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Jovens arquitectos mostram o que valem no Albergue

January 28, 2010

Terão uma média de trinta anos de idade,  os últimos dos quais passado a exercer profissão na RAEM em trabalho de equipa ao serviço de gabinetes de arquitectos já estabelecidos. São jovens, grande parte deles sem obra assinada e com poucas oportunidades para dar a conhecer as suas competências. Procuram um espaço no mercado.

Maria Caetano

Desde ontem, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia, nove jovens arquitectos exibem aquilo que têm feito por conta própria: painéis de projectos que – regra geral – não saíram do papel, mas representaram investimento de tempo, ideias e competências.
A exposição “Jovens Arquitectos de Macau” é a terceira parte da mostra “100% Designed in Macau” e pretende mostrar ao público em geral, e Governo em particular, que há gente nova com talento para trabalhar a arquitectura local – assim haja oportunidades. A organização é do Albergue em conjunto com a recentemente criada Comissão de Jovens Arquitectos da Associação de Arquitectos de Macau (AAM).
Victor Ao Ieong trabalha há dez anos em Macau. Formado em Taiwan, trabalhou em gabinetes de arquitectura locais e, em 2009, criou o seu próprio ateliê.
Na exposição, exibe o projecto de fim de curso: uma proposta de renovação para as Ruínas da Igreja de São Paulo onde um piso de vidro possibilita ver galerias subterrâneas a partir do exterior do local e ao mesmo tempo oferece a possibilidade de olhar a fachada do edifício patrimonial a partir de dentro do complexo proposto. Outro dos trabalhos expostos é o projecto de interiores para um café próximo da Avenida Horta e Costa, em Macau, que realizou mais recentemente.
Admite que tem sido difícil ter trabalho no território. “Como arquitecto, sinto que deve haver mais espaço para mostrarmos o que fazemos e fazermos mais”, defende.
Já Eliezer Villarua, natural das filipinas, está na RAEM há sete anos e é  actualmente um dos responsáveis pelos projectos de arquitectura de uma operadora de jogo do território.  Nas Filipinas trabalhava sobretudo em projectos residenciais, e é um exemplo do que fez no arquipélago que exibe no Albergue.
“Tenho uma abordagem hispânica, do tipo colonial, na arquitectura destes projectos. Normalmente, sigo a tendência segundo a qual é preciso compreender a cultura. Não procuro edifícios de tipo moderno e trabalho com materiais comuns e apreciados pela cultura em causa ao nível do design”,descreve sobre o trabalho exibido.
Direcção única
Desde que está  na RAEM, porém, tem sobretudo trabalhado em grandes projectos de hotéis-casino, no COTAI e em Macau. “A prática para este tipo de projectos é a de uma colaboração para o design dos projectos em que vários consultores trabalham juntos. Já nas Filipinas, cem por cento do design depende de mim. É uma diferença tremenda”, mas que ainda assim tem apreciado como desafio.
No entanto, diz, “sinto que tudo se encaminha para uma única direcção no que diz respeito a casinos e resorts”. “Não vejo uma área de entretenimento cultural ou de turismo em desenvolvimento. Também trabalhei em planeamento urbano e isso dá-me uma melhor noção de que Macau está na verdade apenas empenhado no desenvolvimento de resorts, e nada mais”.
Essa é uma das razões que o faz querer regressar às Filipinas. Não planeia ficar muito tempo. “Estou um pouco numa caixa, concentrado numa única coisa. Quero voltar ao lugar onde comecei, que me permitia exercer e  ser livre. Na situação em que me encontro, são os outros que concebem o design e eu limito-me apenas a detalhar os projectos”, conta, apesar de ocupar uma posição de chefia no departamento em que trabalha.
Ryan Leong é outro dos arquitectos que exibe projectos na mostra. Formado na Austrália, tem trabalhado em diferentes gabinetes de arquitectura locais e actualmente é editor da revista “Macau Architect” da AAM.
Para os painéis patentes no Albergue, escolheu o projecto que desenhou, em conjunto com outro jovem, Thomson Chan, para o concurso de ideias para a nova Biblioteca Central de Macau. “Achamos que é um projecto muito importante para Macau. É um edifício que pode gerar uma cultura particular nesta cidade. Pode ser um espaço onde as pessoas podem comunicar, trocar ideias, relaxar, tomar um café. Não precisa de funcionar apenas como biblioteca”, defende.
“Em vez de nos limitarmos de construir no edifício, estendemos a ideia com um túnel que liga ao outro lado da rua e funciona como um passeio”, explica sobre a  proposta apresentada para o concurso. Lamenta que o Governo não lance mais iniciativas como esta.

