Guilherme Ung Vai Meng na presidência do Instituto Cultural
Foi um dia feliz para artistas e agentes culturais da cidade. Guilherme Ung Vai Meng, artista plástico e principal impulsionador do Museu de Arte de Macau, vai substituir Heidi Ho na presidência do Instituto Cultural. A notícia foi recebida com muito entusiasmo e expectativas q.b. em relação ao futuro da estrutura. Porém, quem anda nestas coisas da cultura sabe que um só homem não basta para que a real mudança aconteça.
Isabel Castro
É uma mudança desejada que vem acabar com um certo cansaço na lógica de condução governamental dos destinos da cultura. Guilherme Ung Vai Meng é hoje nomeado presidente do Instituto Cultural (IC), cargo que, ao que o PONTO FINAL apurou, só assumirá a partir de Março próximo.
O artista plástico e actual responsável máximo pelos serviços culturais e recreativos do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) vai substituir Heidi Ho, figura que está longe de ser consensual entre aqueles que pensam a cultura do território.
Já Ung Vai Meng causa outro tipo de impacto: tendo sido director do Museu de Arte de Macau (MAM) ao longo de oito anos e meio, são-lhe reconhecidas capacidades de gestão que, aliadas ao facto de ser um artista plástico conhecedor do panorama local, fazem dele “o homem certo no local certo”.
Contactado por este jornal, Ung Vai Meng preferiu não tecer comentários sobre a sua nomeação. E isto porque ontem ainda não tinha sido tornada oficial e ainda está em funções no IACM. Uma coisa de cada vez. O Instituto Cultural não é uma realidade desconhecida para o artista plástico, que lá trabalhou durante alguns anos, mas o contexto mudou e, assim sendo, prefere guardar para mais tarde comentários às suas futuras tarefas.
Do ponto de vista estritamente político, a nomeação de Ung Vai Meng é, em certa medida, uma surpresa. Uma lufada de ar fresco. De modo distinto de muitos dos actuais agentes governamentais da cultura, o sucessor de Heidi Ho não estudou Gestão ou Administração, nem revela tendência para o jogo político. Embora seja, há já muitos anos, trabalhador da Função Pública de Macau, distingue-se pela capacidade crítica que foi revelando em diferentes momentos da vida do território, nomeadamente em relação ao estado da cultura e ao desenvolvimento desenfreado da cidade.
Venha mais “inovação na continuidade”
A escolha de Ung Vai Meng resulta de uma decisão política e é por aí que o arquitecto Carlos Marreiros inicia a sua análise à notícia ontem divulgada pelo Jornal Tribuna de Macau. “Se a nomeação de Guilherme Ung Vai Meng está no espírito da tão propagada inovação na continuidade, que essa política seja continuada. É o homem certo no local certo”, comentou ao PONTO FINAL o também responsável pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia.
Marreiros, que foi presidente do Instituto Cultural, trabalhou com Ung Vai Meng quando ambos estavam ao serviço da estrutura governamental. Amigos “há quase trinta anos”, o arquitecto não poupa elogios às características do artista plástico. Pelos “estatuto intelectual, capacidade cultural, dimensão humana, capacidade de trabalho e espírito dinâmico”.
“Formámos o Círculo dos Amigos da Cultura, estivemos juntos em várias lutas”, frisa Carlos Marreiros, que acredita num “novo fôlego” para o IC com Ung Vai Meng na presidência. “É uma notícia que me enche de alegria e sei que não sou o único”, diz.
Quanto às consequências desta nomeação para o funcionamento do Instituto Cultural, o também pintor considera que o futuro presidente irá ajudar a resolver, no que à cultura diz respeito, um problema que a RAEM tem ao nível das suas estruturas. “O que tem faltado ao Governo é criatividade e coragem para fazer coisas. Muita dialéctica que não serve de nada se não houver aplicação prática.” O IC “deixará de ser uma mera agência de espectáculos”. Uma mudança que, reforça Carlos Marreiros, é desejada pela população, que “quer mais do Instituto, quer que a instituição esteja ao pé da sociedade civil”.
Com a mudança do responsável máximo em vias de se concretizar, o arquitecto defende que o IC “não pode dedicar-se só à chamada cultura institucional, muito menos ao chamado gosto médio instituído”. Tem, isso sim, “de dar possibilidade à cultura da ‘erva daninha’ para que esta brote do empedrado”. A cultura tem de incomodar, provocar, colocar em causa o instituído e criar debate, para que haja discussão. Ora, “o Guilherme tem possibilidades de o fazer”.
