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“Macau não é o local certo para listas com base em comunidades”

June 27, 2009

260609O projecto liderado por Casimiro Pinto não significa uma ameaça à eleição de Pereira Coutinho. Já Agnes Lam e a sua lista, que inclui funcionários públicos, poderá ter outro impacto no universo eleitoral do deputado. Rita Santos é um elemento que poderá fazer muita diferença devido ao eleitorado feminino. Eric Sautede, politólogo e docente do Instituto Inter-Universitário de Macau, tem vindo a dedicar particular atenção às movimentações para as eleições de 20 de Setembro. É certo que prognósticos só no fim do jogo, mas fica desde já uma análise aos desígnios e estratégias daqueles que querem ser deputados.

Isabel Castro

- Estamos a uma semana do fim do prazo para a formalização das candidaturas à Assembleia Legislativa. Temos já mais de uma dúzia de listas e algumas mudanças significativas nesta corrida eleitoral. Há figuras novas, como Agnes Lam, que algumas pessoas consideram que poderá roubar votos a Ng Kuok Cheong e a Au Kam San.
Eric Sautede – Incluindo alguns democratas. Ouvi dizer que nalguns fóruns estão a ser feitos ataques bastante maldosos a Agnes Lam e à sua lista, o Observatório Cívico. Julgo que, no que toca ao campo pró-democrático, há duas grandes alterações. Uma delas é o facto de Ng Kuok Cheong e Au Kam San concorrerem em duas listas separadas: estão a ter em consideração que o sistema de Macau dificulta muito a eleição do terceiro deputado de uma lista. É um passo interessante porque demonstra que estão já noutro patamar, querem conquistar assentos e têm uma estratégia política séria, que vai além da defesa de princípios. Basta olhar para o website: na minha opinião, é o melhor site deste género em Macau e supera até alguns de Hong Kong. O site do Partido Cívico, por exemplo, não tem metade da qualidade do da Associação Novo Macau Democrático (ANDM). A segunda alteração é a presença de Agnes Lam e as pessoas da sua lista. São também pró-democratas mas são vistas como patriotas. Ao mesmo tempo, são mais bem aceites pelas classes média e média alta.
– Por terem posturas menos radicais do que Ng Kuok Cheong e Au Kam San?
E.S. – Sim. De certeza que as classes média e média alta – profissionais liberais e quadros de topo das empresas de Macau – não se identificam com Ng Kuok Cheong e Au Kam San. Entendem que são excessivos na forma como se expressam e protestam contra o sistema. Como essas pessoas fazem parte do sistema, não se identificam com eles. Claro que isto não se aplica a toda a classe média, há uma franja que é muito leal à ANDM, mas diria que é residual. Este ano, e pelos dados de alguns estudos feitos recentemente, deverá haver um aumento da participação eleitoral. Mais de 65 por cento das pessoas tenciona votar, o que representa uma diferença significativa em relação aos 58 por cento de 2005. Isto demonstra que há uma intenção de voto forte.
- Ainda em relação a Agnes Lam. A líder do Observatório Cívico é uma pessoa bem conhecida da população em geral, mas o apoio que poderá reunir nas classes média e média alta será suficiente para que consiga ser eleita?

E.S. – É uma previsão difícil. De certeza absoluta que não conseguirá mais do que um assento na Assembleia – não vejo como poderá ir além disso atendendo às características do eleitorado de Macau. É difícil fazer uma previsão porque se trata de um facto novo, este tipo de lista é uma novidade. Sei que há muita gente que, até agora, nem sequer votava porque não se identificava com nenhuma das listas. O eleitorado de Agnes Lam poderá estar entre os intelectuais, mas também entre estudantes – deu aulas a muita gente -, é uma pessoa conhecida porque participa em debates na televisão, escreve também todas as semanas num jornal, representa Macau lá fora em diferentes qualidades. Tem, sem dúvida, muito impacto. O blogue de Lam é lido por muitos jovens, o número diário de acessos é bastante significativo. Em termos individuais, é uma candidata que faz todo o sentido. Quanto ao número dois da lista, é interessante porque se trata de uma funcionária pública. E aqui, parece-me que poderá haver algum perigo para Pereira Coutinho. Não me parece que Agnes Lam seja uma ameaça para os democratas, porque basta ver que, nas manifestações que organizam – e já estive nalgumas – não se vêem pessoas da classe média. Claro que podem não aparecer em protestos de rua e votarem na ANDM mas, mesmo assim, isto demonstra que o seu principal eleitorado pertence sobretudo a uma classe com profissões mais simples.
- Esta semana apareceu uma candidatura que é liderada pelo presidente da Associação dos Agentes Policiais de Macau, Un Kam Seng. Poderá ser um desafio adicional ao sucesso eleitoral de Pereira Coutinho e da Nova Esperança?

