O amor entre diferentes nacionalidades
Os dados mais recentes dos serviços de Estatística e Censos dão conta de um número crescente de casamentos entre chineses e cidadãos de países do sudeste asiático. Os matrimónios entre portugueses e pessoas de outras origens continuam, porém, a registar-se. O PONTO FINAL foi à procura da realidade pós-transferência de administração.
Luciana Leitão
Ele é português, ela é filipina. Ela é indonésia, ele é português. Ele é francês, ela é chinesa. Ele é português, ela é chinesa. São quatro estórias de vida. São quatro relatos de uniões entre pessoas de diferentes origens, que se formalizaram em Macau. Contam como se adaptaram uns aos outros – a diferentes religiões, hábitos alimentares e formas de pensar. E mais não são do que o espelho de uma terra que vive da interacção entre pessoas de diferentes naturalidades, onde o número de matrimónios multiculturais está a aumentar.
Conheceram-se há cinco anos em Macau. E apaixonaram-se. “Ela estava a cantar no Holyday Inn”, conta o assessor da Assembleia Legislativa, Paulo Cardinal. Passado algum tempo estavam a viver juntos.
Acabado de casar, o jurista conta como este mês resolveram dar o “passo formal” para fazer jus à tradição. E também por tratar-se “do símbolo maior de união entre duas pessoas”, tendo-se ainda em conta o “futuro desenvolvimento da situação dela e da criança que vem a caminho”.
Na cerimónia procurou “seguir, o mais possível, a tradição da mulher” em pequenas coisas. Foi uma cerimónia simples, na conservatória de registo civil, como não poderia deixar de ser. “Nunca poderia ser religiosa. Eu não tenho religião. Ela é cristã, não católica”, nota.
Sendo Deborrah filipina de origem norte-americana, as diferenças culturais que existem entre os dois resumem-se a coisas de pouco significado e “ultrapassáveis”. Pensando no universo da população do sudeste asiático, o assessor acredita que “ as pessoas que estarão mais próximas dos portugueses, por razões históricas e religiosas, são naturais das Filipinas”.
E as diferenças que existem resumem-se a “questões pequenas, de costumes e ligação a amigos”. É o caso, por exemplo, do tipo de relação que Deborrah mantém com a família. “É quase um venerar dos ascendentes, como os pais e avós. Há uma componente mais forte de dever do que de amor filial”, observa.
A comunicação entre Deborrah e Paulo acaba por ser em inglês. Isso não é um problema. A sua mulher está também a ter aulas de português.
Para Paulo Cardinal, o multiculturalismo pode e deve ser encarado como “a descoberta da diferença – de todo um conjunto de situação que são, numa primeira fase, mais atraentes”. Passado algum tempo, o segredo passa por encontrar um ponto de equilíbrio.
E a diferença linguística será uma vantagem para a criança que aí vem a caminho. “Detestaria que a minha mulher não permitisse que o nosso filho falasse português. Se penso assim, o outro lado também tem o direito a querer comunicar directamente com o filho na língua materna”, defende.
Matrimónio não reconhecido na Indonésia
Lia é indonésia, João é português. Sendo ela muçulmana, esta diferença de crenças poderia ser fonte de conflitos. Mas não. “O único impedimento que tivemos foi na Indonésia. O nosso casamento não é reconhecido naquele país, por sermos de diferentes religiões”, afirma João.
Cruzaram-se há um ano e meio e, pouco tempo depois, iniciaram um relacionamento. Cinco meses depois, estavam casados. “Gostávamos muito um do outro”, afirma o funcionário do BNU.
Não tendo encontrado diferenças significativas de comportamento, ambos afirmam que o importante é chegar a um equilíbrio. Vê-se em coisas pequenas. “Por exemplo, gosto de comida mais picante. Ele não”, afirma Lia. De resto, exceptuando carne de porco – por ser muçulmana -, come tudo. Tal como João.
Ela é chefe de culinária. E acaba por usar isso também em casa. “Identifica os sabores e começa a aprender como fazer”, diz o marido. Se alguma coisa mudou? “Deixei de comprar porco”, acrescenta.
Quanto à comunicação, afirma, não é um problema. Falam ambos em inglês, sendo que Lia está, inclusivamente, a aprender português.
