Diz que nada vai ser como dantes
É a vontade de Chui Sai On, transmitida e várias vezes vincada ontem pelo seu chefe de gabinete e responsável pelo novo mecanismo de porta-voz do Governo. Alexis Tam admite que nem sempre os serviços públicos estiveram bem na comunicação com os jornalistas e, por consequência, com a população. A partir de agora, promete, a história vai ser diferente.
Isabel Castro
Macau tem há anos um problema que parece ser consensual, identificado por ambas as partes: é complicado comunicar com o Governo e com o seu edifício administrativo, que têm tido dificuldades em transmitir à população as suas ideias. Em busca de uma governação mais transparente, e por admitir que nem tudo vai bem no reino da comunicação com os residentes, o Executivo de Chui Sai On decidiu avançar com a criação de um sistema que visa facilitar a obtenção de informações de interesse público.
Verdade seja dita, a conferência de imprensa realizada ontem no Palácio do Governo – que serviu para apresentar este mecanismo de porta-voz -, resumiu-se essencialmente, no que ao discurso de Alexis Tam disse respeito, à explanação dos conceitos publicados já esta semana em Boletim Oficial.
O chefe de Gabinete do líder do Governo, que acumula as funções de líder do gabinete de porta-voz, deu ainda algumas explicações práticas sobre como é que o sistema vai funcionar, que interessam sobretudo aos profissionais dos órgãos de comunicação social. Foi distribuída uma lista com os contactos de telefone, telemóvel e endereços de e-mail de todos os responsáveis pela ligação entre os vários organismos e os media.
As perguntas colocadas pelos muitos jornalistas presentes revelaram algum cepticismo em relação à eficácia do mecanismo. Alexis Tam demonstrou que já sabia ao que ia. Admitiu que não será fácil, de um momento para o outro, pôr o sistema a funcionar a todo o vapor. Não obstante, frisou por diversas vezes que, a partir de agora, será bem mais fácil à comunicação social entrar em contacto com o Governo do que tem sido nos últimos anos, em que a responsabilidade de lidar com a imprensa não estava especificamente atribuída nas diversas estruturas que compõem o edifício administrativo. “Estamos confiantes de que vai resultar”, disse o responsável.
Níveis um, dois, três
Alexis Tam deixou bem claro que o sistema de porta-voz “não deve ser entendido como uma pessoa ou uma entidade, mas sim no seu todo”. E este todo divide-se em três níveis, clarificou.
O primeiro nível funciona sob a dependência directa do Chefe do Executivo é o Gabinete do Porta-voz do Governo: será responsável por definir a estratégia de informação, “coordenar a divulgação das diversas informações dos diversos domínios governamentais, podendo ainda representar o Executivo na realização de conferências de imprensa e entrevistas”.
O segundo nível diz respeito aos gabinetes dos secretários. Cada um deles vai ter um coordenador de imprensa e de relações públicas. Quanto ao terceiro e último nível, aplica-se às direcções de serviços. “Haverá uma coordenação de imprensa e de relações públicas responsável pela comunicação com os media.” Entre outras tarefas, servirá para ajudar a obter, “com celeridade, as respostas do dirigente relativamente às questões colocadas pelos media”.
Este sistema funcionará em cooperação com o Gabinete de Comunicação Social. O seu director, Vitor Chan, é, de resto, o porta-voz adjunto do Gabinete do Porta-voz.
E na prática?
À partida, este sistema significa que os jornalistas terão melhores condições para poderem exercer a sua profissão. A ideia foi realçada por Alexis Tam, que afiança que o Governo está empenhado em facilitar a vida a quem faz frequentemente a ponte entre Executivo e população.
Imagine a seguinte hipótese: o jornal que folheia neste momento decide fazer uma reportagem sobre a recuperação de património abandonado. Entramos em contacto com dois ou três especialistas a funcionar no sector privado sem problema algum. Mas decidimos que queremos ouvir dois serviços públicos sobre a matéria – por suposição, o Instituto Cultural e a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. E ainda o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais.
Se há serviços que têm pessoas que ajudam o jornal a entrar em contacto com os responsáveis, outros há que não as têm. Mesmo no caso em que existe alguém para as relações públicas, coloca-se outro problema: nem sempre os dirigentes têm vontade de prestar esclarecimentos. Noutras situações, as respostas chegam quando o tema já perdeu actualidade noticiosa.
Voltando ao nosso exemplo, entrevistar dois ou três especialistas na manhã de segunda-feira é perfeitamente viável; quanto à obtenção de respostas de três instituições públicas, seria difícil, na mesma semana, consegui-las. E não é de afastar a hipótese de que um mês decorresse sem que as reacções e dados pedidos fossem disponibilizados. A experiência leva-nos a crer que haveria um elevado grau de probabilidade de pelo menos um dos organismos nem sequer replicar.
Questionado sobre a celeridade das respostas e a disponibilidade dos dirigentes, Alexis Tam concedeu que não será fácil, de um dia para o outro, ter o mecanismo a funcionar a 100 por cento. Mas garantiu igualmente que, em matérias de interesse público, os jornalistas não ficarão sem resposta.
Outra situação comum nalguns serviços públicos diz respeito à canalização sistemática de informação para um único (e sempre o mesmo) órgão de comunicação social. Também aqui o responsável deixou uma promessa: isso é coisa do passado. Quando um serviço público tiver algo importante para anunciar, comunicará em simultâneo com jornais pequenos, grandes, de língua chinesa e portuguesa.
Português sempre
Ao todo, foi distribuída uma lista com o contacto de 63 pessoas. Alexis Tam assegurou que estarão 24 horas disponíveis em caso de confirmada necessidade. Quanto à possibilidade destes 63 elementos serem capazes de fornecer informações em português, o responsável abandonou o cantonês e os jornalistas portugueses ontem presentes na conferência de imprensa deixaram de necessitar do sistema de tradução simultânea.
“Estou a falar consigo em português”, lançou Tam. “Todos os directores de serviço vão fornecer informações em português. O Governo tem seguido a Lei Básica, o chinês e o português são as línguas oficiais e tem sempre havido tradução em português”, afirmou.
Houve ainda quem tivesse receio de que, no que diz respeito ao acesso aos secretários em ocasiões públicas, a criação deste mecanismo torne o processo ainda mais complicado. O chefe de gabinete de Chui Sai On disse que não há nada a temer: a equipa de elementos do mecanismo estará sempre disponível para tentar estabelecer a comunicação.
De modo distinto da prática de Pequim, para já o Executivo da RAEM não vai ter conferências de imprensa regulares. Os jornalistas serão chamados quando houver assuntos que justifiquem uma ida ao Palácio.
