Nove páginas de jornal para dez anos de adeus
Não fosse um longo destaque de sete páginas do jornal Público, e a data quase teria passado despercebida na imprensa portuguesa que ontem foi para as bancas. O décimo aniversário da RAEM e da despedida da administração portuguesa de Macau foi ocasião para sentir o pulso à vida actual do território e recordar o processo negocial entre Portugal e China que culminou a 20 de Dezembro de 1999.
Maria Caetano
Em Lisboa
“Dez anos é muito tempo”. E se numa década após a transição, “a presença portuguesa esboroa-se em Macau”, como assinalava ontem o semanário Sol, reproduzindo um texto da Lusa assinado por Luís Andrade de Sá, na memória de Portugal a presença de Macau não é também das mais nítidas.
No dia do aniversário dos dez anos da RAEM, a imprensa portuguesa trata a efeméride com nove páginas no total, nas quais se descrevem os dias que o território atravessa hoje, e se recordam também os dias da transição.
Das nove páginas de jornal, sete delas surgem entre as folhas do diário Público, de longe aquele que trata com maior profundidade e destaque a data, incluindo reportagem, análise e entrevistas. É ouvido Jorge Sampaio, presidente português no dia em que a bandeira das quinas foi derradeiramente arriada em Macau, cedendo o mastro ao lótus da RAEM e às cinco estrelas da bandeira da República Popular da China.
Na entrevista conjunta, ao Público e Rádio Renascença, Sampaio, actualmente alto representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, considera que a transferência “foi excelente, bem discutida, bem pensada”, ao mesmo tempo que recorda um dos aspectos que considera ter sido dos mais complicados de resolver em vésperas de 20 de Dezembro de 1999: conseguir que as tropas do Exército da República Popular da China entrassem em Macau só depois da administração portuguesa cessar funções – ao contrário do que sucedeu, em 1997, em Hong Kong, com as autoridades britânicas.
O ex-presidente lembra como a dois meses da condução da RAEM ser entregue às suas gentes, como prescreve a Lei Básica, o então presidente chinês Jiang Zemin visitou Portugal. Num almoço ocorrido no Porto, Jorge Sampaio fez saber junto do vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros das suas preocupações sobre a data de entrada dos militares. Estava, lembra, com “cara de pau” e a garantia de que a parada chinesa só passaria as Portas do Cerco após as zero horas de dia 20 era condição imposta pelo então chefe de Estado português para presenciar as cerimónias de transferência em Macau. “Passados cinco minutos veio dizer-me que as tropas só entravam no dia seguinte, às nove da manhã”, conta Sampaio, admitindo que “os chineses não são fáceis a negociar”.
Da RAEM de hoje, Sampaio entende que a Lei Básica tem vindo a ser aplicada com sucesso e defende também que a língua portuguesa tem vindo a desenvolver-se. “Falei com a comunidade portuguesa e há uma grande esperança”, afirma também aos jornais portugueses sobre as impressões colhidas há um ano, aquando de uma visita a Macau.
Sobre as negociações pré-transferência fala também ao Público Pedro Pires de Miranda, ministro dos Negócios Estrangeiros nos anos de 1986 e 1987, que acordaram e firmaram a Declaração Conjunta. O ex-chefe da diplomacia de Lisboa lembra em entrevista que o estabelecimento da data para o fim da administração portuguesa do território foi um dos aspectos mais sensíveis das conversações, tendo a decisão sido deixada estrategicamente para mais tarde. “Meti na cabeça: não lhes vou dar a data até conseguir o mais possível para os nossos interesses”, revela Pires de Miranda, lembrando que a vontade de Pequim era a de reaver Hong Kong e Macau em simultâneo.
“Foi um excelente acordo: a prova é que passaram dez anos e não houve problemas”, defende na entrevista.
As páginas do diário trazem ainda um longo artigo acerca do papel de Macau enquanto plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa e outro, mais reduzido, sobre a redução do investimento português na RAEM – do qual o Banco Nacional Ultramarino se mantém como um dos principais exemplos.
