“Não há no mundo muitos projectos como este”
O PONTO FINAL assistiu ao primeiro concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa em Xangai e falou no final com o maestro Cesário Costa. O trabalho de formação que a OML está a desenvolver leva-o a querer manter-se por muito tempo à frente do projecto.
- A Metropolitana de Lisboa está a cumprir uma digressão a contra-relógio na região de Xangai, onde vai cumprir 9 concertos em 12 dias. Um grande desafio até do ponto de vista físico, presumo.
Cesário Costa – É naturalmente um grande desafio. Estamos a tocar todas as noites em locais diferentes e por isso sabemos que teremos de gerir bem o esforço. Mas, embora interpretemos sempre mais ou menos o mesmo programa, entendo que estes concertos não são uma repetição, pois todas as noites estaremos a tocar para um público diferente. Vamos ter reacções distintas, vamos criar uma relação diferente cada dia e acho que esse aspecto vai ajudar a orquestra a ganhar energias e estímulo para se apresentar bem em todos os concertos.
- Como surgiu esta oportunidade?
C.C. – Vimos a convite de um promotor local que organiza digressões de orquestras na China. Contamos com o apoio da Fundação Oriente – o concerto de Xangai resulta, exactamente, do protocolo que a FO tem estabelecido com o governo chinês – e também com o apoio do Instituto Camões. Ao aceitar o convite, a nossa primeira preocupação foi mostrar na China a música orquestral portuguesa. Pela reacção do público neste concerto, é uma música que consegue chegar às pessoas, mesmo a um público que nunca a ouviu.
- Que critérios usou na estruturação do repertório, para além da inclusão de compositores portugueses?
C.C. – Quando pensei neste programa, pensei fazê-lo extremamente variado. Estamos a falar de concertos de Ano Novo, não exactamente na linha da tradição existente na Europa, onde por exemplo os concertos de Ano Novo de Viena têm sempre as polkas, as valsas de Strauss, mas com algumas características comuns e daí essa preocupação: que fosse um programa variado. Um segundo aspecto para mim indispensável era, como disse, que trouxéssemos música portuguesa a este concerto. Daí termos Carrapatoso e Joly Braga Santos. Achei que seria também importante apresentarmos música chinesa. É uma espécie de saudação nossa ao povo chinês. Finalmente, tentei encontrar obras para violino e orquestra, para serem interpretadas pelo (solista luso-canadiano) Alexandre da Costa. Teriam de ser obras com um certo virtuosismo e uma certa expressividade, tendo a escolha recaído em duas obras de Bartok e Prokofiev, de que o público gostou, a julgar pela forma como reagiu, até por serem obras de um contacto muito fácil.
- Os encores, e houve vários, foram peças bem populares.
C.C. – Sim, a Marcha de Radetsky (de Johann Strauss) é uma obra que toda a gente conhece na Europa e foi muito curioso sentir aqui a reacção do publico. Quando os convidei a bater palmas, não sabia se o iam fazer ou não. Mas nestas coisas é bom haver sempre alguma provocação. Depois, pelo olhar das pessoas, percebi que sentiam um certo gozo naquilo que estavam a fazer. E acho que quando se consegue essa relação entre o publico e a orquestra, ficamos todos a ganhar. Dificilmente as pessoas esquecerão aquele momento em que participaram.
- Encores à parte, que impressão leva do público de Xangai?
C.C. – O que tem de mais curioso é que, ao contrário do que é normal nos países europeus, as pessoas aplaudem de uma forma muito entusiástica durante três segundos ou quatro e depois acabou. E isso em Portugal seria sinal de que as pessoas não estavam a gostar. Mas aqui já percebemos que a tradição é diferente. É um aspecto a que teremos de nos habituar. Enquanto esses quatro segundos forem muito intensos, já é óptimo.
- O que se deve concluir do facto de haver duas orquestras portuguesas em digressão na China ao mesmo tempo?
C.C. – Em primeiro lugar, é uma feliz coincidência. Nem nós sabíamos que eles vinham à China quando estávamos a preparar a nossa vinda, nem vice-versa. Por outro lado, mostra que há vontade de dar a conhecer fora de Portugal o trabalho que lá se faz, além de mostrar que esse trabalho é reconhecido noutros países. Ou seja, mostra que o trabalho que se está a fazer em Portugal é um trabalho com qualidade.
- A orquestra não tem, no entanto, muitos músicos portugueses.
C.C. – Essa é a tendência actual. Quando se abre um concurso, concorrem músicos de todo o mundo e vencem os melhores. As pessoas devem conquistar os lugares assim. Mas isso não significa que não haja bons músicos em Portugal. Por exemplo, o primeiro violoncelo da orquestra é um ex-aluno da nossa escola que fez exames atrás da cortina (sem que a sua identidade fosse conhecida do júri) e entre 30 candidatos foi o melhor. Isso mostra que é bom o trabalho que está a ser feito.
- A sua ligação à Metropolitana de Lisboa é para continuar?
C.C. – Sim, tanto mais que o projecto não é só a orquestra. Arrisco-me mesmo a dizer que não há muitos projectos no mundo como este. Conjuga de uma forma transversal aquilo que é a actividade artística da orquestra com aquilo que é a sua vertente pedagógica. Temos 3 escolas, com650 alunos, desde os 3 anos até ao mestrado. É um projecto que permite conjugar concertos em que há alunos de nível superior que se apresentam com a orquestra. Por exemplo, a 5a sinfonia de Mahler que vamos fazer esta temporada, tem uma ligação muito estreita entre a interpretação e o ensino. Os músicos da orquestra são quase todos eles professores nas nossas escolas. Há muito trabalho a fazer mas é um projecto com características únicas em Portugal. E, por isso mesmo, um desafio a que não posso nem quero virar as costas.
