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O corpo de novo ao vivo no Armazém do Boi

August 30, 2009

O Armazém do Boi reedita este ano o Festival de Artes de Performance de Macau. São quase sempre intervenções controversas, onde se incluem a auto-flagelação e outras intervenções em torno do corpo destinadas a chocar o público e fazê-lo reflectir. A organização do festival admite porém que o movimento na China tem ganho expressões mais moderadas. No espaço do festival não se esperam, por isso, performances demasiado radicais. O teatro independente de Taiwan estará em destaque no primeiro dia do evento, com a presença do fundador da ‘body art’ taiwanesa, Wang Mo-lin. O segundo dia ainda não tem programa estabelecido, mas deverá contar com a actuação de artistas internacionais e de Macau.

Maria Caetano

O Armazém do Boi volta este ano a organizar o Festival de Arte de Performance de Macau, cuja primeira edição se realizou em 2005 com o intuito de divulgar na RAEM a expressão da arte com um historial maldito e geralmente mal vista entre o público dos espectáculos.
À semelhança de anos anteriores, a terceira edição do festival de dois dias terá na sua maioria performances de ‘body art’ – peças dramáticas ao vivo em que os artistas utilizam o próprio corpo como meio artístico, grande parte das vezes em performances controversas e que têm como objectivo fazer o espectador reflectir.
Em 2005, o público da primeira edição do festival assistiu a uma série de performances em que os artistas se auto-flagelavam com pedaços de vidro quebrado ou com cera quente de velas derretidas. As manifestações desta expressão artística sem precedentes na RAEM terão chocado, e na edição de 2009 a organização do festival admite que o grau de dramatismo das performances já não será tão elevado.
Até porque, os próprios o movimento da ‘body art’ asiática perdeu a intensidade de outrora, após a reputação muito negativa ganha entre a sociedade chinesa.
“Agora as performances não são tão radicais”, admite o director do festival, o artista Ng Fong Chao, que assume o nome de Noah na organização de eventos da associação.
Este ano, revela o director, o primeiro dia do festival, marcado para dia 5 de Setembro, terá um grupo de artistas convidados de Taiwan, membros fundadores do movimento de teatro independente da ilha, conhecido como o “pequeno teatro”.

Taiwan independente

Um dos convidados é Wang Mo-lin, fundador do Body Phase Studio  e também antigo director do Teatro Avant-Garde da Rua Gu Ling, actualmente um dos mais proeminentes críticos teatrais de Taiwan. O artista, percursor da cena alternativa artística de Taiwan, é conhecido pelas suas intervenções controversas e será um dos oradores num seminário que falará sobre a teoria da ‘body art’ de Taiwan. Outro dos oradores do seminário que nesta edição acompanha as performances artísticas é Li Chun-yao, o actual curador do teatro da histórica rua de Gu Ling, em Taipé, que irá falar sobre o desenvolvimento da arte da performance em Taiwan e da gestão do Teatro Avant-Garde da Rua Gu Ling.
A casa de teatro independente foi fundada em 2005, passando a ser o espaço formal do “pequeno teatro” de Taiwan cujo movimento teve no final da década de 80, pouco antes de ser levantada a lei marcial no país com a ascensão do Partido Democrático Progressivo ao poder e do teatro deixar se ser considerado uma manifestação artística subversiva. Até então, as performances dos artistas de Taiwan eram reprimidas com violência pelas autoridades taiwanesas.
Em 1987, o movimento arrancava simbolicamente com uma intervenção em que os artistas de Taiwan se associaram à comunidade de etnia Tao contra a realização de testes nucleares na ilha de Lanyu.
O teatro independente de Taiwan nasceu como movimento de contestação política e sob o signo da violência que perseguia os artistas. Daí, a sua associação desde cedo às expressões mais extremas da arte, como as performances de ‘body art’. Mas o movimento independente acabaria por ser apadrinhado pelas próprias autoridades do país.
Há quatro anos, os fundadores do movimento receberam das mãos do município de Taipé o espaço da Rua de Gu Ling, um antigo edifício colonial japonês, que servia de instalação à policia militar no período de ocupação. Na cerimónia de inauguração do Teatro Avant-Garde de Gu Ling, o grupo de artistas que ficou com a concessão do espaço encenou um casamento tradicional entre o teatro e as autoridades da cidade em que o director da associação, Wang Mo-lin trajava como uma típica noiva chinesa.
Nesse dia, os artistas abriram oficialmente o espaço ao público com uma série de performances inauditas. Uma das artistas do grupo fundador caía rebolando pelas escadas envolta numa carpete, outro dos membros saía à rua e colocava um preservativo perante o olhar espantados dos transeuntes. Sobre eles já não caía carga policial. O movimento estava instalado.
Da história deste movimento será feito relato nos seminários organizados pelo Armazém do Boi, que decorrerão também no primeiro dia do festival.

