Skip to content

Netos de Kim Jong-il são escuteiros lusófonos

August 30, 2009

280809

Iam à missa, participavam na Festa da Lusofonia, cantavam música popular do Alentejo. Só nunca celebraram o 10 de Junho. Kim Han-sol e Kim Sol-hei, netos do ditador da Coreia do Norte, estiveram mais de 4 anos nos escuteiros lusófonos de Macau. Quando partiram, levaram com eles os valores do grupo.

Ricardo Pinto

Uma vez escuteiro, sempre escuteiro. Se este lema é para levar à letra, os escuteiros lusófonos de Macau têm ainda entre os seus membros dois netos de Kim Jong-il, o ditador norte-coreano que mantém todos os países da região à beira de um ataque de nervos, com constantes ameaças bélicas e nucleares contra os seus inimigos, sejam eles reais ou imaginários.

Os dois miúdos são filhos de Kim Jong-nam, que por sua vez é o filho mais velho do homem a quem apelidam na Coreia do Norte, oficialmente, “Querido Líder”. O rapaz chama-se Kim Han-sol, tem 14 anos e entrou para os escuteiros lusófonos, como lobito, no ano lectivo de 2003/2004. A irmã, Kim Sol-hei, de 10 anos, ingressou na mesma associação uns meses mais tarde, quando perfez a idade mínima de 6 anos. A sua participação nas actividades dos escuteiros lusófonos de Macau manteve-se sem grandes interrupções até ao ano passado, altura em que deixaram de aparecer, sem que a mãe tivesse informado que iriam ausentar-se.

O afastamento de ambos dos escuteiros lusófonos coincidiu com a publicação na imprensa de Hong Kong e do Japão de notícias detalhadas sobre a vida de Kim Jong-nam em Macau, quando estava ainda por resolver o imbróglio do Banco Delta Ásia. As contas de empresas norte-coreanas neste banco estavam congeladas, a pedido do governo dos Estados Unidos, o que era suficiente para originar todo o tipo de especulações sobre as razões da presença de Kim Jong-nam em Macau. Julga-se que a família terá então preferido resguardar-se da curiosidade dos media, deixando de estar tanto tempo no território e passando mais longas temporadas em Pequim. Recentemente, no entanto, a imprensa regional disse que Kim Han-sol foi visto na Arena do Venetian, com amigos de escolas internacionais de Macau e Hong Kong, a assistir a um concerto do cantor sul-coreano Rain, o que faz supor que a família continue estabelecida em Macau ou, pelo menos, a visitar o território com alguma frequência.

É aqui, com grande regularidade, que a imprensa regional – especialmente a japonesa – consegue descobrir e entrevistar Kim Jong-nam, sobre as questões da sucessão na Coreia do Norte. Mas as últimas informações davam-no na Tailândia, a passar umas férias, provavelmente para fugir à constante perseguição que os jornalistas lhe movem. Alguns jornais garantem que pediu, entretanto, asilo político em Macau e que esteve quase para ser aqui alvo de uma tentativa de homicídio. Kim Jong-nam nega, no entanto, que esteja em conflito com o regime de Pionguiangue e afirma-se mesmo desinteressado da política. Ao que parece, só quer viver a sua vida em paz.

Uma questão de integração

Mas o que fez os filhos de Kim Jong-nam, netos de Kim Jong-il, ingressarem nos escuteiros lusófonos? Segundo pessoas que falavam com a mãe quando lá os levava, foi “a preocupação em proporcionar-lhes um ambiente descontraído, onde pudessem aprender e crescer ao lado de outros miúdos, praticando actividades saudáveis”.

A sugestão terá sido apresentada à mãe, Lee Hye Kyung, por uma amiga inglesa cujo filho frequentava a mesma escola internacional que os netos de Kim Jong-il. “Às vezes chegavam juntas de táxi, mas a maioria das vezes a mãe vinha sozinha com os dois miúdos, de táxi ou de autocarro”, disse ao jornal Ponto Final fonte que não quis identificar-se. Notava-se a preocupação de se comportarem como uma família normal, bem integrada no grupo.

Lee Hye Kyung, que também usa o nome Chang Kil Sun, é uma mulher bela, que fez carreira como bailarina e chegou a representar a Trupe de Artes Performativas de Chosun, a mais prestigiada na Coreia do Norte. Quando levava os filhos aos escuteiros esperava por lá que as actividades terminassem, adoptando sempre uma atitude muito reservada. Raramente se fez acompanhar por outros adultos; nas poucas vezes que o fez, apresentou-os como tios das crianças. Havia quem suspeitasse que fossem guarda-costas, mas isso foi só quando começaram a surgir rumores de que os miúdos pertenceriam à primeira família da Coreia do Norte, depois de se saber da presença habitual de Kim Jong-nam em Macau.

