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Condenado em 1994, condecorado em 2009

November 26, 2009

O historiador e investigador Jin Guoping recebeu esta semana uma das mais importantes condecorações do Estado português. Só que ninguém sabia que ele tinha sido condenado há 15 anos por auxílio à imigração ilegal.

João Paulo Meneses
putaoya@hotmail.com

Jin Guoping, historiador e investigador ligado à Fundação Macau, recebeu esta semana o diploma e as insígnias do grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, por decisão de Cavaco Silva.
Acontece que Jin Guoping foi condenado em 1994 pelo crime de auxílio à imigração ilegal, a 15 meses de prisão, com pena suspensa.
O PONTO FINAL confirmou que os diversos interlocutores oficiais ligados à condecoração desconheciam o facto – de Cavaco ao chanceler das Ordens Nacionais, Mota Amaral.
Narana Coissoró, o antigo deputado do CDS que é membro do Conselho das Ordens, fez a proposta de agraciamento, ele que, como presidente do Instituto Oriente (do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa) conhece bem a obra bibliográfica de Jin. No processo que acompanhou a proposta para o agraciamento nada consta relativamente a este caso. Posteriormente foram recolhidos vários pareceres, todos eles positivos (com destaque para o da Embaixada de Portugal em Pequim).
Na fase final o Conselho das Ordens aprovou a proposta por unanimidade e apresentou-a ao Grão-Mestre das Ordens Honoríficas, o Presidente da República, que a sancionou.
Jin Guoping tornou-se comendador da Ordem do Infante na tarde da passada terça-feira, no Palácio da Independência, durante uma cerimónia realizada propositadamente para o efeito e presidida por Mota Amaral.

15 anos antes

O PONTO FINAL contactou Jin Guoping uns dias antes da entrega, que prometeu responder depois de receber a comenda. Ainda assim, até ao momento em que este texto foi redigido as suas respostas não chegaram.
O caso em questão remonta a 1993, quando Jin Guoping foi detido no aeroporto de Lisboa pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Jin foi acusado de um novo crime, o de auxílio à imigração ilegal (o decreto-lei que criara esse crime acabara de ser publicado) e, julgado um ano depois, foi condenado.
Na base da história estão dois cidadãos chineses detidos num aeroporto dos Açores em Março de 1993, com destino aos Estados Unidos. Tinham passaportes falsos e isso deu origem a uma investigação por parte do SEF, que culminou na acusação a Jin Guoping e a um cidadão espanhol.
No caso de Jin, foi acusado de ser o responsável por uma organização de auxílio à imigração ilegal na Península Ibérica, de ter tratado dos vistos para os passaportes falsos e de ter entregue os bilhetes de avião aos seus dois conterrâneos.
Jin sempre recusou as acusações de tráfico de pessoas, argumentando que se limitou a ajudar alguns cidadãos chineses a entrar em Espanha para fugirem ao regime chinês. Ele próprio seria ‘persona non grata’ em Pequim, por ter estado envolvido nas manifestações de Tiananmen em 1989. Mas os argumentos do então tradutor de chinês-português em Lisboa não foram aceites pelas autoridades portuguesas, para quem Jin tinha motivações lucrativas e era o elo de ligação da rede na Península.
Foi condenado em Lisboa a 15 meses de prisão, com pena suspensa.

23 anos em Portugal

Jin chegou a Portugal pela primeira vez em 1981, para estudar língua portuguesa.
Natural de Xangai, começou muito cedo a estudar espanhol (entre 1965 a 1975). Concluiu a licenciatura em linguística hispânica pela Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim e uma pós-graduação em português na mesma universidade. É nessa altura (1981) que vem para Portugal, estudar Cultura e Língua Portuguesa na Universidade de Lisboa. Volta à capital chinesa para leccionar português na Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim e em 1986 emigrou definitivamente para Portugal, iniciando um vasto percurso dedicado aos estudos da presença portuguesa na China e da história de Macau.
Tem diversas obras publicadas em chinês e em português sobre estas matérias e é autor de um Dicionário da História de Macau(em português), ainda no prelo. Foi aliás o seu currículo que lhe valeu a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, destinada a distinguir “serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro ou serviços de expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, sua história e seus valores”.
Várias vezes o PONTO FINAL noticiou os seus trabalhos, destacando-se, por ser das mais recentes, a descoberta do exemplar da carta que Fernão Mendes Pinto escreveu em 20 de Novembro de 1555 e na qual se prova a etimologia da palavra Macau.

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One Comment leave one →
  1. November 27, 2009 4:32 am

    O mesmo de sempre: muita inveja, muita ingratidão e a absoluta incapacidade portuguesa para compreender que homens como Jin Guo Ping aparecem apenas um ou dois por geração. É lamentável, mas assim é.

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