Movimento pela Indústria de Cinema e Televisão de Macau nas mãos do Governo
Dizem que este é o momento certo para lançar uma indústria audiovisual no território. Pela primeira vez, sublinham, juntaram-se as vontades necessárias e puseram-se em papel as ideias que andavam a maturar na cabeça de muitos há uns anos. O Movimento pela Indústria de Cinema e Televisão de Macau lançou na última semana o repto ao Governo, com uma mão cheia de propostas para o sector.
Maria Caetano
Se a indústria de cinema não pega na RAEM, não seja por falta de gente e de ideias. Há quem não queira ver no território festivais de cinema colocados por enxerto e outras produções fátuas que acabam por não colher para os profissionais locais. De dentro, surge agora o Movimento para o Lançamento da Indústria do Cinema e Televisão de Macau que reúne nas suas fileiras cerca de cinquenta profissionais que já trabalham na produção de cinema, sector criativo e cultural e até na educação.
Reuniram-se vontades dispersas e ideias que andavam a ser congeminadas há anos. Juntos redigiram uma carta ao Chefe do Executivo, entregue na última segunda-feira, que consiste num “apelo à acção” e afirma ser expressão de “uma visão colectiva para uma indústria criativa”.
Em cinco pontos, a declaração de intenções do movimento recém-criado traça o panorama dos rumos que as indústrias de cinema têm tomado em vários países como veículo do desenvolvimento económico e da promoção internacional, recorda os sucessos mais visíveis obtidos por produções realizadas na RAEM desde o início da década de 1990, identifica carências e traça um programa de desenvolvimento do filme nos sectores público e privado, com uma série de sugestões abertas à discussão.
“Hora certa”
Além da criação de meios e competências próprias ao sector (estúdios e equipamentos), destacam-se a proposta de criação de uma autoridade governamental para o sector audiovisual ou a constituição de um arquivo diversificado de produções, que englobe desde documentários à ficção para televisão, passando pelos projectos artísticos e experimentais.
Na formação, avançam-se soluções possíveis, que podem passar pelo estabelecimento de uma escola de cinema e televisão da RAEM ou ainda pela criação de condições para que aqui se fixe uma instituição internacional prestigiada. Defende-se o apoio público ao cinema de autor e a criação de incentivos para que o sector privado invista nas produções comerciais.
Os membros do Movimento dizem que tudo está em aberto e o essencial é ter um canal de diálogo aberto com o Governo, que tenha os criativos e produtores locais como interlocutores. Não é para já um movimento associativo, nem pretende sê-lo ao reunir dirigentes de várias associações que já trabalham no terreno. Quer-se antes uma plataforma de vontades, com porta aberta a quem quiser entrar.
Quem dá os primeiros passos do Movimento? Reúne gestores culturais como Erik Koung, Rebeca Lei ou Gigi Lee; realizadores como Fernando Eloy, Albert Chu, Vincent Hoi, Sérgio Perez, Chan Ka Keong ou Cecília Ho; outros designers e produtores se juntam com valências acrescidas, sendo o caso de Venessa Cheah, no design de moda, João Magalhães, no design de comunicação, Lai Meng Tak ou Siun Chong, em multimédia. Do sector cultural, mais de uma dezena de artistas locais se uniram ao projecto. Há ainda professores e alunos das universidades de Macau.
Dizem que não é cedo, nem é tarde: é a hora. “Há um tempo certo para tudo. Porque não agora? Sucede ser agora. E uma das coisas mais difíceis em Macau, segundo a minha experiência, é juntar as pessoas. Não apenas nesta área, mas em todas. Pela primeira vez, conseguimos juntar as pessoas. Acreditamos nesta união e que devemos prosseguir”, defende o realizador Fernando Eloy.
Erik Kuong acrescenta: “É algo que já gostaríamos de ter feito há muito tempo. Diz-se em chinês que é preciso um tempo, um lugar e pessoas. Quando tudo coincide, é a hora certa”.
“Festsiva” catalisa
“Um apelo à acção para arrancar com a Indústria do Cinema e da televisão em Macau” (o documento entregue ao Governo) foi redigido, porém, no rescaldo da realização do Festival Internacional de Cinema de Macau, no final do ano passado. O evento organizado pelo empresário de Xangai, Xu Chao Ping, foi anunciado em Pequim, desenrolou-se em mandarim e – dizem alguns dos produtores locais que a ele assistiram – deu mau nome à RAEM.
Uma gralha numa das faixas de propaganda do festival anunciava a realização de um “Movie Festsiva” no terrtório. E, sobre o disparate ortográfico, tomou forma o movimento local de produtores que, com ironia, se apelida de “… Movie Festiva!” nas páginas do Facebook.
“Provocou uma reacção química”, diz Erik. “Foi o catalisador”, acrescenta o realizador Vincent Hoi. E Eloy complementa: “Foi a gota que fez entornar o copo. Se não houvesse trabalho anterior, não existiria esta reacção. Mas chegámos ao ponto de dizer que já basta e que está na altura de tomar uma atitude”.
