Cheong U anuncia novo modelo de apoio ao sector criativo
O Governo reiterou ontem a intenção de criar um novo mecanismo de apoio aos criativos locais, com o estabelecimento de uma comissão e um sistema de financiamento próprios, que irão constar das Linhas de Acção Governativa para este ano. A medida é bem acolhida pelas instituições que já operam no sector, que no entanto recusam a realização de “estudos” e pedem mais acção.
Maria Caetano
O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, reiterou ontem a intenção do Governo incluir nas medidas para este ano a criação de uma comissão com a missão de apoiar as indústrias criativas e culturais da RAEM.
Nos planos do Governo estarão a constituição de um grupo de especialistas do sector e de um mecanismo de atribuição de apoios financeiros, segundo avançou ontem o secretário à margem da inauguração de uma exposição no Albergue da Santa Casa da Misericórdia.
Recorde-se que no início deste mês, numa reunião com individualidades escolhidas pelo Chefe do Executivo, para uma conversa em torno do que serão as Linhas de Acção do Governo para 2010, Chui Sai On deu conta da possibilidade de ser criado um fundo para as indústrias culturais e uma comissão consultiva na mesma área, que terá como tarefa a promoção do sector.
“A novidade introduzida nas Linhas de Acção Governativa vai incidir sobre duas vertentes: em primeiro lugar, sobre a eventual criação de estruturas, como uma comissão ou um grupo de especialistas para o estudo desta área; por outro lado, vai referir-se a atribuição de recursos de modo a apoiar o desenvolvimento destas indústrias”, esclareceu ontem Cheong U sobre as medidas que o Executivo dará a conhecer em pleno, na Assembleia Legislativa, em Março.
Relativamente ao futuro fundo de apoio, os critérios de atribuição de subsídios “ainda não estão definidos”. “Mas o princípio que orienta esta atribuição será o de assegurar uma distribuição justa e racional, visando a eficácia”, garantiu o secretário com a tutela da Cultura, que procurou dar conta dos moldes em que decorrerá o processo de candidatura dos projectos criativos.
O actual sistema de subvenções ao sector cultural, ainda em vigor, pressupõe candidaturas anuais através das associações locais após a entrega de um plano anual de actividades. O sistema tem merecido críticas, sendo denunciado como pouco transparente e criterioso.
No novo modelo, “as equipas e indivíduos interessados podem apresentar requerimento. Estes requerimentos serão apreciados por um grupo de avaliação, a quem caberá decidir sobre o montante e sobre o deferimento ou indeferimento do mesmo”, segundo avançou o governante.
Segundo Cheong U, o novo sistema de apoio ao sector cultural e criativo deverá estar em vigor ainda este ano. “Espero que sim. Já estamos a trabalhar para isto”, disse aos jornalistas, remetendo para mais tarde informações mais detalhadas sobre o novo organismo planeado.
Menos “dialéctica” e mais acção
Para quem opera no sector, com instituições dedicadas
à promoção de projectos culturais e criativos no território e lá fora, a criação da nova comissão dá um sinal positivo. Porém, avisam os interessados, o que mais conta não é promover estudos e discussões, mas agir com medidas concretas para dinamizar um empresariado que não encaixa nas definições tradicionais do tecido económico local e enfrenta grandes dificuldades em afirmar-se.
“Se a nova comissão que vai tratar das indústrias criativas puser, depois da dialéctica, o trabalho concreto, acho muito bem. Se é uma comissão só para dedicar-se à dialéctica e não fazer mais nada, então ‘muito obrigado’”, diz desde já Carlos Marreiros, director do Albergue da Santa Casa da Misericórdia, instituição que de há um ano para cá intervém no sector com mostras e seminários regulares.
“A dialéctica precede um plano de actividades, que é quando as coisas se concretizam. Sem rematar à baliza não se faz golos!”, avisa o arquitecto, a quem não faltam sugestões de por onde começar a agir.