A mãe dos miúdos mantinha uma atitude de vigilância constante em relação à filha, por ser a mais nova. Enquanto esperava por ela, fazia conversa de circunstância com alguns dos outros pais, sobre trivialidades da terra. Nunca lhe ouviram um comentário sobre questões políticas. Tal como os filhos, falava em bom inglês. Embora não ostentasse grandes sinais exteriores de riqueza, apresentava-se sempre elegantemente vestida, embora sem os excessos de luxo denunciados pela imprensa sul-coreana. Os miúdos, que raramente apareciam sem uma consola de jogos ou um gadget que estivesse mais na moda, integraram-se muito bem nos respectivos grupos – ela, lobito, ele já explorador –, revelando óptima comunicação com os colegas. “O rapaz, então, era especialmente extrovertido”, disse-nos um dos encarregados de educação.

Os escuteiros lusófonos tudo fizeram para que a sua integração fosse fácil. “Eram muito bem tratados por todos e tenho a certeza que sofreram uma boa influência desta sua passagem pelos escuteiros”, garante uma fonte do grupo. “Mesmo não sendo católicos, iam à missa porque todos os outros escuteiros iam. Foram daqui com os valores do escutismo bem assimilados”.

Como todos os seus colegas, Kim Han-sol e Kim Sol-hei participaram nas Festas da Lusofonia, onde o rapaz foi visto a cantar ‘As meninas da Ribeira do Sado’, vestido com traje e capote alentejanos. Só não participaram nas cerimónias do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, incluindo o içar da bandeira no Consulado-Geral de Portugal e a romagem à Gruta de Camões, porque 10 de Junho não é feriado em Macau e havia aulas na escola internacional que frequentavam.

Fora isso, apenas não estiveram em todas as outras actividades dos escuteiros lusófonos por se ausentarem frequentemente de Macau. “As ausências mais prolongadas eram quando iam passar férias à Rússia”, onde vivia e acabou por falecer, de doença prolongada, a mãe de Kim Jong-nam, a ex-actriz Sung Hye Rim.

Da última vez, despediram-se como sempre com a indicação de que voltariam em breve. Mas estão ainda por reaparecer, apesar dos seus movimentos em Macau continuarem a ser regularmente noticiados pela imprensa da região. “Deixámos de os ver há mais de um ano”, refere um dos pais.

O que são os escuteiros lusófonos de Macau

Nelson António, coordenador do Grupo de Escuteiros Lusófonos de Macau, não quis comentar a passagem dos netos de Kim Jong-il pelo agrupamento, invocando razões de “respeito pela privacidade” dos seus membros. Mas nem por isso deixou de se referir aos valores do escutismo que os miúdos terão assimilado durante os quatro anos em que fizeram parte do grupo.

“São basicamente os valores da cidadania. O respeito pelos outros. O respeito pela Natureza. A interacção entre os miúdos e entre estes e a Natureza. Actividades ao ar livre – essa é a nossa principal insistência”, explicou. “Para que não fiquem horas a fio em casa, à frente dos computadores”.

As actividades são variadas: acampamentos, raids pela cidade, acções de caridade e aprendizagem de técnicas escutistas, entre outras. Nos dias de mau tempo, reúnem-se na sede do grupo, na vila da Taipa. Aí fazem jogos, criam espírito de grupo e aprendem a ser solidários.

Única associação juvenil portuguesa existente em Macau, diz Nelson António, o Grupo de Escuteiros Lusófonos afirma-se como organização católica, onde o português é o idioma seguido. Mas o facto do grupo ter aberto a porta a membros chineses, britânicos, australianos, timorenses e até norte-coreanos, leva a que boa parte das actividades seja agora conduzida em inglês, uma língua percebida por todos.

O grupo foi formado a 11 de Maio de 1997, começando por contar com cerca de 160 filiados. Depois da transição de poderes para a China, em Dezembro de 99, o número de inscritos começou a baixar gradualmente, até se estabelecer nas actuais nove dezenas, assim distribuídos: 35 lobitos (entre os 6 e os 10 anos), 22 exploradores (10-14), 18 pioneiros (14-17), 2 caminheiros (18-21) e 15 dirigentes (adultos).

Curiosamente, foi aqui em Macau que o escutismo português começou, no ano já distante de 1911, ao que tudo indica por influência da colónia britânica de Hong Kong, já que o movimento escuta havia sido fundado 4 anos antes em Inglaterra, por Lord Robert Baden-Powell. Hoje, há cerca de 28 milhões de escuteiros em todo o mundo.