Arte maldita

Wang Mo-lin, Watan Uma, Chen Yi-ling, Chun Cheng-Shih, Chen Pei-chun e Wu Ching-Chih são os artistas de Taiwan convidados a apresentar performances.
“A maioria são peças de Body Art”, revela Noah. Na intervenção de teatro do corpo, os artistas de Taiwan foram convidados a trabalhar sobre o espaço do Armazém do Boi.
“Antes dos artistas chegarem, receberam algumas fotografias e informação sobre o Armazém para que sintam o espaço quando aqui chegarem”, revela o director do festival. “Os artistas trabalham a partir do sentimento que o espaço lhes transmite”, diz, lembrando o ar estéril e despojado do antigo matadouro de gado que servirá de inspiração às performances, um género dentro das artes performativas que tem na China “uma história curta” mas de muito impacto, lembra Noah.
“A performance tem uma história de cem anos nos países ocidentais. No continente chinês, estabeleceu-se há apenas cerca de vinte anos”, recorda.
No país, os artistas realizaram durante algum tempo trabalhos de contestação política que pretendiam chamar a atenção da população através de intervenções extremamente controversas, e que trouxeram à performance uma conotação muito pejorativa. “Chegaram a comer cadáveres e auto-flagelam-se, sangram. É muito dramático”, descreve Noah, que apesar da censura social reconhece o papel político deste género de expressão.
“A performance encoraja o individualismo, ao invés da mentalidade tradicional, dos padrões comuns. Encoraja o indivíduo a sair do enquadramento tradicional. Para mim, essa é a linha adequada às artes contemporâneas, como na dança e na música, onde o movimento pode surgir em torno do eu. A performance contribui para promover uma sociedade moderna, através de todas as expressões da arte”, defende.
No festival de Macau não haverá também performances tão extremas quanto aquelas que Noah descreve. Em Macau, Taiwan, Hong Kong e no continente chinês atravessa-se um período de prosperidade económica e isso reflecte-se actualmente nas intervenções dos artistas da ‘body art’.
Para o director do festival de Macau, o diluir do extremismo na utilização do corpo na performance chinesa está directamente associado ao aumento do bem-estar social e económico existente no país.
“A economia e a sociedade estão a melhorar e os artistas já não precisam de se expressar de forma tão dramática.
As performances não são tão poderosas quanto antes”, considera.
Além disso, a reacção de censura social a estes movimentos pela sociedade chinesa também levou a que os artistas moderassem as suas performances. “A sociedade chinesa vê de um forma muito negativa a ‘body art’. O movimento foi tão forte que a sociedade passou a encarar a performance como algo de muito negativo”, entende Noah.
Actualmente, diz, “os artistas têm manifestações muito mais suaves. Se a economia cair, os artistas voltarão a  fazer coisas muito poderosas”.

Uma imagem mais positiva

A reacção negativa ao movimento fez também com que hoje as associações e organizações ligadas à ‘body art’ prefiram substituir o termo “performance”, dando-lhe um nome que não tem uma conotação tão negativa. “As pessoas preferem hoje usar o termo ‘live art’ [arte ao vivo] em vez de performance”, revela.
O director do festival entende que o essencial das características de experimentalismo e promoção do individualismo mantiveram-se apesar do novo nome encontrado e das intervenções mais moderadas. “É ainda um trabalho subjectivo, individualista e experimental – diz- mas o nome mudou”.
Para a quarta edição do festival, o Armazém do Boi pondera também alterar também a designação. O evento deixará possivelmente de chamar-se Festival de Arte de Performance de Macau e passará a ser um festival de ‘live art’.
“Dá uma imagem mais positiva dos artistas, porque queremos ter mais artistas de outras áreas a participar no festival”, afirma o director.
Na terceira edição do festival, o Armazém do Boi lançou vários convites a associações e artistas locais para que apresentem também intervenções na segunda parte do festival, que terá uma componente internacional e deverá ocorrer no final do mês de Setembro. O programa e a data para o segundo dia do evento ainda não estão estabelecidos.
“A selecção internacional ainda não está completamente decidida”, diz, devendo ser anunciada em breve. Segundo Noah, deverá contar com a participação de artistas da região, uma vez que o orçamento do festival não permite ir alem do sudeste asiático.
Quanto à selecção de Macau, o programa do festival abre-se a outras expressões para além da ‘body art’. “Queremos convidar também mais artistas de Macau, para alem da performance e da body art. Queremos ter aqui artistas de música experimental e de multimédia. Queremos que eles venham e experimentem participar neste festival”, diz.

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