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Chui Sai On, o prato da casa

July 30, 2009

300709É bom e barato – e promete ser um bom Chefe do Executivo. A garantia é dada por Cheung Ing Hap, proprietário de um dos restaurantes mais exóticos de Macau. “Chui Sai On” é um prato de caranguejo com a tradição de uma década, servido com caril à portuguesa. O dono e inventor dos pitéus do Sun Yick tem por norma inspirar-se na actualidade política para confeccionar e baptizar iguarias. Ao PONTO FINAL, diz que “Chui Sai On” vende bem, e do governante que lhe dá o nome julga ser o homem certo para a hora que o território atravessa.

Maria Caetano

Se ainda não provou, não pode afirmar que não gosta. “Chui Sai On” serve-se com caril à portuguesa e acompanhado com doses generosas de cerveja Tsing Tao naquele que é um dos ‘best-sellers’ do restaurante Sun Yick, na Rampa dos Cavaleiros, perto de Mong Há.
De dia um restaurante comum, o espaço que serve algumas das iguarias mais exóticas de Macau transforma-se a partir das seis e meia da tarde, com um menu onde os nomes criativos retirados da actualidade noticiosa da região são um dos principais atractivos, para quem souber ler a língua chinesa.
O dono do restaurante, Cheung Ing Hap, é certamente um dos mais imaginativos chefes de cozinha, desenhando cardápios ao sabor das estações e da actualidade política de Macau. “Chui Sai On” é uma receita estabelecida há já cerca de dez anos, do tempo em que Cheung era cozinheiro da cantina do Hospital Kiang Wu.
No entanto, nem sempre o prato de caril de caranguejo à portuguesa foi chamado à mesa pelo nome do Chefe de Executivo designado, eleito no passado domingo. “Eu trabalhava na cantina do Hospital Kiang Wu e Chui Sai On gostava muito do caril de caranguejo que eu fazia lá. Ele ia lá muitas vezes comer ou então encomendava para levar para casa por gostar tanto”, explica o dono do Sun Yick sobre as razões para a escolha do nome da iguaria.
Na altura, Chui Sai On era ainda director da Escola Kiang Peng e perdeu-se de amores pela receita do chefe do Sun Yick. Após ter sido nomeado secretário do Governo de Edmund Ho, deixou de satisfazer o apetite na cantina do hospital e passou a encomendar o prato para levar para casa.
Cheung Ing Hap achou que a devoção gastronómica de um governante justificava já uma homenagem e quando se mudou para o restaurante da Rampa dos Cavaleiros o prato levou de baptismo o nome do próximo Chefe do Executivo.
“Chui Sai On” é de fácil confecção e o mais importante é o caril que o acompanha. “É acompanhado de chouriço, batata, azeite, cebola, alho e leite de coco. Tudo junto faz o caril macaense”, revela Cheung Ing Hap sobre a iguaria que é também acessível a muitas bolsas.
“Um grande caranguejo custa cerca de 260 patacas. Para servir com caril é melhor que seja um caranguejo grande”, explica também.