Depois dos primeiros entusiastas terem regressado a Portugal, o escutismo ficou com uma representação portuguesa irregular em Macau durante décadas, assistindo-se à criação e rápido desaparecimento de vários grupos. Hoje, o Grupo de Escuteiros Lusófonos de Macau está filiado no Corpo Nacional de Escutas, que daqui a dois anos celebra o seu centésimo aniversário.

Dado ter nascido aqui, não é de excluir que o Corpo Nacional de Escutas venha a incluir Macau no seu programa de comemorações.

A CASA DO GIRASSOL

De Kim Jong-nam, mulher e filhos diz-se que estão instalados em Macau há 10 anos, ou seja, praticamente desde que a administração do território mudou de mãos. Mas então onde pára ou onde parava a família?

Segundo a imprensa sul-coreana, Kim Jong-nam estava quase sempre hospedado no Hotel Mandarin Oriental (hoje Grand Lapa), enquanto que a família habitava uma vivenda em Coloane. O jornal Chosun Ilbo, que se publica em Seul, identificava mesmo a moradia, dizendo que ficava numa urbanização de luxo, entre as praias de Hac Sa e Cheoc Van, e que tinha na fachada uma placa com um girassol, que simbolizaria lealdade ao dirigente máximo da Coreia do Norte.

O jornal Ponto Final apurou, no entanto, que essa vivenda, depois de ter pertencido ao Banco da China, é hoje propriedade de um conhecido empresário macaense, que nos garantiu jamais ter arrendado a casa a estes ou quaisquer outros cidadãos da Coreia do Norte. Guardas de segurança da urbanização confirmam esta informação a outros jornais da região.

Segundo o Chosun Ilbo, Kim Jong-nam teria também um apartamento no centro da cidade, habitado pelos seus três guarda-costas, mas que o próprio Kim utilizaria com frequência, depois de passar a noite em casinos ou clubes nocturnos. O filho de Kim Jong-il não é viciado no jogo, admite  a imprensa sul-coreana, mas notícias veiculadas há meia dúzia de anos acusavam-no de tentar passar dólares falsos em casinos da RAEM, acusação que nunca foi provada.

O académico sul-coreano Han Suk-hee, especialista da Universidade de Yonsei nas relações entre a Coreia do Norte e a China, afirmou há umas semanas ao Chosun Ilbo que Kim Jong-nam tem três apartamentos de luxo em Macau e que “quem os conhece, percebe que ele não está interessado em suceder ao seu pai”, alusão a um estilo de vida ocidentalizado não compatível com o rigor ideológico do regime de Pionguiangue.

Um desses apartamentos fica nas imediações do Clube Militar. Era para lá que seguiam, muitas vezes, os filhos de Kim Jong-nam quando acabavam as suas actividades como escuteiros lusófonos. Sempre com a mãe – e sem guarda-costas por perto.

A QUEDA EM DESGRAÇA DE KIM JONG-NAM

Kim Jong-nam era considerado o principal candidato à sucessão do seu pai, até fazer um comentário em finais dos anos 90 a filhos de altos quadros do regime norte-coreano que foi fatal às suas aspirações. O filho mais velho de Kim Jong-il prometeu uma política de abertura para a Coreia do Norte, através da implementação de reformas, quando chegasse a hora de subir ao poder.

O regime não gostou, mesmo sendo o regime liderado pelo pai dele. De resto, estas declarações só confirmavam as suspeitas que a facção dura do Partido dos Trabalhadores alimentava sobre Kim Jong-nam e os seus familiares mais chegados. Uma tia dele, Song Hye-rang, pediu asilo político no Ocidente em 1996, e durante meses especulou-se que a mãe de Kim Jong-nam, Sung Hye Rim, lhe tinha seguido o exemplo. Isso acabou por não se confirmar, mas a segunda mulher de Kim Jong-il acabou por confinar-se a um auto-imposto exílio em Moscovo, onde acabaria por morrer em 2002.

Também não ajudou às aspirações de liderança de Kim Jong-nam o facto de ter sido detido no aeroporto de Narita, em Tóquio, quando tentava entrar no Japão com um passaporte falso da República Dominicana, para visitar a Disneilândia com a mulher e o filho. Na altura foi também acusado de usar um passaporte português falso nas suas viagens pela região e pela Europa, mas essa denúncia nunca foi confirmada.

Mais recentemente, quando se agudizou a tensão entre a Coreia do Norte e os países vizinhos devido aos testes de mísseis balísticos e ensaios nucleares, Kim Jong-nam surpreendeu jornalistas que o ouviram em Macau, ao afirmar que o Japão tinha o direito de se defender, interceptando se necessário fosse os mísseis norte-coreanos, o que contrariava abertamente a tese oficial do regime de Pionguiangue de que isso seria considerado um acto de guerra.

