Aumentar as sinergias no Delta
Representantes da região do grande Delta reuniram-se em Macau para apresentar um estudo onde são traçadas as linhas mestras que deverão nortear o seu desenvolvimento. A receita passa por mais cooperação, melhores ligações e complementaridade económica. O objectivo é criar “um dos pólos económicos mais avançados do mundo”.
Paulo Barbosa
Responsáveis e estudiosos das questões de planeamento urbano oriundos de Cantão, Macau e Hong Kong juntaram-se na RAEM para pugnarem pela maior coordenação entre as três regiões. As conclusões do relatório do estudo do Plano de Coordenação e do Desenvolvimento da Região do Grande Delta do Rio das Pérolas, ontem apresentado, vão no sentido de promover a eficiência das ligações em termos de meios de transporte, a complementaridade económica, a optimização do espaço e o desenvolvimento sustentável em termos ambientais. Foram estas as linhas de acção prioritárias enunciadas.
Ao longo do dia, os intervenientes foram elogiando, em abstracto, as virtudes da integração regional, sem entrar em grandes pormenores quanto às formas de alcançar essa maior união. “Nos próximos tempos iremos aprofundar as nossas investigações e os pormenores serão conhecidos mais tarde”, resumiu Song Jing, Presidente do Centro de Desenvolvimento e Investigação Urbana do Instituto de Planeamento Urbano e Rural de Guangdong. O argumento viria a ser repetido várias vezes na conferência de imprensa que decorreu paralelamente à apresentação de um estudo que começou a ser feito em 2006 e cujos trabalhos de investigação se prolongaram ao longo de três anos, contando com a colaboração de 31 especialistas em planeamento.
O trabalho foi encomendado à Universidade de Pequim e ao Instituto de Planeamento e Design da Zona Urbana e Suburbana de Guangdong e teve como objectivo fazer a análise aprofundada do plano estratégico desenvolvido em conjunto pelo Departamento Provincial de Habitação e de Construção Urbana e Suburbana da Província de Guangdong, pelos Serviços para o Desenvolvimento da RAEHK e pelo gabinete do Secretário para os Transportes e Obras Públicas da RAEM. Teve como objectivo servir como referência para os Governos e como base da concepção de medidas e políticas urbanísticas, abrangendo Hong Kong, Zhuhai, Macau e Cantão, seguindo as directivas do governo central chinês.
O Grande Delta do Rio das Pérolas é formado por nove cidades, que juntas constituem uma das áreas mais industrializadas e urbanizadas da China. Segundo vários dos palestrantes que ontem estiveram no World Trade Centre, há condições naturais e infra-estruturais para fazer da região “um dos pólos económicos mais avançados do mundo”.
Os autores do estudo defendem que até 2012, o desafio principal da região passa por minimizar os impactos da crise financeira, através do reforço da cooperação regional, da reestruturação industrial. A médio prazo, apenas “uma circulação sem obstruções de cidadãos e mercadorias pelas cidades do delta poderá optimizar a estrutura espacial de toda a área”. Para isso, estão a ser estudados os impactos de medidas como a abertura das fronteiras ao longo das 24 horas do dia e simplificação do processo de fiscalização de mercadorias aquando das passagens fronteiriças, para estimular a circulação de bens e o investimento regional. Francis Fong, o chefe de Gabinete do Secretário para os Transportes e Obras Públicas, referiu que “é preciso permitir mais mobilidade em termos de circulação de meios de transporte”. Quanto à RAEM, Fong comentou que esta “deverá ser um centro de lazer complementar a uma província que serve de entreposto de circulação de bens e pessoas”.
Três eixos
A estratégias de desenvolvimento preconizada passa por três eixos: optimizar a estrutura espacial, a acessibilidade e a qualidade ambiental. Em termos de estrutura espacial, defende-se que a criação de três áreas metropolitanas, nomeadamente as de Cantão-Foshan, Hong Kong-Shenzen e Macau-Zhuhai, assim como três sub-regiões (ver mapa).
A acessibilidade será estimulada tornado mais expedidos os controlos fronteiriços. Na sua apresentação, Li Xun, do Centro de Estudos Urbanos e Regionais da Universidade de Zhongshan, citou números do Banco Mundial para argumentar que “quanto menos fronteiras administrativas existirem, maior será o crescimento económico”. O exemplo que deu para ilustrar a teoria foi a Alemanha pré e pós-unificação.
Outra medida genérica recorrentemente salientada consiste na interligação dos sistemas de transportes, tendo em conta a importância de expandir o comércio com o exterior. Vários intervenientes salientaram o valor estratégico crucial de ligações eficientes entre auto-estradas, portos e aeroportos. Isto num cenário em que, disse James Wong, Secretário Permanente dos Serviços para o Desenvolvimento de Hong Kong, apenas oito por cento do comércio inter-portuário da zona do Delta do Rio das Pérolas é feito com países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), enquanto que para a UE o volume de tráfego marítimo é de 70 por cento. “Podemos vir a ser um porto de entrada para os países membros da ASEAN, até porque precisamos de matérias-primas desses países”, explicou aquele responsável.
Para a intenção de criar uma nova rede de transportes na região muito contribuirá a ponte entre Hong Kong, Macau e Zhuhai, cujas obras de construção deverão começar no fim deste ano. Será mesmo criada uma ilha artificial ao largo de Macau e Zhuhai, que servirá como ponto de entrada do tráfego nas duas regiões.
No campo ambiental, é destacada a necessidade de dar prioridade a políticas ecológicas que garantam a manutenção dos recursos humanos. São delineadas estratégias de cooperação ambiental entre as regiões, com gestão conjunta de matérias como a qualidade do ar e da água. O objectivo principal será proteger os três maiores rios da região e as suas sete principais montanhas.
Lau Si Io e os trabalhos da RAEM
Presente na cerimónia de abertura do evento, Lau Si Io afirmou que “Macau vai aprofundar o resultado do estudo e promover a cooperação entre Guangdong, Hong Kong e Macau, através da articulação das grandes infra-estruturas, aumento da cooperação industrial e inovação das formas de cooperação”. O Secretário para os Transportes e Obras Públicas especificou que estão previstas a “consolidação dos postos fronteiriços, a elevação da eficiência do despacho alfandegário”. Em termos de transportes, o político mencionou a necessidade de “promover a articulação da mega-ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, do sistema de transporte interurbano de carril do delta e da auto estrada Taiyuan-Macau, para além de promover a coordenação e cooperação entre os aeroportos de Macau e de Zhuhai, no sentido de aumentar as sinergias”.
Territórios complementares
O estudo defende que as três áreas metropolitanas sejam complementares relativamente aos restantes. Trata-se, nas palavras de Cai Ying, Director Geral do Departamento de Construção da Província de Guangdong, de fazer com “que cada território se organize e apresentar um plano que seja complementar às três áreas metropolitanas”.
Para Ieong Tou Hong, professor do Instituto Politécnico de Macau e vice-presidente da Associação Económica de Macau, no estudo ficam “definidas claramente as posições estratégicas de todas as regiões, com Cantão mais industrial, Hong Kong mais financeiro e Macau mais turístico”.
O turismo será também a principal actividade da Ilha da Montanha, para onde é recomendada a construção de resorts turísticos, mas também de indústrias de alta tecnologia e da já anunciada construção do novo campus da Universidade de Macau.