Das manchetes para o cardápio

Mas não se pense que o tributo aos apetites do próximo Chefe do Executivo é único neste espaço de restauração. O chefe de cozinha não faz distinções e dá também a provar “Edmund Ho” numa especialidade que merece o mesmo destaque que o caranguejo de caril à portuguesa.
O prato que recebe o nome do líder de Governo cessante consiste em bocas de peixe, uma receita muito popular que é da predilecção de Edmund Ho sempre que este se desloca ao continente chinês.
“Conceber estes pratos é como fazer design de moda. Em cada estação, crio pratos novos”, revela Cheung Ing Hap sobre os criativos menus do Sun Yick.
O tempo de criação de um novo prato pode demorar consoante o grau de elaboração, mas uma coisa é certa: o processo de criação gastronómica começa sempre pela invenção do nome das iguarias que hão-de chegar às mesas dos clientes de restaurante.
“Inspiro-me a ler livros e a ler as notícias da actualidade. Penso sobre estes assuntos para criar os pratos. Normalmente, primeiro invento um nome e depois penso nos ingredientes e na receita para esse nome”, explica.
“Há vários nomes de pratos que são inspirados por casos políticos e assuntos quentes da actualidade. Por exemplo, este não é muito fácil de perceber, mas quem lê muitas vezes acaba por compreender que tem a ver com Ao Man Long”, aponta Cheung Ing Hap no menu.
O nome chinês deste polémico pitéu não tem tradução directa, mas para bom entendedor da sabedoria proverbial chinesa fica o mistério explicado. Segundo Cheung Ing Hap, o nome ‘nonsense’ da iguaria contém os caracteres que escrevem Ao Man Long, intercalados dos ingredientes que compõem a receita. Entre estes está o tradicional peixe salgado, sobre o qual, lembra Cheung, diz o ditado que “quem come muito peixe salgado, merece ficar com sede”.
Mas esta receita já não é notícia. A actualidade que interessa agora ao inventor de gastronomia exótica é o período de transição política vivido no território. Cheung Ing Hap não deixa a oportunidade cair em saco roto e já tem duas novas iguarias em mente para assinalar a preceito o décimo aniversário da RAEM.
“Em Dezembro, vamos lançar dois pratos novos. Um é dedicado a Edmund Ho e outro a Chui Sai On. Um vai chamar-se ‘O Bilhete de Despedida do Senhor Ho’ e o outro vai chamar-se ‘Felizes Juntos em Tacho Frio’”.
O principal está feito. Só falta apurar a receita. “Na próxima semana vou a Taiwan pesquisar ingredientes para estes pratos”, revela.

A receita da boa governação

E que condimentos e ingredientes espera Cheung Ing Hap da actuação do próximo Chefe do Executivo? Obter uma receita de sucesso não será tarefa fácil, reconhece o dono do Sun Yick.
“É uma tarefa difícil ser Chefe de Executivo nos próximos anos. As pessoas tiveram vários benefícios nos últimos anos, mas ele vai ter de trabalhar arduamente para que a vida das pessoas melhore”, analisa.
Para quem tem como principal prazer cozinhar a actualidade política, também não é difícil destrinçar quais devem ser as tarefas prioritárias do próximo Executivo. “De acordo com o pensamento chinês, para que uma sociedade seja estável são necessários quatro elementos: roupa, comida, habitação e transportes. Os primeiros dois estão assegurados. Já os dois últimos ainda precisam de ser trabalhados e são por isso os mais importantes, sobretudo para as gerações mais jovens”, defende.
Para Cheung Ing Hap, Chui Sai On é também o homem providencial para o cargo. “Ele conhece bem a política de Macau. Para outra pessoa, ser Chefe do Executivo seria muito mais difícil. Ele já conhece bem a sociedade, por isso será mais fácil”, acredita o empresário da restauração, sempre atento e oportuno na concepção dos seus pratos.
Além do Sun Yick de Macau, Cheung Ing Hap tem outros dois restaurantes na China continental. Para lá da fronteira, porém, a criatividade do inventor de iguarias conhece os seus limites. Os restaurantes do continente servem alguns dos mesmos pratos, mas não há nomes relacionados com a actualidade política, à cautela.
Em Macau, o empresário tem também algumas reservas. Os nomes dos pratos não são publicitados à entrada do restaurante. “Alguns nomes são engraçados, mas não fazemos publicidade lá fora porque as pessoas podem tirar fotografias. Não convém, porque alguns dos pratos estão relacionados com assuntos políticos. O nome pode ser um problema”, reconhece.
Os nomes inspirados pelas manchetes dos jornais são, porém, bem conhecidos da clientela da casa, que se conta às centenas.
O restaurante, aberto há quinze anos, serve diariamente três turnos de jantares, entre as 18h30 e as 21h.
“Há quem marque mesa com uma ou duas semanas de antecedência” e o espaço é sobretudo popular entre os turistas de Hong Kong. “Gostam de vir cá porque é muito barato”, afiança, afirmando que cada refeição custará por pessoa cerca de 70 patacas, dependendo da quantidade de marisco que é pedida.

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