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Reacções de Macau às eleições legislativas portuguesas

September 29, 2009

Os resultados das eleições legislativas de Portugal foram conhecidos já amanhecia em Macau, mas houve quem não tivesse pregado olho enquanto não os votos não foram todos contabilizados. Se à maioria dos residentes portugueses da RAEM o sufrágio despertou apenas o interesse nacional, houve quem tivesse acompanhado a eleição também com adrenalina partidária. PS e PSD têm os seus representantes no território. Rocha Dinis ficou satisfeito. Miguel Bailote não esconde a desilusão.

Isabel Castro

“Estou muito satisfeito. Não é nada que me surpreenda, porque os debates foram esclarecedores sobre quem é o melhor deles todos, a pessoa que realmente tem uma visão para Portugal.” José Rocha Dinis, candidato às eleições do círculo Fora da Europa pelo Partido Socialista, não está preocupado com o facto de José Sócrates ter perdido a maioria absoluta.
Na reacção aos resultados das eleições de domingo passado em Portugal, foram vários os partidos da oposição ao partido no poder que se congratularam com o facto de o próximo Governo não assentar numa maioria partidária, entendendo que tal acabará com a “arrogância” frequentemente atribuída a José Sócrates.
Essa tal “arrogância” do primeiro-ministro português, entende José Rocha Dinis, é algo muito subjectivo e que não se encontra apenas em quem lidera com a maioria. “Viu-se bem ontem. Quando ainda julgava que ia ser a terceira maior força política, Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, já estava com uma arrogância brutal. Sei que a arrogância é uma questão muito subjectiva, mas foi disso que acusaram José Sócrates.”
Para o candidato do PS às legislativas de 2009, o secretário-geral do partido é apenas “teimoso, acha que tem razão nalgumas coisas, e nalgumas coisas tem razão”. Agrada ao representante local do Partido Socialista a forma como Sócrates confrontou o corporativismo em determinadas áreas da estrutura social portuguesa. “Realmente havia certas mordomias que não se compaginam com a vida actual.”
Tanto a oposição à esquerda como à direita têm remetido José Sócrates para a direcção político-partidária oposta à que se encontram. “Então está no centro”, ironiza o também jornalista e director do Jornal Tribuna de Macau. Rocha Dinis entende que o Governo de Sócrates “é um herdeiro muito correcto daquilo que foi sempre o PS”. E o Partido Socialista “nunca foi um partido fechado, mas sim um movimento com várias tendências assumidas”, que, no final, soube fazer a “gestão socialista do capitalismo”, sintetiza o candidato.

O esforço de Portas

Durante a campanha e perante a perspectiva de não conseguir uma vitória absoluta, colocou-se várias vezes a questão da estabilidade governativa do PS. Um tema que adquire uma particular relevância agora que se confirmou o sucesso socialista relativo nas eleições.
Rocha Dinis entende que ainda é prematuro para se falar do que vai acontecer nesse âmbito. “Os resultados ainda nem sequer são oficiais e não sabemos os resultados da emigração”, vincou nas declarações ao PONTO FINAL. “Estou muito esperançado que possa haver, no círculo Fora da Europa, um deputado do Partido Socialista.”
Não obstante a fase do campeonato político em que Portugal se encontra, existem regras que, para o candidato, devem ser respeitadas. “Não há dúvida alguma de que em qualquer situação, mas mais ainda numa situação como esta, não há partidos que lavem as mãos. E quando quiserem lavar as mãos, daqui a uns anos o eleitorado chama-lhes a atenção”, analisa. “Todos os partidos, do PS aos partidos mais pequenos, têm de ter sempre em vista o interesse nacional e não o interesse partidário, que é sempre menor que o nacional.”
Sobre os resultados do sufrágio de domingo passado, José Rocha Dinis destaca ainda a subida do CDS. “Com muito trabalho e ao fim de muitos anos, Paulo Portas conseguiu impor-se como terceira força política. E isto porque apresenta soluções, enquanto alguns partidos fazem campanhas pura e simplesmente destrutivas.”
Está Rocha Dinis a falar do PSD? “Estou também a falar do PC, que não apresenta propostas”, responde, recordando o debate entre José Sócrates e Jerónimo de Sousa, ao qual foi “penoso” assistir. O candidato socialista ressalva que tem “todo o respeito pelo Partido Comunista, pela sua influência e modo como, ao longo de todos estes anos, reagiu à adversidade, controlando e fiscalizando sempre os governos”, mas lamenta o facto de, na sua perspectiva, não apresentar soluções.

A análise profunda do PSD

Miguel Bailote é o vice-presidente da mesa da assembleia do núcleo de Macau do PSD e ontem não teve razões para festejar. Os resultados do partido liderado por Manuela Ferreira Leite ficaram “bastante aquém das expectativas”, admite. “Há que assumir a derrota, dar os parabéns ao PS e analisar os erros que poderão ter sido cometidos na estratégia”, comentou ao PONTO FINAL.
Para Bailote, a votação alcançada pelo PSD desiludiu em duas dimensões: não só não foi o partido mais votado – “era uma expectativa que tínhamos” – como o número de votos e mandatos ficaram bastante aquém da expectativa da meta traçada pelo partido.
Nas análises à derrota do PSD, foram vários os analistas que atribuem o insucesso ao que julgam ser um grau excessivo de criticismo do PSD em relação ao Governo de José Sócrates, durante o período de campanha. À distância que Macau proporciona, concorda Miguel Bailote com esta perspectiva?
“Agora temos de nos concentrar nas eleições autárquicas e só depois é que se poderá fazer uma análise mais profunda do que correu mal”, replica o representante do PSD. “Parece-me que houve mais factores, mas é uma interpretação que pode ser feita”, comenta, acrescentando ser necessário, nesse exercício de análise, olhar igualmente para “a votação surpreendente do CDS e a subida do Bloco de Esquerda”.
Miguel Bailote não deixa, porém, de realçar que “há um voto claro do povo português em não dar a maioria absoluta ao PS”, sublinhando ainda a elevada abstenção. “Se as pessoas não participam, por alguma razão será. Poderá haver um certo desânimo em relação à situação política do país”, afirma.
No que diz respeito às circunstâncias político-partidárias do segundo mandato de José Sócrates enquanto primeiro-ministro, Miguel Bailote recorda que “o PSD já teve um Governo minoritário e correu bem”. Para o representante do Partido Social Democrata, “é uma questão de gestão de equilíbrios e o PSD sempre teve uma postura de oposição responsável. Parece-me que continuará a ter.”

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