O primeiro passo do Movimento é obter do Governo reconhecimento e crédito como interlocutor no processo de desenvolvimento de propostas para o sector. O segundo será o de reunir o máximo de pessoas possível e estabelecer mecanismos de entreajuda nas produções que vierem a ser realizadas de futuro em Macau.
Base própria
“Queremos que os nosso cineastas fiquem em Macau e que mais venham”, declara o manifesto entregue no Palácio do Governo. O grupo diz querer travar a fuga de talentos, dado que poucos insistem em trabalhar num local onde cinema e televisão vivem em letargia há largos anos. Há frutos, porém.
“Muito tem sido feito. Ele [Vincent Hoi], por exemplo, tem vindo a fazer filmes contra ventos e marés. O Albert Chu também. Toda a gente tenta fazer algo. Muitos dos nossos produtores nasceram em Macau, mas tiveram de deixar o território porque não há um mercado. Há entre nós uma jovem, a [Ângela Chan] Ting Ting, que está a acabar o curso em Pequim, onde pretende permanecer, porque se vier até cá vai ficar no desemprego”, exemplifica Fernando Eloy.
O grupo assume a necessidade de cooperar com as indústrias já estabelecidas noutras paragens, mas defende que Macau deve andar pelo próprio pé. “Precisamos de talentos de Hong Kong que nos assistam. Em Macau é muito difícil encontrar um responsável de cinematografia realmente bom ou um director de iluminação qualificado. Talvez seja necessário contratá-los em Hong Kong. Mas será também necessário recrutar muitas pessoas em Macau, que poderão aprender com a experiência dos outros”, defende Vincent Hoi.
“Vai ser necessário, mas primeiro temos de criar a nossa base. Temos de garantir que somos capazes de levar um projecto do início ao fim aqui”, assume também Eloy.
Apoio de autor
Os dinamizadores do Movimento defendem também que as produções locais não devem ficar crescer à sombra dos cofres públicos. Mas, pedem a acção do Governo na criação de um enquadramento para uma nova indústria. “Queremos deixar claro que não queremos ficar dependentes do Governo, mas reconhecemos que é necessário que o Governo dê o primeiro passo porque o sector encontra-se totalmente depauperado, está em bruto. Andamos a fazer filmes nas nossas casas. Se quisermos fazer correcção de cor às películas, não temos onde. É difícil encontrar um operador de câmara qualificado”, lembra Fernando Eloy.
Além da criação de estruturas – que podem passar, por exemplo, pela criação de um estúdio público acessível a todos os que operam no sector -, os fundadores da iniciativa entendem que cumpre à RAEM apoiar uma das duas vertentes da indústria: o cinema de autor. “O filme comercial não vive sem as obras de autor. Ambos são necessários. Mas, contrariamente ao que sucede, por exemplo em Portugal, em que os filmes comerciais são patrocinados pelo Estado, sentimos que devemos elevar a nossa própria indústria para que esta faça emergir as produções comerciais”, advoga Eloy.
“Ao mesmo tempo, o Governo deve apoiar os artistas e as produções mais experimentais que eventualmente possam competir em festivais internacionais”, considera.
Negócio livre
No que às produções comerciais diz respeito, até aqui o empresariado local não arriscou. “Mas é como em qualquer outro negócio. Se o Governo não tivesse liberalizado o jogo, não haveria novos casinos em Macau. Foi criado o enquadramento necessário aos investidores. Se não houver uma politica oficial no sentido de criar este tipo de indústria, não haverá bases para começar”, defendem os promotores do Movimento, que dizem também não querer ser “colonizados”.
“Somos homens de negócios e sabemos o que andamos a fazer. Não é preciso que venha alguém de fora dizer o que temos de fazer. Eventualmente, isso vai acontecer porque o mercado é livre, mas nós estamos a lutar pelas nossas profissões”, diz o realizador Fernando Eloy.
“Não é possível haver uma indústria sem iniciativa privada. E nesta fase, como os produtores privados não têm capacidade, equipamento e pessoas, bem como investimento, terá de ser o Governo a interceder na procura de uma solução”, resume.
O repto ao diálogo está lançado, e na carta já entregue ao Chefe do Executivo, Chui Sai On, são salientados o contributo potencial de uma indústria de cinema e televisão. Pode, defende-se, diversificar as receitas da economia, gerar emprego e absorver os quadros locais qualificados, elevar o nível cultural da população, promover Macau internacionalmente e alimentar a programação dos canais de televisão, que já se contam em meia dezena, quando incluídos os serviços de televisão por cabo.
As carências identificadas verificam-se em “equipamento e ‘staff’”, “estúdios adequados”, “formação profissional e educação”, “mercado e distribuição” e “competência técnica numa série de áreas”.
“Precisamos de tudo. Temos de conceber um plano director em conjunto com o Governo, no sentido de desenvolvermos a indústrias e sermos justos. É importante perceber como podemos todos beneficiar deste processo”, afirma Eloy.
“Não se trata apenas de apoiar o cinema. A indústria move imensos outros sectores que são necessários”, lembra o realizador.