E.S. – Pode ser, mas esta lista poderá ter outro tipo de organização, uma agenda muito específica. Não me parece que a lista de Agnes Lam seja propositadamente uma ameaça a Coutinho: está apenas a tentar mobilizar uma franja do eleitorado que não iria votar se ela não fizesse parte das escolhas, ou que nunca votou sequer. Mesmo que a afluência às urnas seja bastante grande, até maior do que em Hong Kong, existe ainda espaço para tentar mobilizar mais eleitores. Acho que Agnes Lam conseguirá fazê-lo. Quanto ao presidente da Associação dos Agentes Policiais de Macau, depende muito daquilo que representar. De certa maneira, é como a lista dos macaenses. Consigo perceber que, em 2001 e 2005, havia a ideia de que era necessária esta representação nas eleições. Mas as legislativas, e particularmente em Macau, onde há apenas um círculo eleitoral, não é o local certo para listas com base em comunidades. Até agora, não têm tido sucesso. Em termos racionais, não é o local apropriado para este tipo de movimento.
- Pereira Coutinho tem sido um dos principais críticos deste movimento e, ainda antes da lista ser formalmente anunciada, considerou que iria prejudicar a sua candidatura. Ontem, ficámos a saber que foi abandonado o etnicismo para dar lugar ao multi-etnicismo. O cabeça de lista é macaense, também trabalha na Função Pública, é um cantor bastante popular nalguns círculos. Pode ser mesmo uma ameaça?

E. S. – Não me parece, porque a força de Coutinho está no facto de estar à frente de uma associação de trabalhadores, que tem mais de 20 mil associados. Claro que, como se viu em 2005, nem todos os sócios da ATFPM votam nele. Mas desta vez Rita Santos faz parte da lista, que apela ao voto de diferentes áreas, em especial junto das associações de mulheres, que são muito fortes em termos quantitativos. É algo que não pode ser subestimado. Pereira Coutinho tem uma espécie de base de apoio natural, pelo que tem apenas de a mobilizar. Ele costuma dizer muitas vezes que representa a vasta maioria silenciosa dos macaenses porque, essencialmente, não faz parte do sistema dos macaenses. Os macaenses estão a tentar reinventar-se apostando numa identidade multicultural. Porque não? Talvez o cabeça de lista seja bastante conhecido, mas Sales Marques também era conhecido, foi o presidente da Câmara Municipal ao longo de uma década. É certo que isto não significa que seja muito popular entre a comunidade chinesa, mas não deixa de ser um facto relevante. Em suma, não penso que esta nova lista macaense multicultural seja uma ameaça real para Pereira Coutinho.
- Terá então Pereira Coutinho a reeleição garantida?
E.S. – Só há 12 assentos reservados ao sufrágio directo e universal, num total de 29. Talvez devessem ser mais… Em relação a estes 12, há uma verdadeira competição. Além disso, julgo que estas eleições vão ser mais limpas do que as anteriores, porque é o que tem vindo a acontecer ao longo dos anos. Em 1996 foram terríveis; em 2001 foram um bocadinho melhores, apesar de serem ainda muito más em termos de votos comprados; em 2005 o cenário evoluiu e tenho a certeza de que serão melhores agora. Digo isto porque em 2005, 40 por cento dos eleitores votaram em listas ligadas ao jogo, mas todas estas candidaturas oriundas de casinos estão algo tremidas e um bocadinho preocupadas. Claro que não estou a dizer que todas elas estejam envolvidas em corrupção eleitoral, isso é algo que ainda tem de ser provado, algumas delas ainda têm de enfrentar a justiça – mas isto é outra história. Mas têm consciência de que a mobilização do seu eleitorado – que são basicamente os trabalhadores dos seus casinos – poderá não ser tão fácil quanto costumava ser.
- Chan Meng Kam e Ung Choi Kun ainda colocaram a possibilidade de se desdobrarem em duas listas, seguindo a estratégia de Ng Kuok Cheong e Au Kam San, mas depois mudaram de ideias. Melinda Chan candidata-se em substituição de David Chow e Angela Leong tenta a reeleição, sem Ambrose So, mas com um consultor da Melco como número dois. Terão todas estas listas assentos garantidos?

