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O artista que tinha Macau no sangue

June 25, 2009

250609O pintor Nuno Barreto disse ontem adeus ao Porto e a Macau. Eram as suas duas casas, as terras que lhe estavam no sangue – admitia – e que registou em centenas de telas hoje dispersas em todo o mundo. Recordado como pintor, pedagogo e amigo, deixou um legado de educação artística no território. Formou e influenciou outros pintores. Compôs uma linguagem pictórica própria, que fazia por resistir a classificações. Barreto admitia, sim, motivos recorrentes: janelas, portas e obstáculos, para quem os quiser decifrar. O pintor encobria, mas gostava de ser descoberto. Queria comunicar acima de tudo e que os seus quadros fossem vistos pelo maior número de pessoas possível, avesso à ideia da arte como uma “torre de marfim”.

“Vê-se o Pátria atracado em Nam Van, ao fundo o Hotel Lisboa – ainda sem os casinos da actualidade – e depois vê-se Jorge Sampaio a apertar a mão a um dirigente chinês. Há dirigentes chineses vestidos à dinastia Qing e também individualidades de Macau. E ao lado do navio Pátria vêem-se montes de contentores, móveis chineses, tapetes persas, gaiolas chinesas e montes de caixotes.” Carlos Marreiros descreve de cor uma das pinturas mais presentes na memória da obra do pintor Nuno Barreto, que ontem faleceu, aos 69 anos, vítima de doença prolongada, no Hospital do Carmo, no Porto.
A imagem de 1999, “Embarque no Pátria 1” assinala em tom caricatural a despedida portuguesa da administração de Macau com a ironia transversal ao conjunto das obras figurativas do artista.
Pintor e pedagogo, Nuno Barreto conheceu Macau em meados da década de 80 e aqui fixou residência em 1988, convidado a dirigir uma escola de arte de Macau pelo Instituto Cultural, então presidido pelo arquitecto Carlos Marreiros. Foi o primeiro director da Academia de Artes Visuais, hoje integrada no Instituto Politécnico de Macau.
“Foi a parte mais importante da vida dele. Como formador, como pedagogo, deixou uma obra significativa e que agora se releva. Muitos artistas ainda hoje radicados em Macau passaram pela velha academia de artes visuais”, considera o arquitecto e amigo.
Marreiros não deixa de notar também a forte influência que Macau teve sobre uma parte muito significativa da obra de Nuno Barreto, “uma pintura figurativa, bastante doce, fácil de se gostar”.
“Ele viveu intensamente Macau e, naturalmente, o património das arquitecturas chinesa e portuguesa, os costumes, influenciaram a pintura dele”, afirma o arquitecto e pintor.
Em mais de setecentas obras produzidas, das quais Barreto fazia relação no final de 2006, mais de metade foi pintada em Macau, onde o pintor viveu até Maio de 2005. A sua última visita ocorreu em 2006, e desde então nunca mais voltou, permanecendo no Porto, a cidade onde nasceu e se formou.