“A comissão não precisa de inventar criativos, porque os há em Macau. Há que os descobrir, registá-los e fazer um levantamento”, avança, propondo um “mapeamento” dos talentos criativos locais nas várias áreas. Depois, sistematiza, deve-se dotar estes profissionais de capacidade empresarial. “É importante fazer também o equivalente a empresários que se queiram dedicar a este novo ramos das indústrias não-poluentes, amigas do ambiente e que têm a ver com os estilos de vida”.
“Tradicionalmente, o empresário em Macau é muito conservador: gosta só das indústrias têxteis e da construção civil. É altura deles serem menos conservadores”, afirma Marreiros.
Subsídios com critério
No que toca ao financiamento público de projectos, o arquitecto também aponta caminhos. “O Governo de Macau, através das suas várias instituições, tem apoiado os criativos locais, mas de forma não tão criteriosa como seria desejável, e tem-lo feito também de forma esparsa e pontual. Há que fazer um subsidiamento criterioso e estruturante”, defende.
Para o director do Albergue, o novo sistema de financiamento deve ser dirigido a “produtos concretos”, com vantagens para quem recebe e quem dá. “Não seria uma aplicação a fundo perdido. Serviria para financiar uns protótipos que, ao serem construídos e industrializados, as suas receitas reverteriam, proporcionalmente, para os criativos que os produziriam e para o Governo que os patrocinaria”, sugere.
Exemplos não faltam, e são apontados pelo arquitecto em pouco mais de dois minutos: subsidiar a produção de ‘souvenirs’ por criativos locais ou até “um serviço de loiça cem por cento ‘designed in Macau’ para ser servido no Palácio do Governo”. No mobiliário urbano local, lembra Marreiros, “há jardins com bancos importados, da Europa ou da China, sendo alguns de muito mau desenho”. “Porque não financiar empresários e criativo locais para que desenhem bancos de jardim, papeleiras? Porque não fazer um concurso e financiar os contentores de lixo que o IACM tem feito de forma horrível?”, são questões que o arquitecto coloca sucessivamente, como sugestões daquilo que pode ser feito.
Para José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus (IEEM), que detém o Centro de Indústrias Criativas de Macau, o facto do Governo ter referido a necessidade de estudos sobre o sector cultural e criativo também parece levantar reservas.
“É importante, não tanto estar nessas discussões de carácter abstracto e com poucos resultados, mas antes compreender o potencial que temos. Temos um grande potencial – a vida tem-nos mostrado isso. Até a própria imprensa internacional recentemente reconheceu que, de entre os quarenta criativos com maior potencial na Ásia, seis são de Macau. É uma proporção absolutamente inimaginável para um território tão pequeno”, lembra Sales Marques.
Apoios adaptados
“São problemas, fundamentalmente, de mercado” aqueles que tolhem as iniciativas dos criativos locais, admite, defendendo sobretudo a necessidade de criar mecanismos de apoio adaptados à realidade de um tecido empresarial criativo “marcado pela existência de imensas micro-empresas” e de criar também o ‘hardware’ necessário ao desenvolvimento da indústria em potencial.
“Essas empresas não podem seguir o mesmo percurso que uma empresa de têxteis, confecções ou serviços que pede um subsídio para ir fazer uma exposição no exterior. Não têm as mesas condições”, lembra o presidente do IEEM.
Sales Marques defende formas de apoio “próprias e adequadas às indústrias criativas, que tenha consciência que estas são indústrias com elevado grau de risco de insucesso”. Por outro lado, diz, é importante “criar o hardware”, novos espaços físicos para a criatividade: como o prometido Bairro de São Lázaro, Largo do Lilau e até fábricas antigas, aponta.
“Há uma dinâmica dos criativos de Macau, que já estão a fazer essas coisas”, que envolve sobretudo gente jovem, constituindo “uma alternativa de emprego, de contributo para Macau”.
Trata-se de um trabalho que “deve ser feito por quem sabe”: académicos e profissionais ligados à indústria, como gestores, empresários e criativos – e não necessariamente a anunciada comissão, a quem caberá, segundo Sales Marques, sobretudo a tarefa de secundar as iniciativas com as formas de apoio necessárias. “A Comissão deve apoiar isso e não deve substituir-se”, entende.
