Já não há estrelas no céu
Eclipse parcial do Sol avista-se em Macau no dia 22 de Julho
As luzes da cidade roubaram há anos o protagonismo às estrelas do firmamento. Apesar do torvelinho de neóns e neblina que domina o céu de Macau, há ainda quem se ocupe teimosamente, noite após noite, de avistar os corpos celestes nos telescópios dos seus terraços. A Associação de Astronomia Amadora, fundada há 23 anos, conta hoje com cerca de quinhentos sócios. Numa altura em que se comemora o Ano Internacional da Astronomia, a associação quer envolver a população de Macau em actividades de observação.
Há duas décadas, era possível ver os contornos da galáxia a olho nu no céu de Macau. “Não vai acreditar, mas eu digo-lhe: no Leal Senado era possível olhar para cima e ver a Via Láctea no Verão”, garante Lei Chi Fai.
O actual presidente da Associação de Astronomia Amadora de Macau e Sonny Liu, um dos fundadores, observavam nessa altura as estrelas, solitariamente, nos terraços das suas casas e frequentavam livrarias da especialidade – na altura, uma única livraria, aliás, a Seng Kuong, ainda hoje existente.
Foi entre livros de astrofísica que se conheceram e descobriram um interesse partilhado, olhar as estrelas. Em 1983 juntaram telescópios e um grupo de duas dezenas de adeptos da observação dos pontos de luz no firmamento.
A curiosidade comum e a organização regular de sessões de observação em grupo levaram a que, três anos mais tarde, formalizassem a constituição da Associação de Astronomia Amadora, hoje com mais de quinhentos sócios – um quinto deles activo.
“Deparei-me com ele, que também se dedicava a observar estrelas, e fiquei contente por descobrir que não era o único que o fazia”, recorda Sonny Liu.
O deslumbramento surgiu em ambos na infância, altura em que as luzes da então pequena cidade ainda não ofuscavam o fulgor do céu.
“Antigamente, o céu de Macau era muito escuro. Era muito fácil ver as estrelas por causa disso. Maravilhava-me sempre. Foi uma espécie de chamamento natural tornar-me um observador. As fantasias de criança sobre o espaço tornaram-se em mim um interesse mais profundo pela ciência. À medida que o tempo foi passando, o amor às estrelas tornou-se um hábito”, lembra Lei Chi Fai.
“Eu vivia perto do Hospital Conde de São Januário, um sítio muito escuro na altura. Sou filho único, e por isso depois da escola o que fazia era olhar os céus. Olhava para cima e conseguia ver a Via Láctea mesmo por cima da minha cabeça, tal como hoje a conseguimos ver num teatro de um planetário. Era real. Era algo de fascinante, que acabou por fazer com que me interessasse mais profundamente em explorar e perceber porque é que o céu é assim”, descreve também Sonny Liu sobre o período em que nasceu a paixão pelas estrelas.
Um interesse que tentam hoje alimentar nos jovens, que já não têm o privilégio de poder contar as estrelas sobre as suas cabeças no céu de Macau.
“Hoje, se quisermos ver as estrelas temos de ir para a China”, afirma Sonny. “Começámos por fazer observação em Macau, fomos indo para a Taipa, depois para Coloane, e, mais recentemente, estávamos já no fim da praia a ver estrelas”, conta o amador de astronomia.
“Será necessário ir de barco até às ilhas de Zhuhai para poder observar estrelas” – diz também Lei Chi Fai -, “mas os telescópios que temos são demasiado pesados para que os possamos transportar de barco”.
Ano Internacional da Astronomia
Os membros da associação reúnem-se todos os sábados, às 20h, numa sala do Centro de Juventude do Pavilhão Desportivo do Tap Seac. Uma das actividades que dinamizam consiste na construção de telescópios. O maior que já construíram chega a pesar perto de 8 quilogramas – “é o peso de uma pequena criança”, explica Lei. Lentes e suporte são encomendados de outros lugares, mas todo o corpo do telescópio é construído nas instalações da associação.
