Skip to content

Grafiteiros bem comportados

June 30, 2009

São artistas do spray de tinta e reproduzem em Macau a herança da cultura hip-hop da década de 70 norte-americana. Mas com ordem. Os jovens grafiteiros de Macau não vandalizam, nem marcam território com as chamadas ‘tags’. Querem sobretudo ocupar as tardes de Verão das férias escolares e criar alternativas para uma oferta de actividades para jovens que não contemporiza com eles.

Carl e Raphael são os organizadores de uma batalha de graffiti que junta esta tarde dezenas de jovens em período de férias escolares num armazém da zona norte do cidade.
O evento juvenil tem início às 15h num armazém do 11º andar do edifício Wang Fu, localizado no Pátio da Concórdia, no Bairro do Fai Chi Kei. Envolve uma competição de graffitis por equipas e também uma exibição de dança Freestyle.
Tal como muitos outros adolescentes de Macau, Carl e Raphael revêem-se na cultura de rua dos graffitis e do hip-hop, exportada dos Estados Unidos para todo o mundo, mas não se limitam a pintar paredes pela cidade. Os dois adolescentes organizam eventos para promover a “street culture” e ocupar as tardes de Verão de outros jovens como eles.
A moda não é nova, e está associada a uma imagem de irreverência adolescente, mas Carl e Raphael não correm riscos.
“Hoje em dia, não é bom levar os graffitis para as ruas porque corremos o risco de ser presos. Esta é uma oportunidade de tornar a arte do graffiti em algo mais oficial e livre de perigos”, explica Raphael, que patrocina a batalha de sprays de tinta cedendo o espaço para o evento.
Raphael não é o retrato de um menino rebelde. Tem a própria empresa, de organização de jogos de guerra, e estuda Hotelaria na Suíça, a pensar num futuro em Macau.
Também Carl, o mentor da ideia, já tem o futuro desenhado. Depois de ter concluído este ano o ensino secundário em Macau, prepara-se para estudar design em Taiwan. Os pais são os seus maiores apoiantes no que toca à arte do graffiti, e até lhe cederam o frigorífico para que este exercesse os dotes artísticos sobre o esmalte branco do electrodoméstico.
Carl exibe-o com orgulho. Pintou-o com a namorada, que também se dedica à grafitagem.
“Nós queremos promover a cultura de rua com actividades como estas. Queremos juntar jovens com interesses diferentes”, explica.
O jovem fala com entusiasmo da actividade que lhe consome a maior parte do tempo livre, passado em casa entre telas e sprays de tinta depois da escola.
“O graffiti é muito diferente das outras artes. Nas ruas, é visto por toda a gente. As outras artes só são vistas em museus. Aqui a mensagem fica acessível a todos”, defende o futuro designer.

Um Governo “um bocadinho old school”

A mensagem, explica Raphael, não tem teor contestatário e é sobretudo uma maneira de criar uma oferta que para eles não existe na cidade. “Talvez queiramos apenas mostrar que a cidade não morreu, e que existem jovens”, diz.
“Há muitas actividades, mas não são exactamente as que os jovens querem. O que o Governo organiza é um bocadinho ‘old school’ e não agrada à maioria dos jovens”, defende Raphael.
“Não há muito para fazer em Macau. Normalmente, ficamos em casa a pintar”, acrescenta Carl.
“A cultura de rua, com o graffiti e a dança, dá oportunidade aos jovens de passarem mensagens entre si. Isto é bem melhor do que beber álcool ou consumir drogas”, explica também Raphael sobre as razões que levam os jovens a promover eventos como este.
Em Agosto, o grupo pretende organizar uma nova competição de graffiti, que desta vez vai decorrer ao ar livre, no Tap Seac, com grafiteiros convidados dos Estados Unidos, França, Hong Kong e China.
Os juízes da competição de hoje integram uma das equipas de jovens mais famosas de Macau, os GANTZ – explicam os jovens. Pintar a spray pela cidade traz uma certa reputação e os jovens chegam a ser patrocinados por marcas conhecidas de streetwear.
Carl, que parece já ter feito nome entre os adolescentes da sua idade, considera que “a cultura de rua está a ficar cada vez mais popular em Macau”.
Na batalha de hoje, competem até duas dezenas de jovens grafiteiros e na exibição de dança desta noite Carl e Raphael esperam um público considerável. “Pelo menos, cem adolescentes”, a contar com os amigos, e os amigos dos amigos.

M.C.

No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.