Já este ano, depois de anunciado o apoio de Kim Jong-il ao seu filho mais novo, Kim Jong-un, na corrida à sucessão, a imprensa da região anunciou no curto espaço de semanas que Kim Jong Nam tinha pedido asilo político à China, em Macau, que o regime chinês o mantinha como reserva para o futuro e que agentes secretos de Pyongyang estariam a preparar contra ele uma tentativa de homicídio, a ter lugar no território. Descoberto mais uma vez em Macau pela imprensa japonesa, que se julga receber apoio de serviços secretos da região e dos próprios Estados Unidos para se manter constantemente na sua pista, Kim Jong-nam negou que fosse um homem de Pequim e desmentiu também categoricamente que tivesse desertado. “Estou na China e em Macau como cidadão norte-coreano. O meu exílio da Coreia do Norte jamais acontecerá”, disse então a uma cadeia de televisão japonesa.

Dois anos antes, no entanto, em reportagem publicada no jornal South China Morning Post sobre a vida que levava em Macau praticamente desde o virar do século, Kim Jong-nam terá confessado a amigos norte e sul-coreanos residentes na RAEM – muitos dos quais desconheciam até então estar na presença de um dos filhos de Kim Jong-il – que receava ser vítima de uma purga, por parte da facção política que defende a ascensão ao poder do seu irmão mais novo, Kim Jong-un.

Quanto à alegada tentativa de homicídio, não se conhece ainda qualquer comentário seu sobre a questão. Ao jornal Ponto Final, o ex-jornalista da CNN Mike Chinoy, autor do livro ‘Meltdown: The Inside Story of the North Korean Nuclear Crisis’, disse recentemente não acreditar na existência desse tipo de conspiração, atribuindo-a a “mais uma jogada de desinformação dos serviços secretos sul-coreanos”, que têm longa tradição em manobras de destabilização do regime de Pyongyang.

UMA FAMÍLIA MISTERIOSA

O mínimo detalhe sobre a família de Kim Jong-il e dos seus descendentes é tratado na Coreia do Norte como segredo de Estado. Daí que haja muita informação desencontrada sobre os seus descendentes, a sua vida, as suas ligações e o filhos nascidos dessas ligações. A imprensa sul-coreana socorre-se a maioria das vezes de informações veiculadas para o exterior por dissidentes norte-coreanos para saber quem é quem na primeira família da Coreia do Norte, mas muitas vezes esses dados acabam por ser rectificados depois de confrontados com os de fontes oficiais.

No caso de Kim Jong-nam, a imprensa sul-coreana garante que tem três mulheres –em bom rigor, duas delas concubinas, embora assumam um estatuto idêntico ao de esposa, como é frequente nos países desta região –, com as quais já teve duas filhas e dois filhos.

A primeira mulher é ainda resultado de um romance da juventude. Chama-se Choi Hye Ri e deu-lhe um filho, Dong Hwan. Ambos vivem em Pequim e, aparentemente, é em casa deles que Kim Jong-nam fica quase sempre quando se desloca à capital chinesa.

A segunda mulher, Lee Hye Kyung, é a mãe de Kim Han-sol e Kim Sol-hei, estando todos, presumivelmente, a residir ainda em Macau. Diz o jornal Chosun Ilbo que o rapaz está a receber tratamento a um tumor na tiróide.

A terceira mulher, Myung Ra (nome de família desconhecido), que Kim Jong-nam terá conhecido recentemente, aparentemente mora também em Macau. No entanto, nota o mesmo jornal, por alguma razão a sua filha, Hyun Kyung, está a ser educada pela primeira mulher de Kim Jong-nam, em Pequim.

Para adensar o mistério, outras informações indicam que em Macau poderá estar a viver também uma quarta mulher do próprio Kim Jong-il, e sua antiga secretária particular, chamada Kim Ok. De acordo com notícias publicadas em Seul, a sua vinda para Macau terá sido para evitar o agravamento do conflito que mantinha com Ko Yong-hee, mãe do herdeiro aparente do poder na Coreia do Norte, Kim Jong-un. O motivo do conflito seriam suspeitas de que também ela teria já um filho de Kim Jong-il, o que poderia complicar as contas da sucessão.

À falta de informação segura, a imprensa sul-coreana chegou ainda a noticiar a presença de “uma outra namorada” de Kim Jong-il em Macau, identificada como Chang Kil Sun, que viveria no território com o seu filho, Kim Han-sol. Afinal, reconhece agora essa mesma imprensa, aquele era o nome usado em viagens pela segunda mulher de Kim Jong-nam, Lee Hye Kyung. Ou, como dizem os jornais sul-coreanos, por “uma mulher da família real da Coreia do Norte”.

No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.