Europa do Norte na China

2009 November 3
by pontofinalmacau

Qingdao tem uma atmosfera única e quer afirmar-se como uma das capitais mundiais da vela. A cidade portuária possui uma indústria pujante e características naturais e culturais que justificam uma visita.

Paulo Barbosa, em Qingdao

Quingdao parece um pedaço da Europa incrustado na China. Com 2,7 milhões de habitantes (mais de sete milhões, se for considerada toda a área envolvente), a cidade portuária soube aproveitar a efémera passagem dos alemães pelo seu governo, no início do século passado, para construir uma identidade urbanística e cultural que se mantém até hoje.
Como resultado da coerência do seu desenvolvimento, a cidade tem crescido de reputação nacional e externa. Um estudo recente colocava-a como a nona urbe chinesa mais prestigiada.
Se é incontestável que o facto de ser “o berço” da famosa cerveja Tsingtao lhe dá visibilidade nacional, a realização das provas de vela dos últimos Jogos Olímpicos levou o nome de Qingdao a todo o mundo. E foi pretexto para um embelezamento das suas ruas, com monumentos e novos espaços urbanos.
As emoções do período olímpico ficaram registadas no Museu da Vela, junto ao cais onde decorreram as provas, onde se podem ver alguns dos barcos vencedores e informações sobre os Jogos, dispostas em quadros interactivos. Um espaço que se enquadra no objectivo das autoridades locais de aproveitar o prestígio de ter albergado a mais importante competição do mundo para “tornar Qingdao como uma cidade famosa nos desportos de vela”, observa Wang Wzi, vice secretário-geral do Partido Comunista Chinês no governo da cidade. Já este ano, passou pela cidade a Volvo Ocean Race.

Economia pujante

A pujança económica da cidade está bem patente no produto interno de 443 milhões de yuan e na força das suas indústrias cervejeira, electrónica e portuária.
Apenas considerando o período entre Janeiro e Setembro deste ano, a produção de cerveja Tsingtao foi de cinco milhões de toneladas, somente ultrapassada, entre as 55 cervejeiras de toda a China, pela cerveja de Pequim. Na sede da fábrica de cerveja, que tem 105 anos, existe um museu onde se podem apreciar os vários estágios de produção da bebida, desde o mosto até à embalagem.
A partir do porto são despachados anualmente, para várias zonas do mundo, 40 milhões de contentores. O tráfego marítimo não é apenas de bens de consumo, dado que a proximidade relativamente à Coreia do Sul e mesmo ao Japão faz com que haja ligações de ferry regulares com esses países.
No domínio industrial, a história de maior sucesso é a da gigantesca sede e fábrica do grupo de produtos electrónicos Haier, que o PONTO FINAL visitou na semana passada. À beira da falência há umas décadas, quando era uma pequena fábrica de frigoríficos, a Haier transformou-se no quarto maior fabricante mundial de produtos de marca branca.
Para se ter uma ideia das dimensões espectaculares do crescimento, a empresa facturava 43 mil milhões de yuan em 1994, enquanto no ano passado teve resultados globais de 1220 mil milhões, tendo sido considerada pelo Financial Times como uma das 10 marcas chinesas de impacto global.
A estratégia passou pela diversificação da produção, que deixou de se restringir a frigoríficos. Actualmente a Haier fabrica uma gama de produtos que vai desde os aparelhos de ar condicionado aos telemóveis, passando por computadores, televisões, soluções de domótica, telemóveis e máquinas de filmar, entre muitos outros aparelhos. A marca tornou-se global e tem hoje fábricas em diversos países e centros de investigação em cidades como Los Angeles, Nova Iorque, Milão e Tóquio.

