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Uma macaense na frente das corridas

August 27, 2009

Diana Rosário é actualmente a única mulher em pista nos campeonatos asiáticos da Fórmula Ford, uma porta de entrada para jovens pilotos nos circuitos de monolugares. A jovem macaense, de 25 anos, tem acumulado vitórias consecutivas ao longo das últimas duas séries da Fórmula Ford Campus, que se correm na China, depois de um ano de estreia em que tinha conseguido apenas a quinta melhor posição. Ainda no passado fim-de-semana voltou a cortar a meta no primeiro posto, no Circuito Internacional de Xangai, numa corrida em que estava acompanhada de cinco outros pilotos de Macau. Começou pelo karting, aos nove anos de idade, onde descobriu a paixão da velocidade. Quer voos mais altos, mas tal como muitos outros pilotos do território encontra dificuldades em suportar os custos do desporto automóvel de competição.

Maria Caetano

Ponto Final – O que significa para si esta vitória em Xangai?
Diana Rosário – Fiquei muito feliz por ganhar esta corrida. A competição foi muito renhida com o Adriano [Espírito Santo] e com os outros pilotos de Macau. Ele tem muita experiência em carros de turismo. Chamo-lhe o nosso mestre. Já corri com ele várias vezes. Mas ele conseguia vencer-me sempre. Foi a primeira vez que o venci.

Este ano, o circuito teve uma grande participação de pilotos macaenses. Isso é importante?
D.R. – Nos anos anteriores, praticamente só havia pilotos chineses. Mas, este ano, tentei chamar mais pilotos de Macau. No ano passado era a única piloto de Macau na série e senti mesmo que estava a lutar sozinha. Este ano foi bastante melhor.

Mas, a maioria destes pilotos não tem a ambição de competir regularmente?
D.R. – Alguns deles limitam-se a fazer uma ou duas corridas, devido ao problema dos patrocínios. Apenas eu e outro piloto de Macau chamado Daniel Amante Gomes corremos a série toda.

Quais as suas ambições enquanto piloto profissional?
D. R. – Comecei no karting com nove anos. Antes, a minha fasquia era muito elevada, mas após alguns anos mudei  de ideias. Tinha fixado objectivos demasiado elevados, como a Fórmula 1, mas cheguei à conclusão que não era possível. Agora estabeleço objectivos que posso alcançar. A minha ambição, actualmente, é passar a um novo nível competindo na Fórmula Renault. Talvez consiga entrar no próximo ano. O carro será diferente. É uma série mais rápida e competitiva. Na Fórmula Ford Campus apenas competimos com pilotos de Hong Kong e talvez um ou dois dos Estados Unidos, mas na Fórmula Renault há pilotos de muitos mais países.

Quais são os principais obstáculos quando se quer ser piloto profissional?
D.R. – Qualquer piloto de Macau lhe dirá que o principal problema são os patrocínios. Por exemplo, a Fórmula Campus é já bastante mais barata do que outras séries, mas passar à Renault exige uma grande soma de dinheiro. É preciso conseguir vários patrocínios.

Quanto é que é preciso investir para entrar nestas competições?
D.R. – Na Fórmula Campus, são necessárias cerca de 200 mil patacas para fazer as quatro corridas. Já na Fórmula Renault, são precisas entre 800 mil a 900 mil patacas.

Não é fácil, portanto. Quantos pilotos de Macau competem habitualmente na Fórmula Renault?
D.R. – Este ano não irá ninguém.

Por causa da questão dos patrocínios?
D.R. – Na verdade, este ano já queria competir na Fórmula Renault porque no ano passado tive já bons resultados na Fórmula Campus. Entreguei uma proposta à Fundação Macau a pedir um certo valor, mas acabei por não receber o patrocínio suficiente e tive de manter-me na Fórmula Campus. Alguns dos pilotos enfrentam a mesma situação e talvez decidam não voltar a correr. Já gastaram muito dinheiro e talvez achem que não vale a pena. Ganharam corridas e querem ser promovidos a um outro nível, mas não conseguem. Como não querem ficar sempre ao mesmo nível, acabam por desistir.

Mas a Diana não está pronta para desistir?
D.R. – Não penso nisso.

Tem uma profissão, para além das corridas?
D.R. – Faço alguns trabalhos em ‘freelance’, porque um piloto em actividade não pode ter um trabalho a tempo inteiro. Faço promoção a carros no continente chinês.

Treina bastante?
D.R. – Em Macau, basicamente faço treino físico. Corro e vou ao ginásio. Às vezes, vou a Zhuhai para praticar. Todas as noites saio para correr. Quanto à prática, depende. No ano passado consegui bons patrocínios, o que me permitiu ir praticar uma a duas vezes por semana. Mas, este ano, apenas consegui praticar nos dois dias antes do início das provas.

Mas, ainda assim ganhou. Acha que por isso será mais fácil conseguir patrocínios?
D.R. – Nem por isso. No ano passado ganhei três das quatro corridas da série. Pensei que seria mais fácil este ano obter patrocínios, mas aconteceu exactamente o contrário.

Fale-me do seu ingresso no desporto automóvel.
D.R. – Comecei pelo karting, aos nove anos. O meu irmão [Júlio Rosário] interessava-se muito pelas corridas e, na altura, o Governo de Macau promovia actividades extra-curriculares no Verão, onde nos inscrevíamos. Apaixonei-me.

O que a fez apaixonar-se pelas corridas?
D.R. – A velocidade, talvez. Sinto-me extremamente realizada quando venço todos aqueles pilotos masculinos. Havia poucas pilotos mulher em Macau. Competíamos com todos eles. Quando se consegue vencê-los é uma sensação indescritível.

