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Legislativas | A estreia faz a diferença

August 26, 2009

Foram apenas quatro anos, mas o tempo suficiente para se verem grandes alterações. Das eleições de 2005 às do próximo dia 20 há uma diferença enorme – na cidade, na forma como se encara o poder instituído e os problemas do quotidiano. Resta agora saber se as mudanças sociais terão impacto político. Há quem acredite que sim. Mas será sempre uma influência limitada.

Isabel Castro

Já se ouviam reivindicações e os problemas eram visíveis, mas sentia-se muita esperança no futuro. Uma espécie de “yes, we can” colectivo ainda antes da expressão ser inventada e se tornar cliché mundial. Em 2005 Macau acreditava que as suas gentes iriam tomar conta delas próprias e que os casinos prometidos seriam a solução para quase todos os problemas.
O ano de 2006 terminou com a pior história da vida curta da RAEM: a detenção de Ao Man Long acabou com a perspectiva de uma evolução quase perfeita e pôs a nu as imperfeições do sistema. Alguns dos que confiavam cegamente no Governo pai-de-todos deixaram de o fazer. Lentamente, foi-se perdendo algum do alheamento político.
O que aconteceu entre as eleições de 2005 e as legislativas deste ano poderá não bastar para que haja uma tradução exacta da reivindicação a nível social na esfera política propriamente dita, mas deverá ser suficiente para alterar algumas intenções de voto – as necessárias para que se assista a uma ligeira modificação da composição do hemiciclo.
Para esta alteração deverão contribuir ainda os 30 mil eleitores que, pela primeira vez, terão o direito ao voto. “É um factor que tem sempre impacto. São novos eleitores e não sabemos exactamente como é que vão votar”, começa por analisar o politólogo Eric Sautede. “Muitos deles fizeram 18 anos recentemente. Terão mais tendência para desafiar o poder instituído. Os eleitores jovens são, por norma, um desafio grande para as autoridades.”
Mas Macau foge, em muito, à norma. E tratando-se de uma sociedade que, no que à politica diz respeito, apresenta fortes contornos de conservadorismo, as regras têm de ser aplicadas com prudência. “Em Macau, a tendência de voto desta camada mais jovem é imprevisível. Como em todas as sociedades tradicionais, há também eleitores jovens que seguem os conselhos familiares e as tendências de voto dos pais”, ressalva o professor do Instituto Inter-Universitário.
Ainda assim, avaliando pelos jovens com quem convive, Sautede acredita que os novos eleitores serão sinónimo de um “desafio maior” para o poder instituído.
Há ainda a ter em consideração que é entre aqueles que exercem o direito ao voto pela primeira vez que se encontra a taxa mais elevada de afluência às urnas. Os estudos feitos apontam para que entre 70 a 75 por cento dos recém-recenseados compareça nas mesas de voto no próximo dia 20.
O politólogo faz as contas para concluir que, se deste grupo resultarem 20 mil votos, haverá “um grande impacto no resultado final”, atendendo a que outras estimativas indicam que serão necessários cerca de oito mil votos para eleger um candidato.

Redistribuição de votos

Apesar do grau de conservadorismo de Macau, Eilo Yu, docente da Universidade de Macau, acredita que os novos eleitores “poderão dar uma nova força à ala democrata”. Sautede tem idêntica opinião e acrescenta que serão estes novos eleitores – incluindo os recentemente recenseados e aqueles que nunca votaram e que, acredita-se, irão às urnas este ano pela primeira vez – que poderão dar um novo fôlego ao chamado sector democrata da política de Macau.
Tanto Eilo Yu como Eric Sautede salientam, desde o primeiro minuto das declarações ao PONTO FINAL, que previsões a esta altura do campeonato não passam disso mesmo. São hipóteses traçadas por quem estuda a política local mas que, dadas as alterações dos últimos anos no contexto sócio-político e na composição da população recenseada, poderão ser desmentidas quando chegar o momento de contar os votos.
Para Sautede, Agnes Lam poderá sair beneficiada deste novo contexto ao nível do eleitorado, ao conseguir reunir o apoio de jovens estudantes e licenciados. “Pode ser uma alternativa para quem partilha ideais democratas”, analisa. Mas tal não significa obrigatoriamente que a entrada em cena da cabeça-de-lista da “Observatório Cívico” prejudique a dupla Ng Kuok Cheong/ Au Kam San. Poder-se-á, isso sim, assistir a uma redistribuição de votos.
O politólogo do Inter-Universitário sustenta a sua tese com os resultados eleitorais de 2005, estabelecendo uma relação entre a bancada democrata e a vitória inaugural de José Pereira Coutinho.
O presidente da Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) está ideologicamente mais perto de Ng e Au do que da ala conservadora, constata Eric Sautede, para mostrar que a sua candidatura não prejudicou os objectivos dos deputados da Associação Novo Macau Democrático (ANDM), os grandes vencedores das eleições de 2005. Por isso, acredita que “será mais uma redistribuição dos eleitores pelas diferentes listas e candidatos”.
Os estudos feitos apontam para que, em termos gerais, haja uma afluência às urnas de 65 por cento, o que significa um aumento de 10 por cento comparativamente com o acto eleitoral de há quatro anos. “E isto significa muita gente a votar.” É com esta perspectiva em mente que se traça o cenário que se segue.