Atmosfera distinta

Diz-se que os habitantes de Qingdao, que falam um dialecto próprio, têm três grandes gostos: beber cerveja, comer marisco e nadar no mar. Podem cultivar essas três preferências nas proximidades da bela passadeira marginal, que começa em Tuandao, a oeste, e termina na Pedra do Velho Homem, numa extensão de quatro quilómetros. Por ali se reconhece claramente a atmosfera única da cidade, numa mistura de arquitectura alemã e chinesa, combinada com os traços coreanos da população local.
As praias, que se estendem ao longo de toda baía de Jiaozhou, são agradáveis e muito frequentadas, embora a temperatura média anual não ultrapasse os 15 graus centígrados. As temperaturas do Mar Amarelo podem não se revelar muito convidativas, mas são muitos aqueles que ali se banham no Verão e os que aproveitam o areal para fazerem piqueniques.
Próximo da costa, vale a pena percorrer as avenidas amplas da cidade, algumas com nomes de cidades chinesas (não falta a rua de Macau), onde abundam os edifícios de arquitectura germânica. Este característico traço foi, tal como o método de produção da cerveja Tsingtao, introduzido pela curta governação alemã. Isto porque Qingdao foi ocupada por tropas alemãs, com o pretexto de assassinato de dois missionários, em Novembro de 1897, num contexto de plena expansão do colonialismo.
A invasão foi legitimada por um acordo estabelecido com os chineses em 1889, mediante o qual o então império alemão ficou concessionário da baía de Jiaozhou por um período de 99 anos. Mas o Japão viria a ocupar o território no início da Primeira Guerra Mundial (até 1919, quando o movimento do 4 de Maio fez regressar a cidade a soberania chinesa, até nova anexação japonesa durante a Segunda Grande Guerra), pondo fim a uma ocupação que foi curta, mas que deixou uma forte marca.
O ex-líbris desse período é a pitoresca residência do governador. Situado no topo de um monte de onde se avista toda a cidade, o palacete foi construído em 1905 e encontra-se transformado em casa-museu. Ali se pode ver algum mobiliário original e fotos do período alemão, assim como o local onde Mao Zedong ficou hospedado entre Julho e Agosto de 1957 e onde, na mesma altura, reuniu o secretariado político do Partido Comunista, com Zhou Enlai, Zhu De, Liu Shaoqi e Deng Xiaoping.
A estação central e a catedral são outros dois edifícios de vulto construídos no período alemão. Esta última é designada por Igreja de São Miguel e abriu as portas em 1934. O imponente templo católico foi concebido pelo arquitecto alemão Papieruch, nos estilos gótico e românico. Foi construído em forma de cruz, com uma fachada pontuada pelas duas torres sineiras, ambas com 60 metros de altura.
Durante a revolução cultural maoísta, a catedral foi seriamente danificada e, depois de anos de obras de reparação, reabriu em 1981, estando actualmente classificada como património histórico da Província de Shandong. Ali acorrem noivos vindos de toda a província e também da Coreia, para realizarem sessões fotográficas e casamentos.
Como cidade turística que é, Qingdao organiza diversos eventos, tais como o Festival dos Oceanos e a Feira de Produtos Electrónicos. Mas a principal festividade do ano é a Festa da Cerveja, que pretende emular a sua congénere de Munique.
A festa começou em 2001, por iniciativa da fábrica da Tsingtao, e realiza-se anualmente no fim de Agosto. Consiste numa mistura de carnaval com festival de música, onde os convivas se podem sentar em mesas compridas, bebendo cerveja e degustando acepipes.
Nos palcos espalhados pelo recinto há sempre bandas a tocar e concursos diversos, garantindo a animação e a interactividade com o público. Há sempre quem, sentado na cadeira do lado, proponha um “ganbei”, um brinde à beleza de Qingdao. E há mesmo quem fique seduzido ao ponto de se casar, segundo nos confessou uma guia turística: “As meninas aqui vivem à beira do mar e crescem altas e esbeltas. É frequente que, depois, se casem com estrangeiros.”

Montanha inspiradora

A poucos quilómetros de Qingdao, a montanha Laoshan acaba por funcionar como pulmão verde da cidade, ideal para caminhadas e cheia de excelentes miradouros. O seu ponto mais alto fica a 1133 metros, fazendo dela a maior elevação costeira ao longo dos 18 mil quilómetros de toda a costa chinesa. Cantada por poetas milenares, é considerada um sítio místico, daí que ali se tenham albergado monges taoístas, alguns deles celebrizados pela sabedoria e habilidades. Muitos dos templos antigos foram destruídos pela acção do tempo ou devido a conflitos, mas o grande templo de Taiqing permanece como um local percorrido por todas as excursões (não se pode aceder ao espaço em carro particular) vindas de Qingdao. Formado por uma plêiade de altares construídos em diferentes alturas, o templo é também conhecido pela beleza dos seus jardins, onde foram plantadas árvores raras, tais como camélias e ciprestes. Subindo o templo vão-se encontrando pequenas cascatas e miradouros belíssimos. Diz-se que a água das nascentes da montanha pode curar doenças. Não admira que o espaço tenha inspirado monges e poetas.

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