Dependentes mas cépticos
Um estudo sobre a utilização da Internet no mundo mostra que a RAEM é dos sítios mais online. Paradoxalmente, é aqui também que a informação disponível na net se diz ser menos credível.
A Internet pode parecer uma companhia familiar em boa parte do mundo, mas ainda há muitos países – e, pasme-se, alguns dos quais desenvolvidos – onde navegar na net está ainda longe de ser uma experiência universal. Além disso, há ainda hoje grandes disparidades de género no acesso à web, bem como pontos de vista muito distintos sobre a importância de uma presença online.
Estas são algumas das conclusões do Relatório sobre a Internet no Mundo, edição de 2010, da autoria do Centro para o Futuro Digital, da USC Annenberg School, nos Estados Unidos.
Macau é um dos países ou territórios que constam do relatório e o dado mais significativo que se extrai da parte relativa à RAEM, é que aqui a Internet entrou já numa fase madura: as taxas de penetração entre 2007 e 2009 foram de 64%, 66% e 70%, respectivamente. Os países que contribuíram para este estudo são dez; Macau fá-lo desde 2001.
Segundo Angus Cheong, director do Projecto Internet Macau e do laboratório de pesquisa online ERS, apenas metade dos países citados no relatório apresentaram percentagens de utilizadores da Internet acima dos 50 por cento. Entre os países onde a taxa de utilizadores é mais baixa contam-se o México (32 por cento), Portugal (37%), Chipre e Colômbia (45%), a Itália (47%), a República Checa (51%) e o Chile (55%). Só os outros três países ou territórios constantes do relatório apresentaram uma percentagem de utilizadores acima dos 60 por cento – em Macau foram 61% dos inquiridos, nos Estados Unidos 78% e na Suécia 80 por cento.
“Estas conclusões confirmam que em muitos países a Internet não faz ainda parte da vida de milhões de pessoas”, observa Jeffrey I. Cole, director do Centro para o Futuro Digital, que criou e gere o Projecto Internet no Mundo. “E estamos a ver grande número de não-utilizadores mesmo em países com altos níveis de educação e emprego, longa tradição de uso da Internet e percentagens elevadas em instalação de broadband”.
Desigualdade de sexos
O relatório agora divulgado aponta diferenças sensíveis entre homens e mulheres no acesso à tecnologia online. Em seis dos países analisados, o fosso entre os dois sexos em termos de utilizadores é igual ou superior a 8 por cento. O caso mais flagrante é o México, onde há mais 16 por cento de homens a aceder à net do que mulheres. Na Colômbia esse fosso é de 15 por cento. Os países onde as diferenças são menos notórias são a República Checa, Portugal e a Suécia – em todos eles a maior percentagem de homens a utilizar a Internet não excede os 4 por cento.
Em seis dos 10 países ou territórios constantes do relatório, a razão mais citada para a não utilização da Internet é: “falta de interesse/falta de utilidade”. O custo do acesso à rede não é factor significativo na maioria dos casos. Só na República Checa ultrapassou os 15 por cento a percentagem de inquiridos que considerou a Internet demasiado cara ou mesmo fora do alcance das suas bolsas. Em Macau, as principais razões apontadas pelos não-utilizadores foram a falta de conhecimento especializado, de tempo, necessidade ou interesse.
Utilizadores de Macau cépticos quanto à credibilidade da informação
O Projecto Internet no Mundo encontrou também visões muito divergentes sobre a fiabilidade ou a importância da informação disponível online. Quando interrogados sobre a sua credibilidade, em todos os países e territórios onde foi feita a consulta mais de 40 por cento dos inquiridos disseram que só metade ou menos da informação existente na Internet é fiável. Macau, com uma percentagem de 80 por cento, é o sítio onde o cepticismo sobre a informação da net atinge valores mais elevados.
Apesar destas percentagens elevadas, e de uma forma um tanto contraditória, nem por isso deixa a maioria dos inquiridos de considerar que a Internet é uma importante fonte de informação para eles. Com excepção da Suécia, onde a percentagem é menor, em todos os outros países ou territórios há pelo menos 60 por cento de inquiridos a afirmar que a informação online é importante. No caso de Macau a percentagem é de 64 por cento. Além disso, entre os utilizadores de Internet na RAEM, 80 por cento tiram partido de motores de busca e 85 por cento lêem notícias online.
“A Internet transformou-se num importante aspecto da vida do dia-a-dia no que se refere à aquisição de informação, estando a leitura de notícias entre as actividades mais comuns. Os resultados deste relatório enviam um sinal claro ao governo e aos media sobre o sítio onde as suas audiências podem ser servidas de forma efectiva”, conclui Angus Cheong, responsável pela elaboração do estudo em Macau.