E.S. – Em 2005, David Chow foi um dos últimos a ser eleito. A sua base eleitoral está a desaparecer com rapidez. Talvez o facto de entrar Melinda Chan ajude, mas não estou muito convencido disso. Mais uma vez, é uma previsão difícil de fazer, mas tenho a sensação de que não será eleita. Já a lista de Chan Meng Kam é muito diferente: têm uma base eleitoral muito grande, a sua candidatura foi a segunda em termos de votos nas últimas eleições. É uma lista que tem o apoio da comunidade de Fujian mas não só – dos casinos, do Golden Dragon e de tudo o que lhe está associado. Presumo que a razão pela qual não optaram por duas listas é por não terem a certeza de conseguirem repetir o resultado de 2005. Podem chegar aos 20 mil ou aos 25 mil votos. Partindo do princípio de que serão necessários oito mil votos para eleger um deputado, teriam de conseguir dividir entre eles, de uma forma muito precisa, 32 mil votos para terem mais do que dois assentos, o que é algo muito difícil. De qualquer modo, trata-se de uma lista com uma mensagem dirigida a uma comunidade, por isso qual a vantagem de se dividirem em duas listas? No caso dos democratas é diferente – estão a lutar por certos princípios, alterações que querem ver na sociedade, e podem sempre argumentar que quantos mais na Assembleia, maiores probabilidades há disso acontecer. Para os deputados de Fujian, terem dois deputados ou quatro é mais ou mesmo em termos práticos.
- E Angela Leong?
E.S. – Presumo que estas listas ligadas ao jogo foram concebidas de modo a demonstrar que os casinos não são só o sustento de Macau, mas que podem ter um impacto na comunidade e estarem envolvidos nas questões políticas. Na realidade, se olharmos para estes candidatos, de um modo geral, poucos terão estudos ao nível do ensino superior. Não quero com isto dizer que, para se ser deputado, seja necessário ter um doutoramento, mas nenhum deles foi além do ensino secundário… Chan Meng Kam está muito presente – interpela com frequência o Governo, participa bastante – mas já David Chow, por exemplo, é o pior em termos de presenças e nunca apresenta interpelações. O que está ele a fazer nesta legislatura? Se olharmos para Angela Leong, defende basicamente os seus interesses. Quando chega a altura de votarem, e apesar de serem relativamente críticos em relação ao que o Governo faz, acabam por aprovar tudo – são da área do jogo, querem manter o seu estatuto privilegiado em Macau, e são muito pró-Pequim, um conceito que não usamos para caracterizar a RAEM. Dizemos que os deputados são oriundos do jogo, pró-democratas e tradicionais. Mas não é uma situação tão clara como em Hong Kong, onde existem as alas pró-democrata e pró-Pequim. Em Macau, as listas tradicionais, que é suposto serem pró-Pequim, por vezes assumem de forma efectiva a ideia de trabalharem para a população de Macau. Apesar do facto de estarem, de certeza absoluta, muito mais próximas de Pequim do que Ng Kuok Cheong e Au Kam San, acabam por estar mais próximas da população de Macau quando em causa estão temas como os idosos, a educação e a lei laboral.
- Há quem entenda que as forças tradicionais estão a perder força em termos políticos e as eleições de Setembro poderão ser complicadas. Concorda?

E.S. – Sim, podem ser complicadas. Não me parece que tenham já assumido a sua estratégia. Aplica-se o mesmo a Agnes Lam. Estão com receio de focarem em demasia a vertente política das suas candidaturas neste momento. E isto devido às restrições que lhe são impostas. Em Hong Kong, na Europa, nos Estados Unidos, existem actividades pré-eleitorais. Chan Meng Kam fez uma delas – foi repreendido por isso. Leva isto muito a sério. O mesmo sucede com Ng Kuok Cheong e Au Kam San. Agnes Lam não o está a fazer, os candidatos das listas tradicionais também não. A sensação que tenho em relação a estes últimos é a de que ainda não decidiram onde se vão posicionar. As listas tradicionais costumavam ter esta tarefa facilitada, com a base eleitoral que as suas associações costumavam representar. Tenho alunos que trabalham nestas associações e sei que fazem um trabalho impressionante ao nível das actividades de índole social. Mas, quando falamos de eleições, é preciso ter uma mensagem definida e clara. Se querem fazer mais do que têm feito, terão de aparecer com uma estratégia eleitoral muito definida.
– As eleições de 20 de Setembro podem ser uma grande surpresa?
E.S. – Claro. Há já alguns indicadores, mas é difícil fazer uma previsão. Acho positivo que exista uma certo grau de incerteza, é uma ideia que está por detrás das eleições. Vivemos num ambiente com instituições fortes, pelo que podemos ter este grau de incerteza, sem o qual as sociedades não podem evoluir.

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