Mais concursos públicos

“A participação em concursos é muito importante, mas realizam-se poucos em Macau. Mo ano passado, tivemos a sorte de ter dois: a Biblioteca Central e o Pavilhão de Macau em Xangai”, diz Ryan, que defende mais oportunidades semelhantes: “No projecto do metro, o Governo deve promover concursos para cada uma das estações. Cada zona de Macau é diferente. Não pode haver um design que sirva todas”.
Perante a questão de saber como é que se dá a volta às dificuldades que os jovens encontram para entrar no mercado de trabalho, Carlos Marreiros, arquitecto local já consagrado, não hesita na resposta: “através de concursos públicos”, defende.
“Os nove arquitectos aqui representados participaram nos dois únicos concursos públicos existentes desde que se estabeleceu a RAEM. Isto prova que se o Governo promover mais concursos, mais oportunidades dará a este jovens”, diz o também director do Albergue.
O arquitecto Rui Leão partilha a mesma opinião. “Já há hoje em dia muito mais gente qualificada para desenvolver um projecto de pequena escala. É uma população de profissionais para os quais, se calhar, há uma série de ofertas de trabalho que poderiam ser lançadas de modo a que houvesse trabalho para distribuir a estes sectores”, diz.
“Há países onde há encomendas que só podem ser feitas por arquitectos com menos de determinada idade”, compara com a experiência de alguns países, admitindo porém que o mercado do território talvez não comporte a mesma fórmula.
Há um escalonamento, possível “quando há mercado com uma certa escala de oferta”, e que dá aos jovens arquitectos a possibilidade “de fazer a transição e abrir um escritório ou, pelo menos, ter uma actividade paralela própria”, entende.
Leão destaca também na exposição os “casos de submissões a concursos de Macau”, que considera importante mostrar. “Normalmente, não têm grande visibilidade. É um investimento grande que se faz e depois, tirando o que é construído, o resto escapa um bocado ao conhecimento geral, mesmo dentro da classe”, afirma.

Comissão jovem

O arquitecto sublinha também  a importância da nova comissão criada no seio da AAM. “Ela existe exactamente para promover o trabalho dos jovens arquitectos e as questões dos profissionais mais novos, relacionadas com a entrada no mercado de trabalho. É um espaço que pode preparar os profissionais mais novos para a sua responsabilização social”, defende.
“Queremos que os cidadãos e o Governo conheçam o trabalho destes jovens arquitectos e percebam que têm o saber e competências para fazer projectos”, defende também Ben Leong, presidente da Associação de Arquitectos, que está optimista quanto ás oportunidades que o território pode assegurar para os jovens arquitectos nesta fase.
“Estou certo que todos terão a oportunidade de trabalhar com o Governo e outros promotores”, acredita. “O Governo está a tentar colocar mais projectos no mercado, seja com habitação pública ou ainda com o acompanhamento da Universidade de Macau na Ilha da Montanha, onde o Gabinete de Desenvolvimento de Infra-estruturas quer envolver a associação. Queremos que os nosso membros acompanhem este projecto – não em termos de design, mas a um nível técnico”, entende o presidente da AAM, numa altura em que muitos gabinetes de arquitectura locais se debatem com a falta de trabalho.

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