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O outro lado da RAEM

December 21, 2009

Em dia de celebrações, os democratas quiseram dizer que Macau não é só o “milagre económico” propalado pelas autoridades. Cerca de mil manifestantes cruzaram o centro de Macau, onde gritaram slogans e exibiram faixas anti-corrupção e pró universalização do voto. Será que Hu Jintao ouviu?

Paulo Barbosa

Os slogans “lutar contra a corrupção; combater pela democracia e manter o nível de vida dos residentes” foram gritados até à exaustão por Au Kam San, que liderou ontem uma manifestação da Associação Novo Macau Democrático (ANMD) ao longo de algumas das principais ruas de Macau. A manifestação marcou o tom destoante no dia em que se assinalou o décimo aniversário da RAEM e em que, entre muita pompa e circunstância – e até uma sessão de fogo de artifício como Macau nunca tinha visto – Fernando Chui Sai tomou posse enquanto novo chefe do Executivo, num juramento presidido por Hu Jintao.
Composta por mais de mil manifestantes, a marcha partiu do Iao Hon e prosseguiu de forma ordeira, embora sempre em tom aguerrido, até chegar ao Palácio do Governo, onde membros da associação entregaram diversas petições a um responsável do Executivo que se encontrou com eles à frente do portão exterior do palácio cor-de-rosa. Tal como os slogans, as petições exigem uma maior democratização, o eficaz combate à corrupção e a manutenção dos empregos pelos trabalhadores de Macau, outra das grandes bandeiras do NMD.
Ao longo do percurso, os manifestantes classificaram a situação actual de Macau que como de “brilho para o exterior, podridão para o interior”. Nos cartazes, alguns escritos em inglês (os promotores da marcha pareciam adivinhar que esta contaria com a cobertura jornalística da imprensa de Hong Kong e de órgãos como a Reuters e a BBC) podiam ler-se frases como “poder absoluto, corrupção absoluta” , “os deputados nomeados estão a ‘assegurar’ que vigorem leis malévolas”, “os bons funcionários públicos não merecem nada, os maus são recompensados”, “democracia plena para salvar Macau” e “democratização em 2019”.
A manifestação seguiu a passo rápido e demorou apenas duas horas a chegar à Praia Grande, onde parou em frente ao palácio. Ali, perante fortes medidas de segurança, foram entregues as petições quando o relógio se aproximava das 17 horas.

Entre Beatles e a Internacional

Ng Kuok Cheong era um homem satisfeito no fim da marcha e confessou que a participação superou o previsto, com mais de mil manifestantes (os números oficiais da polícia apontam para 900 pessoas). “A nossa estimativa é que a parada tivesse 200 pessoas, porque o governo tentou pressionar as pessoas a não participar. Tudo parou com o caso Au Man Long, agora é tempo para a democratização”. O deputado fez referência aos activistas, políticos e jornalistas de Hong Kong, que foram barrados à entrada de Macau.
No fim da manifestação, nos cais do lago Nam Van, Au Kam San, num púlpito improvisado e ao som da Internacional Socialista e da música “Imagine”, dos Beatles, agradecia às pessoas por “lutarem pelos seus direitos”, e Paul Wan Chai fazia apelos “à luta pela democracia e contra a corrupção”. Enquanto isso, um grupo de adolescentes explicava a jornalistas que as suas preocupações são bem mais materiais. “Em Macau há um problema com os terrenos, muitas pessoas não têm o seu próprio apartamento”, dizia um deles. Outro estudante liceal, Gino Lei, dizia que o novo Chefe do Executivo “é cópia” de Edmund Ho. “A educação não é muito boa, porque as pessoas não estudam política ou ciência política e, na sociedade em geral, há problemas básicos por resolver”, sublinhou. Ao lado, Ng Kuok Cheong falava com senhoras idosas, que não têm autorização para viver em Macau.
Jason Chao, da ANMD, referia que a adesão à manifestação foi “superior ao esperado, até porque o Governo tentou condicionar o evento”. Num inglês fluente, Scott Chiang, um dos candidatos à Assembleia Legislativa não eleitos numa das listas da ANMD, confirmou também o sucesso da parada. Ironia: “A atmosfera antes da marcha foi harmoniosa. O Governo tentou muito suprimir os protestos e criar uma atmosfera festiva na cidade, mas o número de pessoas foi bastante bom, mais ou menos semelhante aos dos últimos anos, mas notou-se muita gente nova”.
Questionado sobre se o presidente chinês Hu Jintao irá ter conhecimento dos protestos, o jovem político, que é considerado uma das grandes esperanças dos democratas, disse que a percepção da ANMD é que Pequim “está a ouvir” a mensagem dos contestatários. “Mas precisamos de passar uma forte mensagem.”
E o que faria Scott Chiang se se pudesse encontrar pessoalmente com Hu Jintao? “Dizia-lhe que tem de estar alerta, porque a escolha que fez para liderar a RAEM não é tão boa como ele pensa e é preciso que o Governo Central tenha atenção em relação às actividades deste executivo”
Ao longo de todo o percurso, verificou-se apenas um ligeiro incidente na zona do Canídromo, com Ng Kuok Cheong a descrever que “a polícia terá tentando persuadir um elemento a seguir o caminho delineado para a manifestação”. O deputado não confirmou os boatos segundo os quais esse elemento, que disse não pertencer à ANMD, teria sido preso.

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