Novos desportos querem subsídios
O criquete e o bowling na relva são duas modalidades novas em Macau que lutam por ser equiparadas a desportos com alguma tradição no território. O Instituto do Desporto garante que os clubes que as praticam, juntamente com a Associação de Tracção à Corda e a Associação Desportiva e Recreativa de Chicuia, já estão sob observação. Mas, antes de abrir os cordões à bolsa, há que garantir que conquistam os residentes do território.
Luciana Leitão
É um desporto saudável, além de ser uma forma de expressar uma cultura diferente, diz David Devendra. Natural de Nova Deli, Índia, veio para Macau há três anos para trabalhar num dos hotéis da cidade e, desde então, desloca-se todos os domingos de manhã ao campo de basquetebol da Escola Internacional de Macau para treinar. Como os seus colegas, apenas deseja ver esta modalidade crescer no território.
A Associação de Criquete nasceu pelas mãos do seu presidente apenas em 2007, mas, na realidade, é praticada em Macau desde 1987, altura em que Adnam Nasim chegou ao território.
Tratando-se de um desporto que, por enquanto, apenas tem despertado o interesse de cidadãos estrangeiros, teve, até agora, muito pouco estabilidade. “Por exemplo, logo em 1987 muitos foram-se embora e regressaram aos locais de origem”, recorda o presidente, explicando os motivos por, tantas vezes, ter-se suspendido a prática da modalidade.
Sempre que acorria a Macau uma nova leva de estrangeiros – sobretudo, oriundos de países onde o criquete é desporto nacional – Adnam Nasim juntava uma equipa e treinava. Mas essa equipa ia sempre variando ao sabor dos tempos, porque, tratando-se de estrangeiros, regra geral, passado algum tempo abandonavam o território.
Já praticou nos mais diferentes sítios: desde o interior da mesquita, passando por um espaço na Universidade de Macau ou um terreno – então baldio – em frente ao que hoje é o casino Venetian, chegando mesmo à escola Hou Kong.
Uma panóplia de lugares que, por um motivo ou por outro, nunca serviram as reais necessidades do criquete, sobretudo, a partir do momento em que Nasim decidiu criar uma associação e colocar a modalidade num outro patamar.
O “boom” de 2007
Em 2007, depois de mais um evento desportivo, o interesse por parte da comunidade de imigrantes do território por esta modalidade consolidou-se. Foi então que impulsionados por algumas figuras célebres decidiram que já era tempo de se registarem como associação.
Naturais de países como o Sri Lanka, Índia, Nepal e Paquistão, na sua maioria são trabalhadores dos casinos ou estudantes, encontrando-se ainda alguns empresários por conta própria, que se reúnem todos os domingos, da parte da manhã, no campo de basquetebol da Escola Internacional (TIS, sigla em inglês) para jogar criquete. “Atraímos pessoas pelo divertimento, não pela competição”, diz, acrescentando: “E, dado os trabalhos que muitos têm muitas vezes acabam por participar apenas nos eventos desportivos e pouco nos treinos.”
Porém, dada a vontade de progredir, Nasim apercebeu-se de que “há sempre o mesmo problema: apenas estrangeiros se interessam, nunca os locais.” Há, por isso, que tentar alargar o âmbito, de forma a incluir também os residentes de Macau.
Chegar às escolas
Os anos passaram-se e Nasim apercebeu-se de que a actual equipa que treina criquete em Macau não só vem de outros países, como também já está a “ficar velha”. Por isso, adoptaram outra estratégia: há que cativar os alunos das escolas.
Porém, é nesse processo que surge um problema: “Não temos financiamento nem apoios do Governo; e todos os nossos atletas trabalham a tempo inteiro. Para ensinar crianças, precisamos de recrutar um treinador profissional.”
A Associação de Criquete de Macau tentou dar a volta à questão, assinando um memorando de entendimento com a Omnicon Events Limited, uma empresa de gestão desportiva de Hong Kong especializada na dinamização de eventos de criquete, responsabilizando-se esta última pela promoção dos programas de desenvolvimento da modalidade junto das escolas locais que demonstrarem interesse. “Estamos a tentar que o Instituto do Desporto patrocine este projecto-piloto”, diz, acrescentando: “A nossa intenção é, através deste treinador, chegar às escolas e promover junto das crianças a modalidade.”
Através deste programa, Nasim espera “nos próximos cinco anos, ter uma equipa abaixo dos 11, outra abaixo dos 15 e uma outra abaixo dos 19 anos”. Para isso suceder, já começaram a encetar contactos com a Escola Portuguesa.
Apesar de, neste momento, a modalidade ainda passar despercebida junto dos residentes, a verdade é que aqui ao lado, no Continente, já há quem pratique, deixando-o, por isso, menos desanimado. “Se isso acontece no Continente, também é possível em Macau”, remata.
A falta de fundos
Mas a falta de financiamento é também um problema quando se trata de competir fora de Macau. Fizeram-no uma vez em Hong Kong, mas saiu tudo do bolso dos atletas, acabando por não se justificar uma repetição.