O seu irmão também compete?
D.R. – Na última corrida de Xangai, ele também correu. Mas foi a primeira vez dele na Fórmula. Estava a adaptar-se e achou bastante difícil.

Quando começou no karting, já pensava em tornar-se piloto?
D.R. – No início não pensava muito. Mas depois de ter frequentado as actividades de Verão durante três anos, o meu instrutor, Alberto Ferreira Sin, começou a prestar-me atenção. Normalmente não há mulheres-piloto e eu guiava bastante bem, tendo progredido muito durante esses anos. Ele decidiu começar a patrocinar-me no karting. Foi assim que ganhei o desejo de me tornar uma piloto profissional. Foi também ele que me levou para a Fórmula.

Corria com pilotos como o André Couto ou Rodolfo Ávila?
D.R. – Tínhamos todos o mesmo instrutor de karting. Nunca corri com o André Couto, mas com o Rodolfo sim. Na verdade, dei treino ao Rodolfo quando ele começou no karting.

Venceu-o?
D.R. – No karting, sim. Mas nunca em monolugares, porque de facto ele tem tido muito boas oportunidades de correr.

Quando começou, que pilotos é que tinha como modelo a seguir?
D.R. – O Michael Schumacher é o meu ídolo. Dos actuais pilotos da Fórmula 1, direi que é o Kimmi Raikkonen.

O que é que eles têm de especial?
D.R. – São realmente rápidos. Adoro o Schumacher, não só porque ele é extremamente rápido, mas também porque apesar de ter sido campeão mundial sete vezes ele demarca-se pelas boas relações que mantém com os outros pilotos. Além disso, ajuda muitos jovens pilotos. Já o Kimmi, é basicamente por ser rápido.

O que é fundamental para ser um bom piloto desportivo?
D.R. – Naturalmente, é necessário ser-se muito rápido. Mas acho que um bom piloto tem de ser capaz de manter a calma durante a condução, sem ser demasiado agressivo. Alguns pilotos são realmente muito rápidos, como o Juan Pablo Montoya, mas quando correm parece que enlouquecem e nunca conseguem acabar as corridas. Portanto, ser rápido não significa que se é um bom piloto. É preciso ser rápido e conseguir acabar as corridas.

Quando decidiu tornar-se piloto, foi bem aceite pela sua família?
D.R. – O meu pai apoia-me imenso. Já a minha mãe não se manifestou contra, mas não quer ouvir falar no assunto. Tem receio. Ela reza bastante e liga-me todas as noites a perguntar se estou bem.

E outras pessoas manifestavam curiosidade pelo facto de ser uma mulher-piloto em Macau?
D.R. – Quando entrei para a universidade, fiz bastantes novos amigos. Perguntaram-me o que é que habitualmente fazia, e expliquei que passava grande parte do tempo a correr, a praticar e a competir. Ficaram muito interessados em mim e faziam imensas perguntas.

Formou-se em que área?
D.R. – Estudei Psicologia.

Mas não planeava trabalhar nessa área?
D.R. – Não.

Porque é que escolheu Psicologia?
D.R. – Acho que é algo que me ajuda muito nas corridas. A Psicologia ensina-nos algumas técnicas para nos acalmarmos e para estarmos firmes.

Já disse que pretende competir na Fórmula Renault. Onde se vê a longo prazo?
D.R. – Não fiz planos a tão grande prazo. Digo sempre a mim mesma para correr até não poder mais.

Até que idade é que os pilotos se mantêm activos nas competições?
D.R. – O Schumacher correu até aos 38 anos. Há pilotos de Macau que têm mais de 40 anos e ainda correm, embora eu não concorde muito com isso. Penso em mudar para os carros de turismo após os 30 anos. Neste momento, quero mesmo é manter-me nos monolugares.

Nos pilotos de Macau com quem corre, vê hipóteses de que cheguem longe?
D.R. – Neste momento, apenas o Rodolfo tem a hipótese de chegar mais longe. Ele tem essa oportunidade. É bastante jovem. Há outros pilotos que já atingiram uma certa idade e não têm mais margem para progredir. O André Couto está já num nível acima.

Qual  é a sua opinião sobre os pilotos de Macau?
D.R. – Na verdade, sinto que apenas o André Couto, o Rodolfo Ávila e eu queremos mesmo competir e ganhar corridas. A maioria dos pilotos de Macau quer, de alguma forma, ganhar dinheiro dos patrocínios. Alguns fazem muito poucas corridas, apenas uma ou duas corridas a cada ano. Não sei porquê.

E, na perspectiva de uma piloto profissional, o que acha da condução em Macau?
D.R. – Não recomendo. (risos) É muito perigoso. Macau é pequeno e existem imensos carros. Quando conduzo faço-o de forma bastante lenta. Há muitos acidentes. Um amigo meu morreu num acidente por conduzir demasiado rápido. Ele era piloto de carros de turismo. Depois de ter ganho o campeonato de carros de turismo no Grande Prémio, ficou excessivamente confiante e conduziu como um louco na rua. Embateu com o carro e acabou por morrer. Antes do Grande Prémio, ele tinha pedido à minha equipa de karting que o ajudasse a fazer a preparação.

Também trabalha na preparação de pilotos?
D.R. – Actualmente tenho a minha própria equipa de karting. Queremos ajudar os pilotos mais jovens. Eles vêm praticar connosco e pedem-me que os treine ou lhes dê instruções. Pratico também com eles e mostro-lhes como devem conduzir.

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