E mesmo em relação à filha, João apenas vê vantagens. “Vou falar em português com ela e a Lia em indonésio”, afirma peremptoriamente, explicando que a menina torna-se automaticamente bilingue. Religião? “Não a vou baptizar – a Lia apenas me pediu isso. Depois ela há-de seguir o que quiser”, declara.
A perspectiva chinesa
Há dez anos, Alice Kok ainda estava à descoberta de tudo. Num país que não era o seu, a residente de Macau partiu para França, em busca de algo. Acabou por encontrar mais do que estava à espera: um companheiro de vida. E o homem com quem veio a casar, em Dezembro de 2008, em Macau.
“Tinha 21 anos e conheci o meu marido, um ano depois, em França, enquanto lá estava a estudar”, conta, entusiasmada. Logo no início, ainda na fase da descoberta, estava preocupada em aprender a língua. Mas, mais do que a questão da comunicação, foi um factor cultural que colocou algumas reticências na relação do casal.
Como todas as raparigas chinesas, afirma, “tinha a expectativa de encontrar um homem que tomasse conta de tudo”. Esperava então que “pagasse refeições e a acompanhasse a todo o lado”, mas acabou por se aperceber de que, sendo Yves Sonolet um cidadão francês, não pensava da mesma maneira. E, mais do que pensar, não agia do mesmo modo.
“Ele não queria tomar decisões por mim – pelo contrário, pressionava-me para decidir as coisas que queria fazer, a tomar conta de mim própria mais do que depender dele”, recorda. Foram precisos dois anos até que Alice e Yves se adaptassem um ao outro.
Como uma boa filha pródiga, Alice acabou por regressar há dois anos a Macau, depois de ter passado por França, Tibete e Índia. “Ele juntou-se a mim há um ano e meio”, diz, explicando que agora os papéis inverteram-se. Agora é Yves que se encontra numa terra que não é a sua, longe da família e amigos.
Assim que chegou ao território, Yves procurou “aprender cantonense”, até para poder comunicar com os familiares e amigos de Alice. “Continuamos a falar em francês um com o outro quando estamos sozinhos, mas ele encoraja-me a falar em cantonense”, conta.
Casar em Macau
A viver em regime de união de facto, em Macau resolveram casar-se. “A dada altura, talvez devido ao passar do tempo, decidimos dar esse passo”, diz, acrescentando que regularizar a situação jurídica de Yves também teve algum peso. ”Quero que ele fique aqui e ele quer ficar aqui – se não tivermos uma situação conforme a lei, seria problemático termos de nos preocupar em renovar o visto de três em três meses. Resolvemos a situação de forma a ser mais conveniente para os dois”, assume.
O casamento foi uma cerimónia bastante simples. “Os meus pais estavam a divorciar-se e não insistiram em que organizasse um casamento tradicional chinês. Não queríamos gastar muito dinheiro na cerimónia”, admite Alice, explicando que, se seguissem a tradição, “teriam de convidar centenas de amigos”.
Ora, dadas as circunstâncias que envolviam os pais, Alice e Yves optaram por deslocar-se a uma conservatória para assinar os papéis. Da parte do pai, Alice ainda sentiu alguma relutância em aceitar a decisão da filha mais velha, mas tudo acabou por se resolver. No fim do dia, os amigos organizaram uma espécie de festa para celebrar a oficialização da união. Isto depois de um jantar em família tradicional, em que, como em todos os casamentos chineses, primos, tios e avós “fizeram questão em tirar uma foto connosco”.
No fim das contas, não se ouviu qualquer crítica, da parte daqueles que lhe são mais próximos, por ter fugido à tradição: “Estive fora durante nove anos – casar-me aqui já foi uma surpresa para eles.”
Simples e sem tradição
Queriam ter filhos e decidiram formalizar a união. “Tínhamos amigos em comum e frequentávamos as aulas de folclore”, diz Patrícia Wong em relação ao marido Paulo Costa.
Casados desde 2004, optaram por uma cerimónia discreta. “Depois organizámos um jantar com a família”, acrescenta a professora do ensino primário.
As famílias de ambos aceitaram o matrimónio, sem questionar. “A minha tem uma mentalidade muito aberta. Ensinaram-me sempre a decidir pela minha cabeça”, afirma. O mesmo se aplica à família de Paulo.