Para que o Instituto do Desporto reconheça a Associação de Criquete de Macau e lhe garanta financiamento, Nasim já submeteu um pedido ao Conselho Asiático de Criquete (sediado na Malásia) para que a RAEM, através da associação, seja considerada um membro e, dessa forma, a modalidade possa ganhar respeito junto do Governo. Estratégia que se alia, assim, à promoção da modalidade junto das escolas.
E, claro, além de carecer de mais apoio, a Associação de Criquete de Macau queixa-se também da falta de espaço para praticar. Afinal, treinar no campo de basquetebol, instalando, para o efeito, uma faixa rectangular de relvado, é, segundo Nasim, insuficiente.
Jogar bowling na relva
O Clube de Bowling na Relva de Macau existe desde 2006 e tem lutado por promover a sua actividade no território. Ronald Wong conheceu a modalidade de origem britânica – jogo que consiste em atirar bolas de uma certa distância e aproximá-las o mais possível de uma outra pequena – por intermédio de amigos. Desde então, apaixonou-se e tem lutado por promovê-la em Macau.
O secretário-geral afirma que o presidente procurou construir um relvado artificial, no interior do Hipódromo do território, para garantir um local aos atletas.
“Actualmente, apenas duas a três dezenas pessoas praticam esta modalidade no território; e são, na maioria, residentes do território”, descreve. E é por isso que querem avançar e desenvolver mais a modalidade, de forma a alcançar uma maior percentagem de pessoas em Macau. Mas acabam sempre por esbarrar no mesmo problema: “De facto, ainda não é muito popular. Mas não temos recursos; não recebemos qualquer subsídio desde 2006. “
Queixam-se ainda os jogadores de que falta um espaço conveniente. “Pedimos ao Governo um espaço num local público, não no interior do Hipódromo. Queríamos um sítio de mais fácil acesso”, esclarece.
A resposta do Instituto do Desporto às suas pretensões não satisfaz. “Dizem-nos que não é um desporto popular e que não conquistámos quaisquer taças. Mas a verdade é: Se não investirem em nós, como temos condições para treinar os atletas de forma a melhorar o desempenho?”, questiona.
Mas o Clube de Bowling na Relva já conseguiu que a escola secundária Pui Vá integrasse a modalidade no plano de actividades desportivas da escola. E isso foi um grande avanço. ”Agora já há 30 ou 40 estudantes do secundário a praticar este desporto”, esclarece.
Ciente de que o desafio pela frente é grande, Ronald não esmorece nem perde a confiança no desporto que acabou por acarinhar. “O que queremos fazer é oferecer uma variedade de escolha às pessoas de Macau, mais uma opção aos residentes de Macau; sobretudo porque se trata de um desporto bom para todos os tipos de pessoas, sejam idosos, crianças ou jovens”, afirma, garantindo que não há quaisquer obstáculos.
Por isso, a curto/médio prazo pretendem “organizar sessões de treino para a juventude; participar nos eventos internacionais e regionais; convidar um treinador qualificado para vir a Macau aumentar as competências dos locais.”
Em observação
O Instituto do Desporto está a analisar os casos da Associação de Tracção à Corda, Clube de Bowling na Relva, Associação de Criquete e Associação Desportiva e Recreativa de Chicuia (jogo de pena, com base de cartão). De acordo com o vice-presidente, José Tavares, tratam-se de modalidades novas, sem tradição em Macau e que, por isso, têm de ser observadas com atenção, antes de se decidir enquadrá-las no rol de associações desportivas.
Por exemplo, no caso do criquete, apenas iniciaram a modalidade com regularidade há dois anos. Ora, sendo Macau um território pequeno e com poucos recursos, “há um fosso muito grande entre as necessidades que existem e as novas modalidades que têm vindo a aparecer”.
De acordo com o vice-presidente, até serem registados como associações desportivas junto do IDM, não têm direito a apoios directos desta instituição. “O que podemos conceder é ceder espaços que estejam disponíveis, para além das nossas necessidades”, esclarece José Tavares.
Claro que da parte destas associações desportivas há alguma relutância em perceber a ausência de apoios financeiros, mas a essas o Instituto do Desporto responde: “Macau não tem de importar todas as modalidades do mundo para aqui.”
Para que o Instituto do Desporto permita que estas associações se registem, estas têm de cumprir alguns critérios. “A própria modalidade tem de ter uma federação internacional e uma federação asiática. Depois, tem de ter um número mínimo de filiados”, diz, acrescentando: “Certo que se me disser que é uma modalidade olímpica, cumpre logo os requisitos.” Mas há ainda que ver se tem alguma tradições ou se há perspectivas de adesão, adianta.
Ao acrescentar estes clubes à lista das 57 associações desportivas, o IDM acaba por “reconhecer que tem a obrigação de lhes dar o apoio necessário, sendo esta responsabilidade muito grande. Nem sequer falo de dinheiro, falo mesmo de infra-estruturas, que não temos”. Por isso, garante, há que fazer tudo isto com cautela.
