A SIDA ainda é um problema dos outros
Em Macau, há muito quem ache que a SIDA é um problema dos outros e se desinteresse – muitos são os que não fazem os testes, nem se preocupam. As ONG que trabalham no terreno têm contacto com poucos casos, mas garantem que isso não significa que não os haja. Os números oficiais são baixos.
Luciana Leitão
Os números oficiais são relativamente baixos, mas os reais – dizem as ONG que actuam no campo da prevenção – são difíceis de apurar. Paul Pun, secretário-geral da Caritas, diz que as pessoas infectadas pelo vírus temem a discriminação e receiam a invasão de privacidade, acabando por nem contactar as organizações. Por seu turno, a associação Macau Aids Care (MAC) considera que, em Macau, os residentes ainda pensam que se trata de um problema alheio.
A associação MAC é relativamente nova. Trabalhando, sobretudo, no campo da prevenção da SIDA, actua em duas vertentes: dispõe de uma linha telefónica informativa – a funcionar de terça-feira a domingo, das 14h30 às 22h30 – e procura chegar junto dos trabalhadores da indústria do sexo.
No que toca ao impacto do serviço telefónico, a MAC admite que, realmente, não recebe muitas chamadas. Por exemplo, durante este ano, registaram-se, aproximadamente, 50 telefonemas. Talvez, arrisca a porta-voz, por as pessoas não terem conhecimento e também por, na maioria dos casos, os residentes de Macau acharem que a SIDA é um problema dos outros.
A maioria das chamadas que recebem vem de residentes que suspeitam estarem contaminados com o vírus; outros, porém, apenas querem respostas a algumas perguntas.
Quanto ao segundo serviço que providenciam, acabam por entrar em contacto com prostitutas, levando-lhes preservativos ou material informativo.
Os números
No primeiro trimestre deste ano, verificaram-se três casos de residentes chineses e um não chinês contaminados pelo vírus HIV. No período homólogo do ano transacto, registou-se a contaminação de 14 chineses e oito não chineses.
Tratando-se de números relativamente baixos, a associação MAC acredita que os números reais sejam superiores. Até porque, do seu contacto com a população, vai-se apercebendo de outros casos que nem chegam aos registos dos Serviços de Saúde.
Seja como for, ao comunicar com os grupos de risco, como as prostitutas e os toxicodependentes, a MAC tem-se apercebido de que estão, regra geral, bem informados. No primeiro caso, as mulheres e homens procuram utilizar o preservativo, enquanto no segundo, os toxicodependentes têm alguma noção de que não devem partilhar seringas.
Se os números são assim tão superiores em relação aos oficiais, a MAC também não sabe dizer. Afinal, segundo a associação, a discriminação em relação a portadores do HIV é grande no território, além de que os residentes acham sempre que se trata de um problema dos outros, acabando por nem fazer análises.
A associação propôs ao Governo, no mês passado, passar a treinar os funcionários da associação para poderem recolher análises ao sangue quando contactam com esses grupos de risco. Desta forma, conseguiriam ter uma noção mais clara do número de pessoas contaminadas, podendo ajudá-las de forma mais eficaz.
Promover cuidados de saúde
A Caritas actua também no campo da prevenção da SIDA, divulgando informação junto dos desalojados, toxicodependentes e adolescentes.
No que toca aos consumidores de drogas, procura mostrar-lhes os perigos da partilha de seringas, enquanto aos adolescentes e pais providencia material informativo básico sobre a prevenção da SIDA. Segundo Paul Pun, a Caritas apresentou uma proposta ao Governo que visa promover levar a ONG junto dos pacientes internados nos hospitais – proposta essa que, até ao momento, ainda não recebeu resposta.
Um facto curioso é que, quando a Caritas lida com pais ou adolescentes, e promove conversas sobre a prevenção desta doença sexualmente transmissível, nunca lhes diz que o assunto é a SIDA. “Falo de cuidados de saúde; nunca digo SIDA porque, se o fizer, ninguém aparece. Pensam que é um assunto que não lhes diz respeito”, explica Pun.
Quanto aos baixos números oficiais de pessoas contaminadas pelo vírus, o secretário-geral da Caritas não sabe explicar. “Este ano, a Caritas só esteve em contacto com um caso, apesar de termos recebido telefonemas de mais pessoas com essa problemática”, afirma, acrescentando, porém, que isso não significa que a população esteja bem informada.