Ao longo destes anos, o convívio tem sido pacífico, sem barreiras culturais. “A comunicação não é um problema – conseguimos falar muito bem em inglês; às vezes misturamos palavras em chinês e português”, conta, explicando que ambos procuraram aprender um pouco da língua materna um do outro. Claro que, por vezes, podem ficar perdidos na tradução, mas nada que não se resolva.
Aos filhos procuraram sempre incutir esse mesmo espírito bilingue, sendo que ambas as crianças se expressam em português e chinês.
A religião nunca foi um problema. “Eu vou aos templos, mas também rezo se for preciso. Não tenho uma religião fixa”, confidencia Patrícia. Seja quando for, quando é necessário – por exemplo, por ocasião da celebração do Ano Novo Chinês -, desloca-se aos pagodes. Paulo acompanha-a.
Tramados pela burocracia
Aqui, as opiniões dividem-se. Paulo e João afirmam que a burocracia e o número de documentos que lhes foram exigidos acabaram por atrasar o casamento. Alice, por seu turno, não tem a mesma experiência. Opiniões contraditórias que confluem no mesmo ponto: a papelada foi sempre um entrave, nesta questão das relações multiculturais, antes ou depois do casamento.
Para Paulo Cardinal, organizar a cerimónia civil foi “terrível”. Para que aqui fosse possível proceder ao matrimónio, houve que requerer, nas Filipinas, “uma certidão de nascimento, além de uma certidão de que ela não estava casada”. Foi um processo muito longo, que envolveu “pedidos mais ou menos directos de dinheiro”.
Passaram-se meses até que Paulo Cardinal e Deborrah tivessem nas suas mãos os documentos necessários. “Estava a ver que não casava na data em que queria”, conta o assessor da Assembleia Legislativa.
Também Lia e João perderam mais de dois meses a “tratar de papeis” no Consulado de Portugal em Jacarta. “Não se fazia tradução de português para a língua da Indonésia. Estivemos um mês à espera de um papel para ser traduzido”, vinca João.
Viagens a Portugal
Mais do que a burocracia e os entraves à realização do casamento, Paulo Cardinal destaca outro tipo de obstáculos. “Se daqui a uns meses quiser ir a Portugal, ela não pode ir porque o pedido de visto demora um mês e meio”, diz, explicando que deveria haver um outro tipo de tratamento nestes casos. “Ela não pode ser tratada como simples turista, havendo a desconfiança de que vai a Portugal e mais tarde parte para outro lado qualquer para trabalhar”, afirma, indignado, acrescentando esperar que a sua mulher – como outras mulheres nas mesmas circunstâncias -, tenha “tratamento especial”. Algo que, salienta, devia ser previsto na actual legislacao.
Difícil ser estrangeiro em Macau
Para Alice Kok, não houve problemas de burocracia na altura de realizar o casamento. “Pedimos papéis em Outubro e em Dezembro já estávamos casados”, vinca. Mas a burocracia teve algum peso na decisão de avançar com o matrimónio.
“O pior é ser um estrangeiro em Macau. Fantástico, porque a lei não é clara – antes do casamento, o meu marido já cá estava. Nestes nove meses, teve um visto com duração de três meses. Passado algum tempo, começaram a causar problemas – passou a ter um visto de turista por uma semana. A decisão foi completamente arbitrária”, salienta.
O marido chegou a sentir-se “quase como um clandestino”. Assim que casaram, o caso mudou radicalmente de figura. “Até mesmo antes de obter o BIR – apenas tínhamos o certificado de casamento – queriam dar-lhe o visto da sua preferência”, conta Alice.
Michael Saso lembra casamentos por conveniência
Muitos destes casamentos multiculturais acontecem por “conveniência”. Os motivos? São vários, mas o antropólogo Michael Saso destaca alguns. “Para aqueles que estão a abandonar um país comunista ou um Governo desonesto, de facto, o casamento pode corresponder a uma forma ‘conveniente’ para sair da pobreza. Na realidade, muitos destes matrimónios funcionam bem melhor do que aqueles assentes apenas em amor, já que o amor rapidamente desaparece, enquanto a lealdade e a gratidão perduram”, declara convicto.
E outros motivos se podem elencar. “As mulheres asiáticas pagam a um homem europeu ou americano, obtêm um passaporte ou um cartão azul, optando depois pelo divórcio ou por abandonar o marido”, exemplifica. Além disso, “muitas mulheres jovens da Mongólia que têm um visto de três meses e trabalham em estabelecimentos de diversão nocturna, encontram um homem europeu”. A solução passa por casar e obter a segurança que necessitam.
