O garfo dos outros
Os habitantes do território têm os seus restaurantes favoritos, a que vão regularmente. Mas os que passam por Macau, os viajantes, também comem e gostam de partilhar a sua opinião. Muitos fazem-no no TripAdvisor, a maior comunidade de viajantes da Web.
Hélder Beja
“Já estive lá quatro ou cinco vezes. É simpático, despretensioso e com boa relação qualidade-preço”. O comentário é de um visitante de Hong Kong, que aterrou numa das mesas do restaurante A Lorcha, a casa de comida portuguesa da RAEM mais bem cotada junto dos utilizadores do TripAdvisor, comunidade online de viajantes com mais de 3 milhões de pessoas inscritas.
A Lorcha, restaurante de Adriano Neves, está em terceiro no top ten do site no que toca a restaurantes de Macau. E se pensarmos que os dois primeiros classificados dão pelo nome de Lord Stows Bakery e Margaret’s Cafe e Nata, podemos dizer que A Lorcha é o primeiro verdadeiro restaurante desta lista.
As duas casas conhecidas pelos “pastéis de nata” fazem muito sucesso especialmente junto dos turistas chineses, a que pertencem a maioria dos comentários. Um utilizador australiano descreve os pastéis como “magníficos” e escreve o seguinte: “Nunca provei pastéis portugueses como estes.” É provável que os muitos cibernautas que, também no TripAdvisor, classificaram de “excelente” a Casa dos Pastéis de Belém, em Lisboa, não concordem com isto.
Dois portugueses e um francês no top 5
Regressamos à RAEM. Os utilizadores que comentam o restaurante A Lorcha referem todos que é difícil conseguir mesa e aconselham a reserva com antecedência. “É um pouco barulhento mas a comida é excelente e não muito cara. Têm também vinhos portugueses bastante aceitáveis e a bom preço”, escreve o cibernauta alemão para quem “as sobremesas são talvez o menos apelativo” da ementa. Um casal de Singapura elogia os preços e aconselha as amêijoas.
Do Japão para a tasca d’O Santos, um dos visitantes do Tripadvisor recomenda o bacalhau e garante barriga cheia. O Santos, restaurante na Taipa, recebe a maioria dos votos pela comida e atmosfera – ocupa a quinta posição entre todos os restaurantes da RAEM que os viajantes recomendam. “Adorei o sítio”, escreve um cliente de Guangzhou, a quem “o restaurante deixou uma sensação de ambiente de bairro difícil de encontrar no sul da China”.
Os chineses e, principalmente, os visitantes de Hong Kong são os principais clientes do restaurante do alentejano Santos Pinto, mais conhecido por Santos. “O quê, já estou em quinto [no top do TripAdvisor]? Que bela notícia, ainda há dias estava em sexto”, começa por dizer-nos este português que veio para Macau há mais de 20 anos.
“O Santos” está atento a estas coisas da Internet e até tem uma página na rede social Facebook, “com mais de 500 fãs”, conta o proprietário. “As pessoas chegam aqui com papéis que imprimiram na Internet, sugestões de outros turistas. Os que vêm de Hong Kong trazem muitas vezes uma revista em que aparecemos”, conta. Com a evolução do jogo e “a explosão de Macau como destino turístico, as coisas ficaram melhores”, admite o empresário. “Os meus amigos de Portugal costuma dizer-me que eu estou bem. O que lhes digo é que em Macau todos estamos bem, é preciso é trabalhar e fazer por isso.” E por ali o trabalho mais importante é manter a qualidade do serviço e de petiscos como as amêijoas, o leitão ou o bacalhau à Zé do Pipo.
Os “miminhos portugueses”, como lhe chama um utilizador luso do TripAdvisor, a viver na índia, ajudam a “a matar saudades”. E “os chineses também gostam muito de Sumol, de Compal e de outros produtos a que não estão acostumados”, diz Santos Pinto.
Já o quarto lugar desta lista feita e comentada exclusivamente por viajantes é do restaurante francês La Bonne Heure, situado bem no centro de Macau. Sobre o espaço, um utilizador escreve que “só a tábua de queijos vale a viagem” e que “o vinho francês é maravilhoso”. Outro, australiano, não faz por menos: “Comi o melhor peixe de sempre aqui. Quanto aos apreciadores de carne, devem experimentar o bife com molho de vinho tinto.”
E a cozinha macaense?
No top 10 dos restaurantes da RAEM é possível encontrar mais uma pastelaria-restaurante portuguesa (Caravela, sexto), um italiano (Il Teatro, oitavo) e um brasileiro (Fogo Samba, nono). Os outros dois lugares vão para casas que servem comida macaense: o Fat Siu Lau é sétimo e O Porto Interior fecha o ranking. No entanto, Luís Machado, presidente da Confraria de Gastronomia Macaense, diz que os verdadeiros “templos” da velha e boa comida à Maneira de Macau são outros. “Claro que há alguns pratos e é possível comer noutros sítios, mas a boa comida macaense está n’O Litoral, na cantina da APOMAC e no velho restaurante Riquexó”, sustenta. Isto muito “por culpa” de três senhoras. “A Manuela, a dona Vitória e a dona Aida, que tem 95 anos, são três grandes cozinheiras e confreiras por mérito”, refere. Para Machado, é cada vez mais difícil desfrutar da gastronomia macaense. “Ainda há muitas senhoras que sabem cozinhar os nossos pratos, mas mais em casas particulares do que em restaurantes”.
Outros garfos
O TripAdvisor não é a única rede de viajantes online – sendo que é uma das mais representativas. Outro dos sites muito usados por quem procura sugestões, o Lonely Planet, não faz rankings de mesa posta mas deixa três restaurantes como “imperdíveis” para quem visita a RAEM. São eles A Lorcha, que assim faz o pleno, o Litoral e o Fernando, restaurante português na praia de Hac Sa que é descrito com tendo “clientes devotos” e “conhecido pelo seu marisco”. Já do Litoral, as especialidades mencionadas são “sopa de caranguejos e sopa de camarão”, num ambiente onde pode experimentar-se “comida macaense deliciosa”.
Os garfos mais requintados dirão que nenhum destes estabelecimentos teve honras de Guia Michelin e é bem verdade. Para os anónimos provadores de comida que todos os anos atribuem estrelas aos restaurantes de todo o mundo, o problema dos restaurante portugueses e macaenses da RAEM é a “falta de consistência”. A explicação foi dada ao PONTO FINAL em Novembro passado, durante a apresentação do Guia Michelin 2010 para Hong Kong e Macau, pelo director dos guias, Jean-Luc Naret. O responsável alegou que os avaliadores tanto “tinham uma refeição deliciosa na primeira visita” como uma segunda prova “já deixava a desejar”.
Os laureados com estrelas por este importante guia são os Robuchon a Galera, único a merecer as três, o Zi Yat Heen do Four Seasons Macau, com duas e os sete seguintes com uma estrela: Tim’s Kitchen, Aurora, Jade Garden, Lei Garden, Wing Lei, Eight e Tung Yee Heen. Com mais ou menos constelações, vale a pena descobrir a gastronomia do território.

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