“Suspeitamos, por exemplo, que o Governo acaba por deportar muitas das pessoas contaminadas”, especula, acrescentando que, noutros casos, “dada a pequena dimensão de Macau – e a falta de privacidade que acaba por aqui existir -, alguns residentes optam por abandonar a cidade e prosseguir tratamento noutros locais”. Seja como for, para o secretário-geral da Caritas, uma coisa é certa: há que continuar a trabalhar na luta contra a SIDA.
A luta contra a timidez
São tímidas quando se fala em sexualidade, hesitam na hora de receber o preservativo e têm muitas dúvidas. Numa acção por ocasião do Dia Mundial da Sida – que se assinala amanhã -, a associação Macau Live Net juntou-se ontem a outros dois organismos e foi para a rua contactar com trabalhadores migrantes, especialmente indonésias, e distribuir brochuras.
A actividade esteve a cargo da Associação Macau Live Net – uma ONG que promove a integração de grupos sociais marginalizados através da arte -, a Macau Aids Care (MAC) e a Peduli (associação de protecção dos direitos dos trabalhadores indonésios).
De acordo com a fundadora da Associação Macau Live Net, Cecília Ho, perto de três dezenas de voluntários (sobretudo indonésias) foram recrutados para esta acção. Empunhando t-shirts informativas e distribuindo as habituais brochuras do Governo, o grupo acabou por comunicar com os trabalhadores imigrantes concentrados, sobretudo, nas imediações da Avenida Horta e Costa.
O problema da língua
Tendo por público alvo essencialmente a comunidade indonésia, com a acção pretendeu-se não só informar as trabalhadoras daquele país dos métodos de prevenção da SIDA, mas também chamar a atenção ao Governo para o facto de que muitas das informações oficiais são veiculadas apenas em inglês, português e chinês, não chegando, assim, a estas trabalhadoras. Por isso, desta vez, traduziram as brochuras oficiais para bahasa indonésio.
As associações envolvidas quiseram ainda alertar para outro aspecto: a necessidade de os hospitais de Macau terem, ao seu serviço, tradutores. “A barreira da língua acaba por levar a que sejam discriminados”, afirma.
Quanto ao número de casos de pessoas contaminadas no seio da comunidade migrante de Macau, Cecília Ho não sabe dizer. “Vi, nos números oficiais, registo de casos de cidadãos não chineses. Não faço ideia se isto se refere a cidadãos migrantes”, diz.
A timidez no sexo
Destinando-se a acção essencialmente às indonésias, Cecília Ho afirma que, sendo uma comunidade muçulmana, é particularmente tímida na abordagem de assuntos ligados à sexualidade. “Quando lhes damos preservativos, ficam incomodadas”, declara, acrescentando, porém, que, quando lhes colocam questões sobre a prevenção da SIDA, mostram-se interessadas. E mais, aproveitam para colocar outras perguntas relacionadas com a mulher. “Querem saber sobre o cancro da mama; como podem fazer para detectá-lo”, exemplifica.
Na sua acção junto dos indonésios, a associação Macau Live Net acabou por se cruzar com elementos da comunidade filipina e vietnamita. Mas, no primeiro caso, a questão da barreira linguística já não se coloca tanto, porque, normalmente, os cidadãos daquele país do Sudeste Asiático percebem inglês. “Sabem o básico, mas não aprofundam muito o assunto”, esclarece Cecília.
Fazendo um rescaldo da actividade, a fundadora da Macau Live Net afirma que se trata apenas de um primeiro passo. “Estamos a tentar envolver-nos, a tentar chegar às pessoas”, diz, explicando que, se esta acção se dirigiu essencialmente aos indonésios, espera que, no futuro, possa promover “acções ou workshops para outras comunidades”. E, talvez, recrutar voluntários para fazer a tradução para as línguas destes povos.
Não há registo do número de cidadãos imigrantes que tenham contraído o vírus HIV no território. De acordo com os números dos Serviços de Saúde, no terceiro trimestre de 2009, registou-se um caso de contaminação de um cidadão não chinês. Desde 1986 até agora, esse número ascende a 288. Quanto a casos de não chineses que tenham já SIDA, verificaram-se, neste período, 19.
