Investidores ponderam exigir fatia da Doca dos Pescadores
É um imbróglio que parece estar longe de terminar. Duas dezenas de investidores apostaram na oferta pública pré-inicial da Macau Legend, do empresário David Chow. A empresa não chegou a ser considerada apta para integrar a bolsa de valores de Hong Kong e os accionistas querem o seu dinheiro de volta. Porém, o acordo parece estar difícil de alcançar. Alguns ponderam exigir uma fatia da Doca dos Pescadores ou do casino Babylon.
O rei de Marrocos, Mohammed VI, faz parte da lista de investidores privados que apostou na ‘amarga’ reestruturação financeira do Macau Legend, propriedade do ex-deputado David Chow, noticiou ontem o South China Morning Post, que cita fontes conhecedoras da situação.
David Ross, um dos co-fundadores da maior revendedora de telefones móveis do Reino Unido, a Carphone Warehouse, é outro dos 20 investidores a título particular que, em conjunto com um grupo de fundos de investimento, compraram uma fatia de 400 milhões de dólares americanos do Macau Legend através do banco Merrill Lynch em 2006.
Os investidores esperavam a obtenção de lucros rápidos quando a Doca dos Pescadores, parcialmente detida pela Macau Legend, passasse a estar cotada na bolsa de valores de Hong Kong. No entanto, refere o matutino em língua inglesa da antiga colónia britânica, a venda de acções, fixada para o início deste ano, não chegou a acontecer.
O grupo de investidores tentou chegar a um acordo com David Chow, que visava uma compensação, mas não conseguiu, acrescenta ainda o SCMP, que explica que homens como o monarca de Marrocos e David Ross estão agora a pensar no próximo passo a dar.
Na semana passada, a maioria dos 26 accionistas preferenciais passou quatro horas numa teleconferência sobre uma futura estratégia, disseram duas fontes do SCMP com conhecimento do conteúdo do acontecimento.
“Está a tornar-se um disparate”, disse uma delas ao jornal. “Alguns investidores querem agir judicialmente [contra Chow], outros dizem que tal é impossível e outros ainda só querem sair de tudo isto o mais rapidamente possível.”
A confusão em torno da reestruturação financeira dura há quase um ano. Em Abril, Chow ofereceu-se para comprar as acções em causa pela quantia de 200 milhões de dólares norte-americanos, mas falhou o prazo determinado para o pagamento, marcado para Junho. No mês passado, fez uma nova oferta aos investidores – de 100 milhões de dólares – que foi recusada.
A perspectiva do rei de Marrocos e de David Ross sobre a matéria é desconhecida, uma vez que não é possível entrar em contacto com nenhum deles, mas o seu envolvimento ilustra o quão longe chegaram os ‘braços’ dos bancos de investimento de Hong Kong em ofertas públicas pré-iniciais de acções de companhias chinesas nos tempos arrebatados de 2006-07.
Muitos bancos venderam aos seus clientes mais ricos acções em companhias privadas da China Continental na expectativa de obtenção de lucros rápidos, quando as empresas cotadas na bolsa de Hong Kong atingissem valores mais elevados.
Negócio encalhado
O negócio da Macau Legend foi bloqueado pela fraco desempenho da Doca dos Pescadores, cujo vulcão artificial, refere o South China Morning Post, é a primeira imagem dos turistas que chegam a Macau de ferry.
A Doca, que é detida em 50 por cento pela Macau Legend e a outra metade por Stanley Ho, tem dado prejuízo desde que abriu em 2005, asseguraram fontes do matutino com conhecimento das finanças da empresa. As empresas devem apresentar lucros durante três anos para que se possam juntar ao mercado bolsista de Hong Kong.
De acordo com fontes conhecedoras das discussões, alguns accionistas preferenciais acreditam ter o direito legal para reivindicar a sua fatia da Macau Legend directamente no parque temático de David Chow. Outros não estão interessados na Doca dos Pescadores, mas querem controlar o casino Babylon, instalado no parque temático. Os investidores acreditam ter direito a uma parte das Docas ou do casino por causa do intricado acordo celebrado com Chow.
E o Merril Lynch?
A saúde de Stanley Ho, que se encontra internado num hospital de Hong Kong desde Agosto passado a recuperar de uma cirurgia ao cérebro, é outra questão que não facilita as negociações. É impossível aos accionistas negociarem a troca do seu investimento por uma parte das Docas ou do Babylon sem o consentimento do magnata, ou do seu ainda desconhecido sucessor. É a SJM Holdings que gere o casino do parque temático.
David Ross já teve complicadas consequências da crise financeira internacional. Despediu-se da Carphone em Dezembro do ano passado depois de ter violado as regras da bolsa de Londres, ao hipotecar a sua fatia na revendedora e em duas outras empresas sem comunicar o facto aos conselhos de administração das sociedades. Ross ganhou alegadamente 2,53 mil milhões nos empréstimos contraídos para viabilizar os seus investimentos imobiliários, que se encontravam em maus lençóis.
Sabe-se menos das finanças particulares do rei Mohammed, mas os lucros operacionais da ONA, o conglomerado marroquino detido pela família real, desceram 8,8 por cento para 1,18 mil milhões de dólares de Hong Kong no primeiro semestre do ano.
A ONA, a Macau Legend e o banco Merrill Lynch não responderam aos e-mails do South China Morning Post, mas fonte próxima de David Chow assegurou que o empresário de Macau não agiu de forma errada, uma vez que não tinha conhecimento de que o Merril tinha feito um acordo com os accionistas preferenciais ainda antes da cotação em bolsa.
“Ele pensava que estava a conquistar parceiros de longo termo que iriam ajudá-lo a desenvolver os seus negócios”, disse a mesma fonte. “Mas o fundo de investimento e os investidores privados achavam que estavam a apostar num negócio de lucros rápidos. Foi um acordo mal preparado.”
