Impacto ambiental desconhecido
Ao contrário do que acontece em Hong Kong, na RAEM não estão disponibilizados estudos que permitam aferir o impacte ambiental daquela que será a maior ponte do mundo. Nem se sabe se esses estudos estão feitos, dado que as autoridades se escudam na “confidencialidade”. O certo é que pôr Hong Kong e Macau a meia hora de distância terá consequências em aspectos como a emissão de gases poluentes, acréscimo do trânsito e maior pressão urbanística. Pelo menos a avaliar pela informação divulgada publicamente, são questões que não terão sido estudadas.
Paulo Barbosa
Qual será o impacte ambiental da futura Ponte do Delta em Macau? Que implicações trará a mega-construção que ligará Hong Kong, Macau e Zhuhai nos ecossistemas da região, na emissão de gases poluentes – dado o inevitável aumento do tráfego rodoviário - e mesmo no urbanismo? Perguntas que o PONTO FINAL colocou ao Gabinete de Desenvolvimento de Infra-Estruturas (GDI), que está responsável pelo desenvolvimento da parte da obra que cabe à RAEM, à Direcção de Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) e à Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT). Mas sem obter uma resposta esclarecedora.
A DSPA ‘empurrou a resposta para o vizinho’ – respondendo com um lacónico “isso não é connosco, é com o GDI” –, enquanto que o GDI foi adiando a resposta. Na DSAT, a quem tínhamos pedido dados quanto ao impacte da ponte no trânsito da região, um funcionário informou que não conseguiu obter resposta “do pessoal do departamento”, tendo pedido para que as questões fossem enviadas por carta, o que, na prática, posterga um eventual esclarecimento para as calendas gregas.
O certo é que não estão disponibilizados publicamente estudos que permitam aferir o impacte ambiental da futura ponte na secção de Macau, ao contrário do que acontece em Hong Kong, onde tal estudo está publicado na página do “Environmental Impact Assessment Ordinance” (EIA), um serviço na dependência do Departamento de Protecção Ambiental (EPD, na sigla inglesa). Os serviços de imprensa do EPD esclareceram, no entanto, que “os dados publicados apenas cobrem a secção de Hong Kong da ponte, uma vez que a lei local vigora somente no território da RAEHK”.
A Sociedade de Ecologia de Macau (SEM) desconhece também o teor concreto de quaisquer estudos que tenham sido feitos. “O Governo de Macau recusou dar-nos o resultado de estudos sobre a ponte. A justificação prende-se com a confidencialidade desses estudos e por acharem que o facto de sermos uma Organização Não Governamental (ONG) os desobriga de nos informar”, explicou Joe Chan, o vice-presidente da SEM. O grupo ecologista sabe que o Governo contactou um centro de investigação da China continental para que fosse feita uma primeira avaliação do impacte ambiental da ponte, que não é pública. Mas a decisão de avançar com a ponte foi tomada “sem qualquer objecção”, considera Joe Chan, partindo do princípio de que “a influência da ponte no ambiente ecológico de Macau é limitada e de que o benefício que trará em termos económicos é muito maior do que as desvantagens”.
Criado por Despacho do Chefe do Executivo datado de 15 de Maio de 2000, o GDI é coordenado pelo engenheiro Chan Hon Kit e funciona na dependência e sob a orientação do Secretário para os Transportes e Obras Públicas. O gabinete tem por objectivos “promover e coordenar as actividades relacionadas com a implementação, manutenção, modernização e desenvolvimento de projectos de grandes empreendimentos na RAEM”, em particular aqueles levados a cabo no âmbito da cooperação regional da zona do grande delta do Rio das Pérolas.
