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“Há uma mudança social em aceleração”

July 31, 2009

O antropólogo Jean Berlie fala amanhã no Albergue da Santa Casa da Misericórdia sobre as transformações ocorridas nas comunidades chinesa e macaense de Macau. Diz que estes dois grupos, determinantes na estrutura identitária do território, estão cada vez mais chineses, mas rejeita falar de um processo de sinização. Há, sim, uma mudança social em aceleração, na qual o mandarim ganhou maior importância e em que a comunidade macaense – mantendo uma importância simbólica – tem uma reduzida influência social. O grupo percursor da “globalização” perdeu o poder para transformar Macau.

Maria Caetano

Identidade, sociedade e mudança são os conceitos principais que organizam a palestra do antropólogo Jean Berlie, que amanhã fala no Albergue da Santa Casa da Misericórdia a partir das 15h sobre as comunidades chinesa e macaense de Macau.
Investigador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Hong Kong, Berlie viveu no território entre os anos de 1995 e 2000, desenvolvendo pesquisas em torno destas duas comunidades locais.
Em 1999, ano do estabelecimento da RAEM, o investigador francês publicou “Macau 2000” pela Oxford University Press, onde fazia, em conjunto com outros investigadores, o retrato social e económico do território em mudança. Hoje, acha Berlie, essa mudança é cada vez mais acelerada e reflecte-se na vivência destas duas comunidades, que considera fundamentais para perceber uma identidade local.
“Esta conferência concentra-se nestas que são as comunidades principais para a identidade de Macau: os chineses de Macau e os macaenses”, revela, embora reconheça que a RAEM de hoje é um território ainda mais multiétnico, com um mosaico que abrange também comunidades como a filipina, birmanesa ou tailandesa.
Amanhã, o investigador francês fala sobre as transformações operadas no seio da comunidades chinesa de Macau: uma comunidade multifacetada onde cabem os descendentes de migrantes oriundos de vários locais de Guangdong, de Fujian e até Timor, pertencentes a várias etnias diversas, como os “tanka”, “hakka” ou “han”.
“São muito importantes porque estão aqui há muito tempo”, lembra o antropólogo. “São tipicamente chineses de Macau”.

A 56ª minoria étnica

Já os macaenses, diz, continuam a ter um papel importante, mas esse papel “é simbólico”, sobretudo porque, segundo os dados do investigador, a população macaense rondará um milhar de pessoas, contra 13 mil contabilizadas em 1989.
Jean Berlie assinala também alguns sinais de mudança. “Um macaense perguntou-me ontem porque é que os macaenses não podem ser a 56ª minoria étnica chinesa. É uma ideia de um macaense que é interessante. Do ponto de vista da China, diz-se que as minorias dependem dos ‘han’ e estes das minorias para que haja unidade no país”, conta, lembrando que “oficialmente não podem entrar porque o número de 55 não pode mudar. É um número que não é flexível”, de acordo com antropólogo. “Não há esperança de que possam entrar nesta categoria de minoria da República Popular da China. Têm de esperar cinquenta anos para regressar completamente.”
Para Berlie, nesta comunidade “há mudança em aceleração”, embora não se possa falar de um processo de sinização da população de Macau, defende.
Uma das principais alterações que o investigador nota é a de uma cada vez maior importância do mandarim. “Por exemplo, vejo hoje que a hora mais importante do horário televisivo, entre as 19h40 e as 20h, é preenchida com programação em mandarim. Depois passa a cantonês. É um indicador de que o mandarim é cada vez mais importante em Macau. É um símbolo da mudança”.
“O mandarim é mais importante em Macau do que em Hong Kong. Porque a percentagem de chineses que vem do continente é maior do que em Hong Kong”, assinala também.
De acordo com Jean Berlie, os macaenses de hoje “são mais chineses que antes”, e novamente o antropólogo oferece exemplos: “Não são poucos os macaenses que se casam com chineses. Se casam, é seguro que vão à igreja porque os macaenses são católicos. Mas se casam com uma chinesa há uma divisão do casamento: uma parte portuguesa ou macaense, e outra parte chinesa. Por isso, nas famílias ricas os casamentos duram dois dias: um dia macaense, o outro dia chinês”.

Identidade mais fácil na diáspora

Um do conceitos que atravessará também a conferência de Jean Berlie amanhã é o de globalização. “Macau é um dos primeiros locais da globalização, embora não existisse a palavra no século XVI”, lembra o francês, para quem “entre chineses de Macau e macaenses, o grupo que anda mais em direcção da globalização são os macaenses”. “Estão em todo o lado: no Brasil, Portugal, África, Austrália”, enumera.
É na diáspora, onde se contarão entre 70 mil a 80 mil macaenses, que é também mais facilmente preservável a identidade da comunidade. Para o antropólogo, em Macau, e enquanto comunidade minoritária, os macaenses continuam a ser um grupo importante, mas já pouco influente que, apesar de não sofrer um grande processo de aculturação, tem características mutáveis consoante a comunidade da qual se encontra mais próximo.
“Um encontro como o que houve este ano aqui da juventude macaense na diáspora é importante. Mas manter a identidade macaense em Macau não é fácil. É mais fácil manter a identidade macaense na diáspora, porque é uma grande comunidade. Eles estão incluídos neste processo de globalização e entram na tradição de Macau de ser global”, defende.
Para Berlie, “os macaenses que ficam aqui não são capazes de transformar Macau para entrar neste processo de globalização. Precisam de ter um peso importante como sociedade, e como é uma sociedade pequena não pode influir sobre os chineses”.
“Continua a ser um grupo central”, defende porém, e com uma “psicologia complicada”, segundo o investigador.
“A identidade macaense é uma identidade muito flexível. Eles nunca criticam os chineses, nem nunca criticam os portugueses. Mas não se sentem portugueses. Alguns podem sentir-se mais chineses que macaenses”, admite.
“É como um camaleão. Quando estão com chineses, transformam-se em chineses, e com portugueses transformam-se em portugueses. Mas nunca de todo o coração. Eles são macaenses antes de tudo”, explana melhor o antropólogo que classifica a comunidade em três categorias: luso-chineses, euro-asiáticos e euro-macaenses.
O estudo desta e de outras comunidades que ajudam a formular a identidade macaense tem tido, porém, poucas contribuições nos tempos recentes. O antropólogo recorda como referências os estudos desenvolvidos por João de Pina Cabral, uma antologia editada por Rolf Dieter Cremer (1991) sobre o tema e as suas próprias investigações.
“Há dez anos que Pina Cabral não vem aqui. É precisa uma outra geração para fazer este estudo”, defende. A tarefa, diz, será “ainda mais complicada porque a comunidade está muito reduzida”.

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