Agnes, a novidade

Tanto Eilo Yu como Eric Sautede elegem Agnes Lam como a grande novidade deste ano. Dos novos cabeças-de-lista, a professora da Universidade de Macau e analista política do Ou Mun e da TDM (com todas as suas funções suspensas até ao final das eleições) é a que entra na corrida com melhores condições de chegar à meta.
Eilo Yu não considera que a eleição de Lam esteja garantida, com Eric Sautede a afirmar o mesmo. Mas tem hipóteses, observam ambos, porque em caso contrário nem sequer teria tentado. “Candidata-se para ganhar, e isso é algo que tem demonstrado durante este Verão”, nota o politólogo do Inter-Universitário.
Em Macau, a pré-campanha é conceito que não existe no dicionário de termos políticos, o que condiciona em muito a vida de quem se candidata. Porém – e sem ilusões – é óbvio que todos os que estão interessados num assento na Assembleia Legislativa fazem o que podem, dentro dos limites algo sombrios da lei, para ganharem visibilidade antes dos 15 dias que a legislação dá para convencer o eleitorado. Agnes Lam não foge à regra.
Os analistas chamam a atenção para o quão “agressiva” a líder da “Observatório Cívico” tem sido desde que se assumiu como candidata: Lam tem vindo a público, via You Tube, pronunciar-se sobre temas da actualidade, demonstrando qual a sua posição em assuntos específicos. Aposta na classe média que acredita nos valores da democracia mas que não se revê na abordagem dos democratas Ng e Au.
“Tem boas hipóteses, será por uma margem pequena, mas tem”, perspectiva Sautede. Eilo Yu está particularmente atento ao impacto da Internet nestas eleições – “é um dos novos fenómenos a observar” – e Agnes Lam é um ‘case study’ perfeito. “Sendo professora de Comunicação, sabe como ninguém a importância de uma mensagem bem transmitida”, afirma.
E o que diz a candidata, depois de algumas semanas de trabalho e de análise às suas próprias possibilidades? “Estou confiante”, vinca, dizendo esperar os votos dos sectores cultural e académico, com muitos jovens à mistura. Mas para Lam, o fenómeno dos novos eleitores causa a maior incerteza deste acto eleitoral. “Não há estudos específicos em Macau sobre a tendência de voto dos mais novos. Mas estou confiante.”
Num ano em que a política virtual será colocada à prova – em 2005 a Internet era uma arma ainda distante no combate eleitoral – a lista de Agnes Lam poderá ser uma das mais activas neste plano. “Vamos dar o nosso melhor para sermos criativos”, antecipando, desde já, que a campanha será sobretudo na Internet. “Até porque é mais barata”, diz a candidata que, ao jeito americano, já angariou dinheiro dos eleitores para a sua campanha através de jantares.

2+2=4?

