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O dinheiro não compra tudo

December 18, 2009

Retrospectiva sobre o desenvolvimento da Arte e Cultura de Macau nos últimos dez anos.

Alice Kok

Num período de dez anos, Macau passou de uma vila colonial portuguesa a uma cidade de casinos internacionalmente conhecida. Ao longo destes dez anos, diferentes sectores da sociedade registaram um forte impulso no seu desenvolvimento – onde se inclui, naturalmente, o sector cultural, que é aquele sobre o qual nos debruçamos. Mas antes de entrarmos nos detalhes, olhemos o quadro geral.
Em resultado das receitas de jogo, Macau tornou-se rica. Mas – note-se bem – não estamos a falar de um qualquer Governo rico, mas de um a quem cabe governar uma população de apenas cerca de quinhentos milhares de residentes e que recebe por ano dezenas de milhares de milhões de patacas, produto apenas das receitas de impostos cobrados ao jogo.
Ninguém negará que este facto transformou e continua a transformar a mentalidade de Macau de forma tremenda. O factor económico tornou-se tão preponderante que, se quisermos falar da Arte e da Cultura de Macau, não podemos passar ao lado da questão do dinheiro. Nitidamente, o Governo de Macau adoptou a “Política do Dinheiro” como estratégia para tudo. E o sector da Arte e Cultura não é excepção.
A cada ano, em Setembro, os artistas de Macau e agentes culturais atarefam-se. No final deste mês têm de submeter o programa anual ao Governo de forma a candidatarem-se a subsídios para os projectos planeados para o ano seguinte. O sistema é básico: para que alguém possa sobreviver em Macau enquanto artista, deve formar uma associação. Com uma associação, junta-se um grupo de artistas. Tal não acontece por os artistas serem mais sociáveis por natureza que os demais, mas antes por ser essa única forma através da qual conseguem candidatar-se a verbas para os seus projectos.
Ao longo dos últimos dez anos, as associações artísticas têm proliferado na cidade como cogumelos. À primeira vista, o Governo aparenta ser bastante generoso. Se for possível reunir um grupo de gente para formar uma associação e houver motivação suficiente para cumprir os procedimentos burocráticos e entregar uma proposta escrita ao Governo (até ao final de Setembro!), é certo que haverá algum dinheiro em forma de “subsídios”.
As regras parecem simples porque, na verdade, não há regra. À medida que as associações de artistas continuam a candidatar-se aos “subsídios” do Governo, apercebem-se de que não existem critérios claros quanto à soma que poderão receber por projecto, ou sobre que tipos de projectos são aceites, nem tão pouco qualquer explicação em caso de recusa ou acompanhamento significativo quando as candidaturas são aceites. Sabem apenas que, de algum modo, conseguem receber dinheiro de tempos a tempos, ainda que falte uma plataforma na qual possam desenvolver os seus desígnios com uma visão a longo termo.
O resultado é que as associações artísticas podem eternizar-se (desde que o Governo seja rico e esteja, naturalmente, disposto a subsidiá-las). Ou, pelo menos, ao longo dos últimos dez anos, os cogumelos multiplicam-se em número, embora nunca venham a crescer. Macau é hoje uma colónia de numerosas pequenas associações culturais que coexistem. E, uma vez que lhes falta um sentido de orientação geral e apoio a longo termo do Governo, estas associações existem enquanto concorrentes, e pior, as suas actividades sobrepõem-se, criando um grave problema de desperdício de recursos.
E qual é o problema? Na verdade, não existiu desde sempre tanto dinheiro. Nos primeiros cinco anos desta década, quando a situação económica era má, não abundavam tantos cogumelos. E era difícil pedir subsídios de todo. Durante os últimos cinco anos, o Governo fez com que, gradualmente, o seu sistema de subsídios de tornasse num sistema anual. E agora que há dinheiro e, sem dúvida, este foi gasto, a questão está em saber “COMO?”.
A avaliar pela actual situação, não há simplesmente forma de saber quanto foi gasto em Arte e Cultura. A sobreposição de serviços e papéis já referida não é um problema específico das associações culturais locais; o Governo lidera de longe esse fenómeno. O Instituto Cultural, a Fundação Macau, o IACM, todas essas organizações governamentais representam actualmente as principais fontes de apoio financeiro para as associação culturais e artísticas locais. Mas nenhuma delas oferece directivas tangíveis sobre “COMO” o dinheiro deve ser distribuído pelo sector das Artes e Cultura.
Todos os anos, o Governo gasta largas somas de dinheiro para trazer até à cidade espectáculos internacionais nos festivais de Artes e de Música, o que beneficia o público local, em princípio. E o Governo tem recebido louvores por isso. Mas não nos demos já por satisfeitos, já que não há forma de saber como esses espectáculos e grupos internacionais são convidados a participar nestes dispendiosos festivais. Agindo arbitrariamente, o Governo não mostra qualquer transparência mesmo nas suas “funções” públicas. Os orçamentos despendidos com produções internacionais são de longe bem maiores que aqueles gastos no desenvolvimentos das artes locais.
No que diz respeito ao desenvolvimento das artes e cultura locais, falta ao Governo visão para delinear quaisquer estratégia ou políticas – se é que não lhe falta sinceridade de todo. Pois se houvesse visão e sinceridade, o Governo poderia muito simplesmente, em primeiro lugar, iniciar um diálogo com significado com as associações e artistas locais de forma a perceber as questões e necessidades que estão de facto sobre a mesa. Depois poderia ser criada uma comissão especializada que reunisse responsáveis do Governo, agentes culturais e artistas e centralizasse a questão. Assim talvez fosse possível propor um esboço de ideias e politicas culturais. Por fim, o sector artístico de Macau estaria em condições de se desenvolver de uma forma saudável e com sentido de solidariedade. Esta solidariedade cultural poderia assim propagar-se á sociedade e tornar-se motivo de orgulho genuíno para a população de Macau.
Em vez disso, nos últimos dez anos, o Governo esteve demasiado ocupado a gastar dinheiro para sua própria glorificação. E a ideia de que “o dinheiro não compra tudo” é algo que não está ao alcance da sua mente pouco imaginativa.
Cultura e Economia; Arte e Dinheiro – andam a par como as duas asas de um pássaro. Uma não pode voar sem a outra. Os artistas precisam de dinheiro para sobreviver; a sociedade precisa de arte e cultura para manter identidade, bem-estar e equilíbrio. Apesar do que dita o mercado, a cultura e a arte não podem ser compradas como uma qualquer embalagem de ‘noodles’ instantâneos no supermercado. Se quisermos sobreviver por outros dez anos, com dignidade e enquanto uma cultura orgânica numa floresta de árvores estéreis de fazer dinheiro, o Governo precisa de rever, imperativamente e em profundidade, a sua atitude perante a Arte e a Cultura.

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