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Viagem pelo inacreditável mundo do sono

August 19, 2009

Chama-se Bernd Hagemann e anda sempre com a máquina fotográfica atrás. Há uns anos, apaixonou-se pela China. Decidiu começar a recolher imagens de um hábito muito próprio dos chineses: as sestas que se tiram em qualquer lado, a qualquer hora, em qualquer posição. O site do alemão tornou-se um sucesso e o South China Morning Post decidiu contar a história.

Há uma família inteira a dormir na berma de um passeio. Um homem de cabeça para baixo faz a sesta sentado num banco de dimensões reduzidas. Um tijolo só serve de suporte a um sono no meio da rua. Num quiosque de jornais, uma cabeça tombada dorme profundamente.
No site de Bernd Hagemann há sonos para todos os gostos. Todas as fotos foram tiradas na China e têm a particularidade de mostrarem pessoas a dormir em posições pouco convencionais – há quem consiga fazer a sesta em cima de um carro de transporte de malas de um aeroporto e há quem não tenha pesadelos por estar a dormir no asfalto, debaixo de um camião.
“É raro ver pessoas a dormir em espaços públicos na Europa ou na América. A princípio, chocava-me ver pessoas a dormir em qualquer parte e o facto de ser bem aceite socialmente”, explica Hagemann, de 41 anos, citado pelo South China Morning Post.
“Não há qualquer problema em dormir num sofá numa loja de mobílias na China. Na minha cidade natal, em menos de dois minutos o dorminhoco seria expulso pelo segurança da loja”, observa o fotógrafo amador alemão.
As discrepâncias culturais que encontrou quando chegou à China em 2002, na qualidade de responsável pelo departamento financeiro de uma fábrica de equipamentos de limpeza, fizeram com que Hagemann se virasse para a fotografia como “um meio de visualizar as diferenças”.
“Tudo me parecia diferente na China – a forma como as pessoas pensam, o tipo de tradições e de hábitos que têm”, diz.
Há dois anos, Hagemann decidiu reunir as dezenas de imagens que tem de chineses a dormir e publicou-as num site – sleepingchinese.com – que se tornou um sucesso: recebeu mais de 1,3 milhões de visitas e atraiu a atenção dos órgãos de comunicação social de todo o mundo.
O site não passou despercebido à editora independente de Hong Kong Blacksmith Books, que vai lançar para o mercado um livrinho (do tamanho de um cartão postal) no próximo mês, chamado “Sleeping Chinese”.

As diferenças atraem

Hagemann diz que sempre se sentiu atraído por aquilo que julga ser invulgar nos países por onde passou. “Tenho amigos que vão dez vezes seguidas de férias para o mesmo sítio. Jamais conseguiria fazer isso. Estar duas semanas no mesmo hotel aborrece-me. Prefiro descobrir novos países e perceber as suas culturas.”
A ideia do projecto “Sleeping Chinese” surgiu depois de se ter mudado para Xangai, em 2003. A maioria das fotografias foi tirada durante os seis anos que passou na cidade.
“Mais do que as atracções turísticas e os centros comerciais, tento explorar locais onde por norma os estrangeiros não vão. Encaro isso como uma aventura”, conta.
Hagemann passou muitos fins-de-semana a andar de bicicleta à procura de imagens pouco convencionais – “Os bairros antigos de Xangai são fascinantes” – e tirou fotografias nas suas viagens pelo país.
“Por norma, as pessoas olhavam com curiosidade para o que estava a fazer. Às vezes até acordavam os amigos. Mas, em termos gerais, sempre foram simpáticas comigo, nunca se zangaram.”
Entre as suas fotografias favoritas está uma tirada durante uma viagem a Ningbo, na província de Zhejiang. “Estava um dia quente e húmido. Eu ia a andar durante a hora do almoço e vi um camião a parar. O condutor saiu, tirou uma rede, atou-a debaixo do camião e adormeceu”, relata.
As imagens que Hagemann recolheu resultam também do grau de familiaridade que criou com o objecto do seu projecto. “Se passearmos em Xangai durante a hora do almoço, especialmente na zona antiga da cidade, é fácil encontrar este tipo de situações. Nunca vi nada do género em qualquer outra parte do mundo.”

Categorias de dorminhocos

As fotografias estão organizadas por categorias: os dorminhocos de grupo, e os “soft” e os “hard”, consoante o tipo de “cama” que escolhem para a sesta. Na categoria “hard” encontram-se pessoas a dormir em posições aparentemente inconciliáveis com o sono.
Entre as fotografias de grupo mais curiosas encontra-se a de dois homens a dormir num baloiço, num parque. Com o mesmo tipo de constituição física, mantêm o equilíbrio do “colchão”, um sentado de cada lado da estrutura.
“Gosto de descobrir posições engraçadas de pessoas a dormir. Parecem perfeitamente confortáveis. Teria uma dor de costas enorme se dormisse em cima de tijolos; se adormecesse em cima de vegetais ou encostasse a cabeça no balcão do talho, ao pé de carne crua, o resultado não seria melhor”, ironiza. “Preciso do meu colchão, da minha almofada e de um ambiente limpo e sossegado para poder dormir bem.”
À medida que a colecção do fotógrafo amador foi crescendo, as imagens tornaram-se assunto de conversa entre os seus amigos. Um deles ofereceu-se para criar o site.
Dois meses depois de Hagemann ter disponibilizado as suas fotografias on-line, um jornal da sua terra natal escreveu sobre o assunto. Pouco tempo depois, as suas imagens eram tema de reportagens da televisão alemã e de publicações de Roma a Londres.

Uma outra China

Porque a sua actividade profissional “não tem o mínimo de criatividade”, bem como a sua formação académica, Hagemann ficou surpreendido com a sua popularidade enquanto fotógrafo. “Nunca pensei que isto fosse acontecer. A Internet é, sem dúvida, um meio influente.”
Mas o fotógrafo amador espera que as suas imagens criem uma perspectiva diferente da forma estereotipada com que, por norma, se olha para a China. “Existe sempre um tom estranho na forma como os media estrangeiros fazem a cobertura da China – é o dragão adormecido que, quando acordar, irá destruir as empresas europeias”, diz. “Mas a realidade é diferente. Os chineses não trabalham 24 horas por dia, também têm uma vida. Dormir em público faz parte da cultura chinesa. E embora as cidades tenham mudado rapidamente, as pessoas continuam a precisar das suas sestas”, constata.
Depois de sete anos a viver no Continente, Hagemann mudou de país no final do ano passado. A empresa onde trabalha transferiu-o para Buenos Aires, cidade onde não pretende desenvolver qualquer projecto fotográfico.
No entanto, o seu site continuará a ser actualizado, uma vez que neste momento estão publicadas apenas 150 das quase 800 imagens da sua colecção. Além disso, tem vindo a receber fotografias de chineses a dormir e planeia colocá-las numa galeria on-line especial.

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