Au Kam San e Ng Kuok Cheong são craques em política pela Internet e em vitórias eleitorais. Eilo Yu salienta que o site da Associação Novo Macau Democrático é melhor do que o de alguns partidos políticos fortes de Hong Kong.
Jason Chao, número dois da lista de Au Kam San, prefere não eleger um meio como sendo o principal da campanha, que se fará através da Internet mas também com o contacto pessoal. Em 2005, gastando uma verba mínima, Ng Kuok Cheong e Au Kam San percorreram as ruas de Macau e entregaram a todos aqueles que encontraram o seu programa eleitoral – muitos quilómetros a pé e um suor político que se revelou extremamente recompensador.
Os 23.472 votos que a ANDM arrecadou não serviram para eleger o 3º deputado da bancada, dada a matemática complicada da contagem dos votos e a fuga ao método de Hont. Por isso, decidiram este ano concorrer com duas listas separadas: Chao está ao lado de Au; já Ng Kuok Cheong pretende levar consigo para a Assembleia o presidente da associação, Paul Chan Wai Chi.
“O nosso objectivo é eleger quatro deputados”, não esconde o jovem Jason Chao. O candidato assegura que não vão dar indicações aos eleitores sobre em que lista votar. Ou seja, corre-se o risco de Ng ter votos em excesso e faltar a Au os necessários. “Os apoiantes votarão em quem quiserem, no seu cabeça-de-lista preferido. É um risco, mas seguimos os nossos princípios, achamos que estar a dizer aos eleitores em quem devem votar não é correcto”, remata.
Eric Sautede acredita que a Associação Novo Macau Democrático e a Próspero Macau serão capazes de, no total, garantir três assentos, graças precisamente a esta divisão de esforços por listas.
“Têm os meios para isso e têm estado a fazer uma campanha muito mais agressiva do que em 2001. Os assuntos também são diferentes; há uma série de novas questões sociais.” Ng e Au são os que mais se têm batido por matérias como a habitação social, uma luta que poderá ser rentável em termos de votos.
“Com a nova Macau, a cidade do desenvolvimento económico que, em 2005, ainda não se sentia, temos agora questões como a distribuição de riqueza, se andamos depressa de mais ou não”, nota o politólogo. Ng e Au, pela experiência que têm e o eleitorado fiel, são os que “se encontram mais bem posicionados” para transmitir as reivindicações da RAEM pós-2005.

Democrata à margem

Paul Pun vem também da ala democrata e, tal como Ng Kuok Cheong e Paul Chan Wai Chi, é um leigo católico. Eilo Yu julga que o secretário-geral da Caritas terá um resultado eleitoral mais favorável do que em 2005 – ano em que conseguiu menos de metade dos votos para garantir a eleição. Já Eric Sautede afasta-se dessa visão.
“Terá menos hipóteses do que da última vez. Há pessoas da mesma ala que são mais agressivas. Os católicos leigos tendem a votar noutras pessoas”, considera. Não que Paul Pun não mereça o respeito do eleitorado – mas no momento de votar, o carimbo será colocado no espaço de listas com maior capacidade de reivindicação.
Paul Pun prefere não fazer previsões acerca do número de votos que conseguirá. “Tudo depende da situação, do número de eleitores.” O candidato garante que se trata de algo “insignificante” para o seu percurso, porque fica de consciência descansada em relação ao eleitorado pelo trabalho que desenvolve. “Todos os votos contam”, defende. Mesmo que não bastem para garantir a sua eleição.
Quanto à campanha eleitoral, a estratégia sofreu uma alteração. “Por norma, tínhamos um alvo. Desta vez não o especificámos. Estamos a trabalhar para todas as pessoas, todas aquelas que não se sentem representadas.”

Rita Santos talvez

A democracia tem sido, nos últimos tempos, a nova bandeira de José Pereira Coutinho. O presidente da ATFPM não deverá ter dificuldades em ser reeleito – em 2005, ano da sua estreia enquanto candidato, arrecadou 9973 votos, pelo que a eleição do número dois da lista esteve por pouco.
Com um universo eleitoral maior, a grande dúvida está na capacidade de transformar Rita Santos em deputada. “Pereira Coutinho tem uma plataforma forte entre os seus membros”, diz Sautede, a quem não espantaria que o líder da “Nova Esperança” reunisse entre 10 mil a 12 mil votos sem grandes dificuldades.
“Terá de ter mais 4 mil ou 5 mil votos para eleger Rita Santos. Ele tem sido muito activo na Assembleia e agressivo na campanha. Neste momento, é um político conhecido em Macau. Não me parece que Rita Santos concordasse em concorrer na lista dele se não visse que há uma boa hipótese de conseguir ser eleita.”
Pereira Coutinho diz estar confiante mas não esconde a carga de desafio que as eleições de 2009 implicam. “O problema é que temos muito trabalho pela frente e o tempo não chega para transmitir a mensagem de que os eleitores podem confiar na Nova Esperança”, desabafa. “O voto útil é extremamente importante”, sublinha, utilizando o argumento de que “é preciso votar em quem já deu provas no passado”.
E a campanha eleitoral? Qual o trunfo da “Nova Esperança”? Coutinho não revela, prefere uma resposta mais abrangente. “A aposta está nos 260 mil eleitores – trabalhar para todos e estar com todos eles.” O candidato promete “andar na rua para falar com as pessoas”.

