“Os incompetentes mantêm-se e os que se empenham são afastados”
Manifestamente insatisfeito com as escolhas de Chui Sai On, Au Kam Sam criticou duramente a recompensa daquilo que considera ser uma “incompetência”. Paul Chan Wai Chi pegou na sua deixa e teceu elogios ao trabalho de Fátima Choi.
Luciana Leitão
Foi a primeira vez que um deputado se pronunciou tão abertamente sobre a escolha dos novos membros do Governo. No período antes da ordem do dia da sessão plenária do hemiciclo, Au Kam Sam teceu duras críticas à passagem do Executivo cessante para o novo de alguns elementos que considera “incompetentes”, enquanto outros que trabalharam com “afinco”, como é o caso de Fátima Choi, foram afastados.
Para o deputado, a equipa escolhida pelo futuro Chefe do Executivo, Chui Sai On, deixa muito a desejar. “É fraca, fruto de os cidadãos não poderem participar na vida política”, declarou, garantindo que muitos residentes não concordam com a escolha.
Além disso, garantiu o deputado, tendo ficado demonstrada a “incompetência e canalhice” de muitos – termo que mereceu um reparo da parte do presidente da Assembleia Legislativa, Lau Cheok Va -, os residentes não percebem como foram novamente nomeados.
Mostrando-se descontente por Fátima Choi – a ainda comissária da Auditoria – ter sido substituída, quando, pelo contrário, “a maioria dos titulares dos principais cargos mantém-se”, o também membro da Associação Novo Macau Democrático afirmou: “Os incompetentes mantêm-se e os que se empenham são afastados”.
Paul Chan Wai Chi, na sua intervenção, foi ainda mais directo na defesa de Fátima Choi. “Embora a actual comissária da Auditoria não passe para o próximo Governo, os seus trabalhos já mereceram a concordância da sociedade: foram melhores do que os de alguns dos seus colegas que passam para o novo Executivo”, sustentou, acrescentando que “cumpriu com os seus deveres perante os cidadãos, ao apresentar os vários relatórios, nomeadamente o dos Jogos da Ásia Oriental”.
Assacar responsabilidades
A intervenção de Au Kam San não ficou por aí. Insatisfeito por Edmund Ho estar prestes a terminar o seu mandato e não se ter pronunciado sobre o antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes, Ao Man Long, o deputado reafirmou que, na sua qualidade de superior hierárquico, o ainda Chefe do Executivo “deve assumir as suas responsabilidades”.
Independentemente da salvaguarda da independência judicial – justificação dada pelo Chefe do Executivo para não se pronunciar sobre o caso -, Au Kam San afirma novamente que, já se sabendo que o antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes não tinha poder para assinar autorizações de concessões de terrenos cujo montante fosse superior a um dado valor, “Edmund Ho não se pode escusar à responsabilidade”.
O também pró-democrata Ng Kuok Cheong seguiu pelo mesmo diapasão. “Desde a detecção dos crimes até ao julgamento de Ao Man Long, o Chefe do Executivo nunca assumiu qualquer responsabilidade política em relação ao assunto”, afirmou, acrescentando que, em vésperas de fim de mandato, também não foram prestados quaisquer esclarecimentos em relação à “insuficiência de fiscalização e conivência no esbanjamento do erário público do ex-secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, por ter autorizado os vários pedidos de reforço de verbas para a organização dos Jogos da Ásia Oriental, acabando por ultrapassar muito a dotação inicialmente prevista”.
Assim, apela o deputado, o Chefe do Executivo devia deslocar-se à Assembleia Legislativa, antes de cessar funções, para fazer o balanço dos trabalhos desenvolvidos, prestar esclarecimentos e responder a perguntas.
O balanço de Chan
Assinalando-se este ano o décimo aniversário da transferência de administração, Chan Meng Kam aproveitou para fazer um balanço e para, tal como os pro-democratas, falar de responsabilização pelos erros.
Para o deputado, apesar do “êxito” no desenvolvimento económico e construção social, alguns aspectos não foram bem conseguidos, devendo o Governo cessante assumir as devidas responsabilidades por algumas falhas.
Assim, referindo-se a pontos como “a falta de transparência na governação”, a “insuficiência ao nível da consulta pública” ou a “indefinição com clareza de uma política de habitação” – facto que salientou, ao longo da sua intervenção, referindo-se à promessa de construção de 19 mil habitações públicas até 2012 -, Chan Meng Kam deixou a pergunta no ar: “Quem deve assumir as devidas responsabilidade?”