Já aquando da sua formação estava previsto que “assumisse a coordenação e execução na RAEM, de projectos de construção de infra-estruturas de ligação, do lado de Macau, à Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, bem como dos acessos e outras infra-estruturas complementares de apoio”. O organismo ficou ainda incumbido de prestar apoio técnico-administrativo aos grupos de coordenação relacionados com a construção da Ponte do Delta, na parte representativa de Macau. Nos pareceres e estudos que emita, pode “recorrer aos serviços e apoio técnico de instituições académicas, de consultores especializados, bem como de outras entidades públicas ou privadas, na RAEM ou no exterior”. Face ao iminente arranque das obras da ponte, Edmund Ho prorrogou, em Março do ano passado, a duração do GDI até 24 de Abril de 2013. Apesar da importância dada à Ponte do Delta na legislação que define a orgânica do GDI, a página electrónica oficial do gabinete (www.gdi.gov.mo) não tem nenhuma informação em relação ao estado de andamento dos trabalhos preparatórios da construção daquela que será a maior ponte do mundo. Na rubrica dos “empreendimentos em curso”, apenas há referência às já concluídas obras de reformulação da Rotunda Ferreira do Amaral e do Centro de Ciência de Macau, pelo que se deduz que o site estará desactualizado.
A falta de informação ou de debate em Macau sobre a gigantesca obra não obsta a que esta já tenha arrancado. No passado dia 15 de Dezembro, numa das últimas cerimónias a que Edmund Ho compareceu como chefe do Executivo da RAEM, começaram em Zhuhai os trabalhos de construção de uma das quatro ilhas artificiais que vão servir de ligação à travessia. A ilha terá cerca de 200 hectares e ali serão instalados os postos alfandegários e um parque de estacionamento com capacidade para 7500 veículos. Uns meses antes foram feitas as prospecções do solo marinho da zona onde vão ser edificados os pilares da ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai. Foram então montadas várias plataformas móveis, onde se levaram a cabo cerca de 400 perfurações, num trabalho necessário ao desenvolvimento dos futuros trabalhos de edificação da ponte.
Trânsito e imobiliário
Com uma extensão de aproximadamente 50 quilómetros, 30 dos quais sobre o mar (sete deles em túnel, para assegurar a circulação marítima), aquela que será a maior ponte do mundo deverá estar concluída em 2015-16. A futura ponte está orçamentada em 72.5 mil milhões de renminbis e é apresentada como um importante canal ligando as três cidades e toda a área a ocidente do Delta do Rio das Pérolas. A viagem rodoviária entre Hong Kong e Zhuhai será reduzida de quatro horas para apenas 30 minutos. A ligação terá seis vias de circulação e uma forma de Y, para ligar as três regiões.
Segundo dados revelados pelo primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, na cerimónia de encerramento da sessão anual do Congresso do Partido Nacional chinês, as expectativas de circulação diária na mega-ponte são de 250 mil passageiros e 60 mil veículos, considerando o ano de 2035. O que significa que é previsível um acréscimo exponencial do trânsito em Macau, que parece ir contra a política de promoção dos transportes públicos preconizada pela DSAT. Mas aquela direcção preferiu não responder quando questionada sobre o impacte da ponte na circulação rodoviária da RAEM. Nem avançou com dados que permitam abalizar de que forma os carros vindos de Hong Kong e Zhuhai poderão circular numa cidade que actualmente já apresenta, em certas vias, uma circulação congestionada.
Também no imobiliário haverá consequências importantes decorrentes da construção da ponte, com inevitáveis impactes no ordenamento do território da RAEM e também no valor dos imóveis. Apesar da crise financeira ter provocado uma retracção do imobiliário, as agências do sector acreditam que o início da construção da Ponte do Delta e as perspectivas de diminuição do tempo de viagem para 30 minutos farão com que os investidores regressem ao mercado.
Um responsável da Midland Realty diz que os sinais da recuperação já são evidentes no Cotai. As fracções nos pisos mais altos do One Central, com vista para a água, estão a ser vendidas a preços que variam entre os 6500 e os 6800 dólares de Hong Kong o pé quadrado. Ora, em Janeiro do ano passado, o pé quadrado rondava os 3700 dólares de Hong Kong.
O construtor San Kin acredita que os investidores de Hong Kong regressarão ao território como consequência da construção da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, uma vez que a ligação tornará mais fácil o acesso à RAEM a partir de 2016. É razoável concluir que a ponte acarretará uma maior pressão imobiliária sobre o território, com um acréscimo de procura de imóveis. Com a ponte, será mais cómodo para os residentes de Hong Kong virem passar o fim-de-semana na RAEM e até comprarem um apartamento por cá. Mas, mais uma vez, não se encontram dados oficiais que permitam concluir de que forma vai o Governo encarar esta maior pressão urbanística.

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