No próximo mês, haverá um novo workshop, incluído numa série de actividades que assinala o Ano Internacional da Astronomia.
“Há muitas actividades. Desde o início do ano, temos vindo a promover cursos e programas de observação para os cidadãos nas ruas. Há cerca de um mês levámos os nossos telescópios para o Tap Seac”, conta Sonny.
Nos meses finais do Verão, os telescópios serão levados para Coloane, para “festas de estrelas” abertas ao público. “Decorrerão entre Setembro e Outubro. É a altura em que o céu está ainda limpo e é possível observar as estrelas. Agora, há demasiada humidade”, explica.
No Verão de 2003, fizeram uma festa para observar Marte. Foi a altura em que o planeta esteve mais próximo da Terra num período de 60 mil anos. “Na praia de Hac Sá formou-se uma fila com cerca de 5 mil pessoas à espera de vez para aceder aos telescópios”, recorda Sonny Liu.
No próximo dia 22, será também possível observar em Macau o fenómeno raro de eclipse parcial do sol. Numa iniciativa conjunta da Associação de Astronomia Amadora, Universidade de Ciência e Tecnologia e Fundo para o Desenvolvimento da Ciência e das Tecnologias, será montado um posto de observação no campus da universidade e serão distribuídos óculos para protecção durante o breve período de seis minutos durante os quais a Lua se irá interpor entre o Sol e a Terra.
Em Macau, o eclipse encobrirá 70 por cento da face solar. Já noutras zonas da China será possível assistir ao fenómeno total. “Há apenas uma faixa muito estreita no país onde é possível observá-lo inteiramente”, explica Sonny Liu. Uma delegação de Macau, entre a qual estará Lei Chi Fai, irá observar o fenómeno de dia 22 de Julho em Suzhou, na província de Jiangsu.
Responder à curiosidade dos jovens
Sonny Liu e Lei Chi Fai são dois entusiastas da ciência espacial também. “Na sua essência, Astronomia e Ciência Espacial estão estreitamente ligadas. Uma coisa leva à outra”, defende Sonny, que outrora foi professor de Ciências em duas escolas do território.
“Desde os alunos da primária aos do secundário, todos se interessam pelas estrelas. Trabalhei em duas escolas e em ambas havia clubes de astronomia. Os alunos faziam posters, coleccionavam notícias e escreviam comentários sobre novos desenvolvimentos científicos”, revela.
Por isso, salienta a importância de actividades como as que a associação tem vindo a desenvolver. “Temos muitos jovens na nossa associação. Os jovens começam por desenvolver o interesse pelas ciências a partir da astronomia. Antes de alguém se interessar por áreas como a Medicina ou Biologia, começa quase sempre pela descoberta das estrelas”, afirma.
“O nosso objectivo é criar um ambiente para que os jovens consigam fazer as suas descobertas. Connosco eles podem procurar respostas para as suas perguntas e para a sede de futuro e curiosidade pela tecnologia espacial. Se mantivermos um grupo com uma actividade regular de pesquisa e acompanhamento dos mais recentes desenvolvimentos científicos nas ciências espaciais e astronomia, o interesse das novas gerações conduzir-nos-á ao desenvolvimento da ciência em Macau”, defende também Lei Chi Fai, que vê como um passo importante para a RAEM a criação de um Museu de Ciência, que até ao final do ano deverá ser inaugurado.
“É um objectivo ainda muito longínquo, mas gradualmente estamos a aproximar-nos dele”, entende Sonny.
Lei Chi Fai recorda ainda que a tradição de contemplar e estudar o firmamento em Macau recua até ao século XVI, tendo o padre jesuíta Matteo Ricci como precursor. “Talvez poucos tenham conhecimento, mas há um marco de Macau que é o sítio onde o padre Ricci fazia observação de estrelas. Fica no Jardim de Camões. O sítio onde ele observava estrelas ainda hoje existe”, conta com entusiasmo o presidente da Associação de Astrónomos Amadores.
M.C.