Compatibilizar culturas diferentes
Em relações multiculturais, podem colocar-se alguns problemas de diferença cultural. “Aconselhamento e cursos em valores culturais comparativos podem ser de grande utilidade”, afirma o antropólogo.
Pensando, por exemplo, o caso de uma relação entre um natural de Macau e um português, a adaptação ao cônjuge poderá ser “mais difícil” para o cidadão chinês. “Os sistema de valores europeu é mais ou menos cego e insensível aos estímulos asiáticos – o uso de espaço e tempo social e o cuidado com os sentimentos sem recorrer a palavras”, explica.
Michael Saso afirma ainda que, no que toca à mulher chinesa, por exemplo, o cônjuge tem de mostrar especial sensibilidade por uma série de comportamentos. “As mulheres chinesas gerem a casa como verdadeiras matriarcas. Sentem-se muito mais próximas das crianças do que o marido. Permitir que ela chore ou fique preocupado é essencial”, declara o antropólogo.
Falando-se em casamentos que envolvem também religiões diferentes, Michael Saso afirma que, por exemplo, “a fé islâmica é muito mais rígida para uma mulher malaia ou indonésia – os filhos têm de ser muçulmanos”. Independentemente das diferenças, verdadeiramente essencial é encontrar um equilíbrio.
O reflexo da imigração
Tem vindo a verificar-se um crescente aumento do número de casamentos entre chineses e cidadãos de países do sudeste asiático. Uma tendência que se vem a afirmar a partir de 1999, deixando para trás os antigos números redondos que davam conta de uma maioria de uniões entre portugueses e chineses, dentro do universo de casamentos multiculturais.
De acordo com os dados dos serviços de Estatística e Censos, em 1999, registaram-se 134 casamentos entre mulheres portuguesas e homens chineses. Quanto aos matrimónios celebrados entre homens portugueses e mulheres chinesas, ascenderam a 266. Num total de 1451 casamentos registados, 79 desses foram celebrados entre mulheres de outras nacionalidades e homens portugueses.
Assim que se deu a transferência de administração, os números envolvendo matrimónios de cidadãos portugueses desceram. Logo no ano seguinte, por exemplo, verificaram-se 57 matrimónios entre mulheres chinesas e homens portugueses. E menos casamentos se registaram entre homens chineses e mulheres portuguesas, verificando-se apenas 28.
Nesse mesmo ano, constatou-se, porém, um fenómeno interessante. Além de ter ocorrido uma diminuição significativa de casamentos entre chineses – dos 402 verificados em 1999 passou-se para 92 -, houve um grande acréscimo no número de celebração de matrimónios entre cidadãos estrangeiros. Assim, dos 18 casamentos registados no ano da transferência passou-se, no ano 2000, a 960 matrimónios.
Em 2001, os casamentos que envolvem portugueses reduziram-se a números quase insignificantes. Assim, registaram-se três matrimónios entre mulheres chineses e homens portugueses. Os números mais significativos, no que toca aos casamentos multiculturais, prendem-se com as uniões celebradas entre chineses e cidadãos de outras nacionalidades que não a portuguesa (do sudeste asiático).
Registaram-se, por exemplo, 23 casamentos entre homens, residentes de Macau, e mulheres de outras nacionalidades, verificando-se ainda mais 23 uniões entre homens da China Continental e estrangeiras do sudeste asiático.
Mais casamentos entre chineses e estrangeiros
Quanto ao número total de casamentos, independentemente da nacionalidade, revelou-se muito superior em 2008 em relação a anos anteriores, ascendendo a 2778. O mesmo não se pode dizer no que diz respeito aos casamentos multiculturais – os números foram ligeiramente superiores.
No universo das uniões multiculturais, verificou-se um maior número de matrimónios entre homens naturais de Macau e mulheres de países do sudeste asiático, ascendendo a 52.
Também em clara rota ascendente, é de destacar que se registaram 46 casamentos entre homens do sudeste asiático e mulheres de Macau – e 41 uniões entre homens do sudeste asiático e mulheres do Continente.
Dados que atestam uma mudança também ao nível da composição demográfica, que teve lugar sobretudo após 1999.

Muitos parabens pelo teu casamento, Paulo!