No meio de grandes expectativas, uma ressalva – e Marreiros não é o único a fazê-la. Embora tenha sido presidente do IC noutros tempos (quando a seguir ao IC ainda vinha o ‘M’ da palavra Macau, que caiu da sigla com a RAEM), o arquitecto conhece bem os cantos ao sistema. “Devemos registar a nomeação com alegria, mas também devemos, à nossa medida e das instituições a que estamos ligados, ajudar o Guilherme com a prossecução da política cultural.”
É que um homem só – com a sua equipa – é pouco, atendendo às necessidades da cidade. A ajuda deve partir das estruturas culturais diversas do território, mas também (ou sobretudo) do próprio Executivo. “O Governo, mais acima, tem de ter habilidade politica para o fazer. Uma direcção de serviços pode esbarrar no gabinete da tutela. É preciso um apoio institucional mais envolvente acima da direcção de serviços.” O caso do património cultural é exemplificativo desta necessidade de envolvimento de quem tem, efectivamente, o poder para decidir.
Cidadão de corpo inteiro
António Conceição Júnior teve “o prazer” de trabalhar com Ung Vai Meng no Museu de Arte de Macau, mas a relação de ambos vem de longe. “Sempre mereceu a minha admiração, tanto pelo seu talento como artista e designer gráfico, como pelas suas qualidades pessoais, sendo de salientar a sua autenticidade e generosidade, a que se somam o entusiasmo e dedicação às causas da cultura em geral e das artes em particular”, afirma o artista plástico.
Também Conceição Júnior faz uma leitura política desta escolha do Governo de Chui Sai On. “A nomeação de Guilherme Ung Vai Meng para a presidência do Instituto Cultural – além de constituir amplo motivo de regozijo para todos quantos o conhecem ou se encontram ligados à vida cultural de Macau –, constitui para mim a indicação de uma vontade política de conferir à actividade cultural institucional de Macau uma perspectiva de contemporaneidade.”
É que Guilherme Ung Vai Meng é “um cidadão de Macau de corpo inteiro, conhece bem a cidade e como nela intervir, conhece as suas múltiplas valências, conhece instituições, associações, artistas e outros interventores, sendo isto uma mais-valia para benefício de Macau”, aponta. Resumindo e concluindo, “trata-se sobretudo de uma pessoa que sabe pensar culturalmente a cidade, o que mais valoriza esta escolha”.
Sobre as expectativas a que a nomeação dá inevitavelmente origem, António Conceição Júnior destaca “a abertura e capacidade de diálogo” deste pintor que combina, de forma peculiar, capacidades de gestão e de administração à criatividade que a arte exige. “Quem vai presidir ao Instituto Cultural é o Guilherme que todos nós conhecemos e estimamos. É exactamente essa pessoa estimada e estimável que tem um conhecimento profundo da cultura portuguesa e ocidental e, naturalmente, da cultura chinesa, que fala português para além de outras línguas, que se entusiasma com todas as áreas da cultura, quem vai presidir ao Instituto Cultural.”
Conceição Júnior salienta ainda que “temos assistido ao progressivo reconhecimento dos seus méritos como dirigente cultural, como criativo, como cidadão dedicado à causa da cultura”. Por tudo isto, o artista plástico acredita que Ung Vai Meng “saberá gerir com inteligência, sensibilidade e pragmatismo a complexidade das valências do IC que passam pelo Património, Arquivo Histórico, Bibliotecas, Edições, Conservatório, Acção Cultural, Festivais, etc.”.
Os ovos que faltam
Yao Jinming, poeta e tradutor, escolheu exactamente as mesmas palavras que Carlos Marreiros para avaliar a nomeação de Ung Vai Meng: “É a pessoa certa no lugar certo”. E isto porque, sem metáforas ou quaisquer outras figuras de estilo, estamos perante “um artista, um homem com uma grande sensibilidade para a cultura”.
À semelhança dos demais auscultados, Yao considera que o trabalho desenvolvido por Guilherme Ung Vai Meng à frente do Museu de Arte de Macau “provou a sua qualidade e competência”. Depois, é “de cá, conhece bem as características da cultura de Macau, pelo que fiquei muito contente”.