Cadeiras vagas, cadeiras cheias

Eric Sautede imagina que a Assembleia possa ter, a partir do dia 16 de Outubro próximo, seis pró-democratas, se o novo eleitorado seguir uma tendência de voto pouco convencional. Mas para que a ANDM tenha mais um deputado, Agnes Lam entre no hemiciclo e Rita Santos também, serão necessárias alterações ao nível da representação de outras forças políticas.
As listas dos Kaifong e dos Operários, de índole tradicional, poderão ser as mais prejudicadas na nova conjuntura política de Macau. Já em 2005 os Moradores não tiveram a tarefa fácil, comparativamente com o conforto de outras eleições. O mesmo se aplica aos Operários. O politólogo entende que será difícil aos Kaifong eleger dois deputados. Em 2005, a União para o Progresso não foi além dos 11.985, o que significa que, pela contas deste ano, só conseguirá assegurar um parlamentar.
Deverá ainda haver um lugar vago deixado por David Chow – os observadores não acreditam que Melinda Chan, a mulher do deputado e empresário, consiga os tais oito mil votos que se julga serem necessários para a eleição do cabeça-de-lista.
Já as duas listas com fortes ligações ao jogo – a de Angela Leong e a de Chan Meng Kam não terão problemas em manter o actual estatuto legislativo, analisa Eilo Yu. “Chan Meng Kam não deixará cair o segundo deputado, são muito agressivos”, refere Sautede, recordando que, há quatro anos, a Associação do Cidadãos Unidos de Macau ficou em número dois da classificação geral, com 20.695 votos.
Menos sorte deverá ter Casimiro Pinto, o cabeça-de-lista da “Voz Plural”. O tradutor-intérprete e cantor admite que a candidatura apareceu a pouco tempo das eleições, mas realça que o grupo está “a trabalhar o máximo possível. O feedback tem sido positivo”. Eilo Yu e Eric Sautede olham para a candidatura como pertencendo ao grupo das que têm poucas oportunidades de acabarem o processo de forma vitoriosa.
Mas Casimiro Pinto tem outro entendimento. E pensa já no futuro, “nos trabalhos que podem ser desenvolvidos depois das eleições. Os jovens dizem que há falta de plataformas e de saídas, de opções. Estamos a trabalhar com muita força.” O candidato sabe que este ano é uma luta difícil”, pelo que não arrisca previsões: “O cálculo de votos é difícil”.

Conclusões possíveis

Para Eric Sautede, será importante perceber até que ponto o facto de a eleição para o Chefe do Executivo ter sido o cumprimento de uma formalidade poderá despertar a motivação dos eleitores para a ida às urnas, uma vez que “estas serão as verdadeiras eleições” de 2009.
O politólogo entende ser interessante analisar também até que ponto os novos factores – inexistentes em 2005 – se irão reflectir em termos de composição da Assembleia. E depois será pertinente ainda ver se os eleitores ficaram satisfeitos com o resultado, se valeu a pena ir votar – se isso não acontecer, Sautede estará atento à eventual mobilização em torno do associativismo.
O docente do Inter-Universitário considera que estas eleições são uma boa hipótese para “canalizar a infelicidade social” que se tem vindo a sentir. “Se houver bastantes democratas eleitos, isso irá contribuir para aliviar uma data de problemas que se passam na sociedade, pois quem está descontente terá os seus representantes na Assembleia”, explica.
Já Eilo Yu vai tentar perceber até que ponto a corrupção eleitoral diminuirá com a entrada em vigor de disposições legais inexistentes há quatro anos e com o fim do cartão de eleitor. Na perspectiva do professor da Universidade de Macau, importa ainda perceber qual a dimensão da Internet na campanha e captação de votos.

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