professor, Macau mudou muito seriamente. Por exemplo, há 10, 20 anos, havia muitos espaços para os adolescentes fazerem desporto, jogarem futebol. Agora, esses campos foram transformados em casinos e não há onde passar o tempo a fazer qualquer coisa diferente. Os rapazes só pensam em arranjar mais uma rapariga e ter sexo. Alguns não usam preservativo e é por isso que depois existem estes casos de gravidez e outros problemas.
- Quais foram as principais dificuldades que encontraram para concretizarem este “Macau no Limite”?
JS –
Foi bastante difícil aproximarmo-nos destes adolescentes com histórias complicadas. Muitos deles não querem falar disso, são assuntos privados. Tivemos de ser muito persuasivos para que nos contassem as suas histórias.
- Quanto tempo passaram a trabalhar neste documentário?
JS -
Foram nove ou 10 meses, mas claro que não todos os dias. Levou algum tempo a contactar os adolescentes e as pessoas que aceitaram falar connosco, como um assistente social. A estruturação das filmagens e a pós-produção foram as etapas mais compelxas.
- Qual foi o vosso orçamento?
JS -
Cerca de 15 mil patacas.
- E do ponto de vista logístico, tiveram algum apoio?
JS –
Fomos financiados pelo Centro Cultural de Macau. Passámos várias fases de selecção e os finalistas receberam fundos para filmarem os seus projectos. Gastámos boa parte do dinheiro no aluguer de câmaras profissionais, iluminação, etc. É por isso que temos uma produção de muito boa qualidade, parece-me.
- Já tinham experiências anteriores com este tipo de material e de trabalho?
JS-
Os meus estudos incluem produção de vídeo, trabalhei nisso durante quase um ou dois anos. Foi o Fei Ho [realizador] que fez a maior parte do trabalho de filmagem e edição. Trabalhámos como equipa mas o Fei Ho tem muita experiência, já trabalhou em agências de Publicidade e sabe muito de produção de vídeo.
- Que mensagem esperam passar com este documentário?
JS –
Acho que é um olhar sobre os problemas dos jovens. A mensagem-chave é  a de prender a atenção da sociedade de Macau para os problemas dos teenagers, levá-los a reconsiderar estas questões e também o futuro do território.
- Gostavam de mostrar o vosso documentário noutros lugares, depois do festival?
JS -
Durante um anos, os direitos autorais do documentário pertencem ao CCM. Mas mesmo dentro desse período acho que o CCM tentará enviar o nosso documentário para festivais como o de Hong Kong. Daqui por um ano, quando tivermos de volta os direitos do filme, talvez façamos uma projecção aqui na UMAC.

Advertisement
No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.