O poeta pertence a uma área da cultura que tem sido particularmente esquecida pelo IC: o mundo das letras. Depois de uma forte actividade editorial no final dos anos 1980, o Instituto Cultural deixou de ter um papel activo nesta matéria. A última década foi, para muitos, um vazio. Yao concorda com os que têm esta opinião – “Há áreas que estão muito mais dinamizadas” – e espera que, com a entrada de Guilherme Ung Vai Meng, seja dada mais atenção a esta dimensão da cultura. “Ele próprio gosta de escrever”, remata o poeta.
Para José Drummond, a notícia desperta “a esperança de que tudo mude para melhor”, mas também é facto que, “como se costuma dizer, para fazer omeletas é preciso ovos”.
“Sabe-se que a modernização da estrutura da área cultural é uma matéria urgente. Este parece ser um sinal positivo do Executivo mas diz respeito apenas ao trabalho de uma pessoa. Espera-se que possa ter suficientes meios e espaço para fazer o seu trabalho”, diz Drummond acerca das suas expectativas para o futuro do IC.
Quanto a Ung Vai Meng, continua, “é uma referência de respeito no panorama cultural do território pelo reconhecimento geral do trabalho complicado, mas conseguido, que foi a gerência de um espaço que teve sempre pouco dinheiro, mas não só”. O artista plástico distingue “a grande sensibilidade para as questões dos artistas, sendo também um dos nomes importantes da pintura de Macau”. Deste modo, “penso que a nomeação é muito bem recebida por todos e é quase natural que existam mudanças num Instituto que apresentava enormes sintomas de cansaço.”
Há esperança
O perfil e a obra de Ung Vai Meng são reconhecidos por todos e James Chu subscreve o que já foi dito sobre as características pessoais e profissionais do sucessor de Heidi Ho. Na primeira reacção, o presidente da Art for All (AFA) diz ser uma “grande, grande notícia”, para logo em seguida fazer uma leitura do que a nomeação significa para os artistas de Macau.
“É uma demonstração de que é possível, de que tudo é possível. Ung Vai Meng começou por ser um técnico, mais tarde foi sendo promovido”, recorda. “É um artista, é um dos nossos, é um grande exemplo para os jovens de Macau. Sinto-me muito feliz por ele. É um dos nossos”, reitera.
James Chu acredita na competência profissional de Guilherme Ung Vai Meng, mas o presidente da AFA sabe que “uma só pessoa não pode mudar tudo o que está mal”. Chu atribui mais responsabilidades aos sistemas do que às pessoas que ocupam determinados cargos. E este raciocínio aplica-se ao IC, hoje e quando Ung Vai Meng assumir as suas novas funções.
“Tenho a certeza de que vai imprimir uma nova dinâmica, é uma pessoa cheia de energia. Não é do tipo regional – não, ele tem um olhar para o mundo, sabe sempre o que se está a passar, sabe olhar lá para fora”, realça o artista plástico. Mesmo acreditando nos dotes de Ung Vai Meng, há que atender às circunstâncias. E as actuais não inspiram particular optimismo a James Chu, que defende uma reestruturação do Instituto Cultural, pois pensa que o actual modelo se esgotou com o passar dos anos. A estrutura deve, por exemplo, “começar a olhar para as indústrias culturais e criativas, devem ser definidos objectivos, porque sem isso não é possível avançar-se”.
Manuel Correia da Silva alinha no mesmo sentido no que toca à necessidade de uma nova dinâmica do IC. “Sente-se uma certo esgotamento, há uma programação um pouco monótona, que merece ser reconstruída”, sugere o designer em relação ao trabalho futuro do Instituto Cultural. “As pessoas esperam uma nova energia”, acrescenta.
Não se sabe se a mudança de dirigente será acompanhada da liberdade necessária para alterar estruturas e renovar procedimentos. Por isso, para já, fica “o bom trabalho feito à frente do Museu de Arte de Macau”. Manuel Correia da Silva entende que neste último ano e meio “sentiu-se uma diferença” na instituição. Guilherme Ung Vai Meng deixou o MAM para ocupar um cargo mais elevado no IACM, mas “perderam-se os efeitos directos do trabalho dele”. Com o regresso do artista plástico a uma posição em que as suas decisões serão mais tangíveis, “vamos poder sentir mais a influência do bom trabalho que tem feito”.

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