“Associações já temos”
Erik Kuong afirma também que lista de pessoas que integram o Movimento “cresce todos os dias”. “As pessoas juntam-se ao debate e tentamos reunirmo-nos com pessoas com diferentes valências e ouvir as ideias delas”, diz. “Todos nós estamos já a trabalhar na indústria. Deve haver entreajuda. O problema é que não há um canal para dialogar com o Governo”.
Há várias opções em cima da mesa sobre o que pode ser o motor de arranque da indústria, explica Eloy. “Vamos criar um cooperativa, orientada para o lucro e capaz de desenvolver trabalho de uma forma justa? Deveremos nós criar uma fundação? Uma politica de subsídios aos produtores? E quem se qualifica como tal? Será de criar uma StudioCity, acessível a todos, ou deve haver apoio para que cada um de nós tenha o seu próprio estúdio? São todas hipóteses a ponderar”, revela.
“Com esta carta, estamos a dizer que chegou a hora e que estamos aqui, nós, que somos de Macau e já aqui trabalhamos. Claro que queremos trabalhar com pessoas de fora, mas a iniciativa deve partir de nós. Temos o que é preciso”, defende também a designer de moda, Venessa Cheah. A indústria precisará de realizadores, produtores, gestores, designers, fotógrafos, técnicos de iluminação, operadores de câmara, carpinteiros ou metalúrgicos, lembram.
A criação de mais uma associação local vocacionada para o audiovisual não está no horizonte, garantem. “Associações já nós temos”, diz Eloy. “Entendo que as associações devem ter sobretudo uma acção social. Quando falamos de indústria, estamos a falar de negocio, de lucro, de criação de emprego”, entende.
Histórias para 50 anos
E o que têm as produções locais para singrar num mercado fortemente competitivo, como é o do cinema e da televisão? Cultura, histórias, identidade e um quadro de liberdades e garantias que não existe, por exemplo, no continente chinês, defendem os promotores do movimento.
“Macau é uma cidade única e pode ser uma cidade de cinema. Há uma riqueza cultural muito grande”, aponta Venessa. “Há outra coisa – acrescenta Eloy. “Macau está cheia de histórias. Se começarmos a investigar o Arquivo Histórico, se falarmos com as pessoas mais velhas, acharemos histórias capazes de alimentar uma indústria por cinquenta anos”.
Para Vincent, “o filme de Hong Kong já perdeu a identidade. Ao colaborarem com o continente chinês, a maioria dos filmes não pode ser filmado devido à regulação no país”. Macau, defende, não corre esse risco.
“Temos vantagens por comparação com o continente”, insiste também Erik, apesar dos milhões de espectadores das produções que se fazem para lá das Portas do Cerco. “Podemos ter um mercado melhor. O documentário chinês não é desenvolvido devido à censura. É algo muito difícil. E nós temos essa liberdade, estando na China e abertos ao resto do mundo”, considera.
Com intenções e declaradas e propostas a serem anotadas pelo Governo, se assim desejar, o grupo planeia o futuro próximo sem esperar pela resposta à missiva. “O próximo passo é chamar estas pessoas, reuni-las numa sala e começar a partir pedra”.
Propostas do Movimento
O Movimento elenca medidas a curto, médio e longo prazo que podem ser discutidas para “vivificar o dragão adormecido que é a indústria do Cinema e Televisão de Macau”, segundo consta na carta que está agora nas mãos de Chui Sai On. Sob a forma de questões aventam-se hipóteses de acção. “Uma cooperativa de facto representativa dos produtores e cineastas locais? Uma fundação? Um esquema de financiamento anual para produtores e cineastas locais? Uma ‘Studio City’ pública para utilização dos produtores e cineastas locais? Ou um plano de incentivos para a construção de estúdios privados, formação e aquisição de equipamento? Criar condições legais e fiscais para atrais investidores privados? Constituição de um banco público/ privado/ misto de venture capital?”, sugerem os autores.
Do sector público, dizem, espera-se que contribua para “vitalidade e regulamentação” da indústria a criar. Na educação, são propostas “criar uma Escola de Cinema e Televisão em Macau; incentivar a inclusão de cursos de Cinema e Televisão nas instituições de ensino existentes; criar condições para a instalação no território de uma escola internacional prestigiada; estudar um plano de bolsas de estudo para alunos necessitados; apoiar instituições sociais locais para a realização de workshops de formação”.
Outra das medidas sugeridas é a criação de um Instituto do Cinema e do Audiovisual de Macau, “capaz de regular e, em simultâneo, promover o desenvolvimento do cinema de autor sem intuitos comerciais” e o qual competiria o estabelecimento e manutenção de “um arquivo audiovisual diversificado”.
Ao mesmo tempo, entendem que o Governo da RAEM deverá “sensibilizar a população para a produção local” e assegurar a “promoção junto dos mercados externos”.
Já o sector privado será aquele que, “em última análise, irá fazer com que a indústria cresça” e será este que “irá providenciar a maioria dos empregos e a diversificação da economia”. Para tal, há “quesitos fundamentais”: “formação, estúdios, equipamento, fundos para gestão e comissionamento, distribuição, marketing e promoção”. Na dinamização do sector privado, defende a carta, o papel e apoio do Governo “são essenciais”.