O destaque de sete páginas do Público complementa-se ainda com uma reportagem de fundo da autoria da jornalista Francisca Gorjão Henriques e com imagens do fotógrafo Daniel Rocha, que recentemente se deslocaram à RAEM dos dias de hoje para dela levar imagem até Portugal. São ouvidas figuras políticas e analistas, jornalistas e religiosos. A reportagem descreve um território de apatia no sector político, ainda dominado pelos interesses empresariais, e o caso Ao Man Long surge como uma dos principais marcos na breve vida da RAEM.
Em análise surgem também as liberdades de imprensa e religiosa de que goza o território, sublinhando-se alguns dos constrangimentos actuais e comparações com o período pré-1999. Os interlocutores ouvidos em reportagem falam de auto-censura, mais que censura à imprensa, e fazem por assinalar que apesar da liberdade de culto que permite uma forte população católica em Macau, não seria possível, por outro lado, haver um grupo da Falungong no território.
Se o espaço que o Público reserva para recordar Macau é largo e tratado com fôlego, o mesmo não se pode dizer dos restantes títulos de imprensa. A maioria ignora a efeméride do décimo aniversário da transferência – diários como o jornal I, o Diário de Notícias, Correio da Manhã ou 24 Horas são omissos, não contando neles uma única breve onde surjam Macau ou RAEM.
O semanário Sol, por seu turno, dedica uma página da secção Internacional do jornal ao assunto, reproduzindo um texto da agência Lusa onde se fala da regressão da presença portuguesa na RAEM, e que faz suas as palavras da CCTV que, em reportagem evocativa da transferência de soberania, afirmou que a matriz portuguesa “domina em formas culturais superficiais” – tais como “arquitectura e gastronomia”, acrescenta o jornalista Luís Andrade de Sá.
Numa pequena caixa intitulada “Mais democracia, exige-se”, reproduzem-se também as palavras do deputado José Pereira Coutinho, do vice-reitor da Universidade de São José, Ivo Carneiro de Sousa, e do realizador Albert Chu, a propósito das reformas políticas ainda por concretizar em direcção ao sufrágio universal.
Já nas páginas do Expresso, na edição deste fim-de-semana, Pereira Coutinho surge compondo o retrato de um líder da oposição possível no sistema político local. “Demagogo? Sindicalista? Coutinho tem características de líder”, escreve o jornalista José Pedro Castanheira, enviado a Macau pelo semanário português. A capa do jornal fala de “o eleito que não quer ser chinês”, dando destaque às palavras do deputado sobre a possibilidade de adquirir a nacionalidade chinesa: “ Só por cima do meu cadáver”, diz Coutinho.
No Expresso, conta-se também como o novo Governo que ontem tomou posse é mais bilingue, num artigo do jornalista Gilberto Lopes. Contas feitas, no Executivo de Chui Sai On, quatro em cinco secretários falam a língua portuguesa, de um elenco em que o Francis Tam e Chui Sai On são excepção. Há ainda quem fale português nos restantes principais cargos políticos da RAEM e na chefia de várias Direcções de Serviços da Administração, faz notar o correspondente do Expresso.
Macau noite fora na TV
A comemoração do décimo aniversário da transferência de poderes em Macau não ficou ontem fora das grelhas televisivas de Portugal. A efeméride foi assinalada nos noticiários dos principais canais generalistas e a programação da televisão pública foi ainda um pouco além das reportagens da actualidade informativa. Ao longo do dia, o canal 2: da RTP emitiu um total de cinco documentários. Durante a tarde, foi exibido “Patuá di Macau: Únde ta Vai?”, da autoria de Silvie Lai e realizado por James Jacinto, que perspectiva o futuro do crioulo maquista, uma das línguas classificadas pela UNESCO como estando em risco de extinção. Já o serão foi preenchido com a série de três documentários sobre a Macau actual da autoria de Ivo Ferreira, Márcio Loureiro e Albert Chu, recentemente rodados no território. “In Macau” oferece três olhares sobre a RAEM, volvidos dez anos, entre as perspectivas de quem conhece o território pela primeira vez, quem o reencontra por breves momentos e quem nele vive desde sempre e nele projecta o futuro. A noite dedicada a Macau concluiu-se com a projecção do documentário “Macau Sem Regresso”, da autoria da realizadora francesa Michale Boganim, produzido em 2004.
