O futuro da China, essa incógnita
O último governador britânico de Hong Kong, Chris Patten, defendeu em entrevista à Agência Lusa que a sociedade de Macau está pronta para se governar através de eleições directas e universais.
“Não sei o que a administração local de Macau prometeu, mas a minha opinião é que quer Hong Kong, quer Macau, são sociedades sofisticadas que seriam perfeitamente capazes de se gerir a si próprias através de processos democráticos”, disse Chris Patten.
Patten, autor de reformas eleitorais que alargaram a participação eleitoral a quase todos os cidadãos antes da entrega de Hong Kong à China em 1997, reconheceu na entrevista à Lusa o papel positivo do Governo Central nas relações com Macau e com a ex-colónia britânica, apesar de Pequim ter dissolvido as reformas que colocou em marcha.
“Seria perverso não reconhecer que as coisas correram bem. Posso falar melhor sobre Hong Kong. Apesar de [algumas] intervenções [de Pequim] que eu lamento, foi permitido a Hong Kong e Macau gerir os seus próprios assuntos e é por isso, por exemplo, que o primado da lei sobreviveu”, considerou o último governador.
“As autoridades chinesas tiveram desde o início mais sucesso em Macau do que em Hong Kong, ao identificarem [no Chefe do Executivo] Edmund Ho um líder político local que, em minha opinião, geriu a transição de forma extremamente conhecedora”, acrescentou.
Desde a transferência de administração de Macau de Portugal para a China em 1999, a evolução de Macau tem sido “suave” devido à “boa gestão local”, disse ainda Chris Patten, lamentando, no entanto, a adopção, em Fevereiro, de legislação que prevê penas de prisão entre 10 e 25 anos para crimes de traição à pátria, secessão do Estado e subversão contra o governo central chinês.
“É a única questão que me deixa confuso, a introdução em Macau da lei da subversão, que foi rejeitada em Hong Kong. Mas talvez exista um raciocínio local que eu não conheça”, afirmou.
Quanto ao futuro, Patten diz apenas “quem quer que preveja o que vai acontecer à China dentro de 40 anos anda a fumar substâncias ilegais”. “Ninguém sabe como será a China em 40 anos. A minha convicção forte é que o resto da China será mais como Hong Kong ou Macau, mas há também quem diga o contrário”, acrescentou Chris Patten, que é actualmente chanceler da universidade de Oxford e foi comissário europeu para as Relações Externas.
Patten elogiou ainda o trabalho português antes da transferência de Macau, que considerou “ter sido extremamente bem gerida pelas autoridades portuguesas e pelo último governador de Macau”.
Quanto às memórias de Macau, o último governador de Hong Kong recordou que um fim-de-semana no território era como “ir de férias ao estrangeiro”, uma grande forma de “aliviar a tensão”. Na memória do último governador de Hong Kong estão ainda outras lembranças, mais próprias de quem era conhecido na China pela alcunha simpática de Fei Peng, ou “Pang, o Gordo”, o primeiro governador colonial ocidental a merecer uma alcunha chinesa.
“Gostava particularmente da comida e dos vinhos portugueses. Bebi melhores vinhos portugueses em Macau do que bebi em qualquer outro sítio do mundo”, lembrou Fei Peng.
Rui Boavida, Agência Lusa