Infância no Douro

Foi na Foz do Douro que, em 1941, Nuno Barreto nasceu no seio de uma família duriense com sete filhos. Barreto foi o segundo filho, seguido do sociólogo António Barreto, irmão com quem teve uma mais forte relação de companheirismo, sobretudo durante a juventude.
Na colecção “Galeria Imaginária”, publicada em 2006 pela Fundação Oriente, António Barreto recorda os primeiros anos da infância e juventude do irmão.
A família vivia em Vila Real, Trás-os-Montes, onde Nuno Barreto fez os estudos primários e secundários – muito a contra-gosto na área de Economia, mais lucrativa e mais ao gosto da família.
“Os talentos artísticos não abundavam na família. Foi o Nuno que veio contrariar essa tradição”, escreve António Barreto no catálogo de 2006.
Era em casa, fechado no seu quarto, que o jovem pintor formava a sua vocação. “Mais fechado ou introvertido do que eu, sabia-o passar longas horas a escrever ou a desenhar”. Do que escreveria, era vedado à família, mas mostrava as suas primeiras aguarelas e desenhos, figurativos sobretudo, onde abundavam paisagens e retratos.
Continuou sempre a pintar de forma amadora, enquanto frequentava os últimos anos de liceu, onde fez também investidas no jornalismo e teatro amador.
O irmão recorda uma viagem no final da década de 50 em que, juntos, partiram por alguns meses para Inglaterra para trabalharem num campo para juventude onde realizaram actividades agrícolas e trabalharam numa fábrica de produtos alimentares.
A curiosidade pelas viagens, e sobretudo pelos museus a que estas conduziam, esteve sempre presente no percurso do pintor.
Em 1960, Barreto partiu para o Porto para frequentar a Faculdade de Economia – um trajecto frustrado e corrigido a tempo, mais aos desejos da sua vocação. No ano seguinte iniciou os estudos na Escola Superior de Belas Artes, também no Porto, onde se graduou em 1966 com uma classificação final de 20 valores.
Durante a instrução superior, mantinha actividades de divulgação cultural em Trás-os-Montes com o irmão António, então a frequentar Direito em Coimbra.
Juntos criaram a revista “Setentrião”, para a qual Nuno fazia as ilustrações. “Dizíamos poemas, escrevíamos poemas parecidos com os cadvres exquis dos surrealistas, bebíamos, desafiávamos as raparigas da cidade”, escreve António Barreto: “Lutávamos para romper o círculo de silêncio e de rotina que se vivia em Vila Real”.
Depois, houve um período de afastamento, em que os irmãos se separaram, um partindo para a Suíça, e o outro permanecendo em Portugal.
Após terminar o curso de Belas-Artes, Nuno Barreto viria porém a realizar uma pós-graduação na prestigiada Saint Martin’s School of Arts, em Londres, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.
Cedo iniciou a carreira de pedagogo, começando por leccionar no Liceu Sá de Miranda, em Braga. A partir de 1973 tornou-se professor assistente na Escola de Belas Artes e três anos mais tarde passava a dirigir a oficina de serigrafia da escola, tarefa que manteve durante 15 anos, ao mesmo tempo que promovia dezenas de edições de estampas originais, suas e de alunos.
No final de 1986, realiza também residência artística nos Estados Unidos, na Swain School of Design e no Bristoll Community College de Fall River, que ainda hoje detém na sua colecção particular obras do pintor.
As primeiras obras do pintor a serem adquiridas estiveram durante vários anos expostas na agência de viagens Abreu, cujo dono adquiriu um espólio de 23 pinturas conhecidas como a “Suite Abreu”, um conjunto de expressão abstracta, que convive com a colecção figurativa do autor, sem conflitos, segundo considerava o próprio. Barreto afirmava que as suas telas figurativas e abstractas eram como as suas “mãos esquerda e direita: complementares, mas ambas indispensáveis”.

A face Taborda

Durante o seu primeiro período português, eram as paisagens durienses que figuravam, e o verde claro, pintando socalcos e, já então, labirintos, bem como também os retábulos que enquadravam as ruas do Porto à maneira de edifícios, impondo barreiras e isolando as pessoas. “Ao longo dos anos, a solidão está no centro dos seus temas. A solidão e a dificuldade de comunicação”, escreve António Barreto.
É exemplar desta temática a obra “Trinta Pessoas Solitárias”, mas em todo o conjunto o pintor, parece haver sempre obstáculos e limites, que isolam. Da cortina que cobre as janelas e impede a contemplação da paisagem, aos retábulos chineses que apenas permitem vistas parciais, ou uma portugalidade de mesas parcialmente cobertas por toalhas de xadrez encarnado que delimitam o isolamento de um conviva luso face aos restantes convivas chineses (“Mesa Comum 3”).
Uma ocultação ou obstáculo que cabe a quem vê a obra ultrapassar. “Com o pouco recuo de que desfruto na análise da minha própria obra, detecto nela mais do que um tema. Que temas? Deixo a tarefa de responder a quem está de fora”, dizia Barreto, que preferia enumerar motivos ou subtemas: “É o caso do motivo Janelas, que agrega também as Portas, Cortinas e Aberturas. Mesmo nas obras não-figurativas que realizei, as ideias de obstáculo e de ocultação estão presentes. Ocultação de quê ou de quem? Bem, estarei no limiar dos Temas e dos Símbolos e prefiro não me enredar por aí. Outros saberão melhor”.
O poeta Vasco Graça Moura assinala-lhe também um “comprazimento na representação do obstáculo, do muro, da parede, do labirinto”, contraposto com telas onde surgem também rasgões e brechas, que apenas deixam entrever.
Do conjunto pictórico, destoa no entanto uma série inspirada no hiper-realismo norte-americano, ao qual o pintor haveria de perder o rasto e que assinou com o heterónimo Tomás Taborda. Taborda nasceu na noite de 31 de Maio de 1985, revelou Barreto em 2006, sobre o alter-ego artístico para o qual inventou uma biografia, à maneira de Pessoa. “Eu não desejava que esta via foto-realista perturbasse a coerência da pintura que vinha fazendo e mostrando”, justificou.
O autor podia ter criado mais heterónimos, mas “há um indicador que seria difícil de esconder: a afinação cromática, que é uma verdadeira impressão digital”, admitia em 2006 no catálogo “Galeria Imaginária”.

O vermelho do Oriente

Nuno Barreto dizia gostar de clareza. E assim era com as suas cores. De todas, o vermelho é eleito após a chegada a Macau, naturalmente. O contacto com a cultura chinesa trouxe telas como “Vermelho-Rei” ou “Vermelho-China”, tonalidades que nasceram no território na obra do autor. E é também a Oriente, lê Graça Moura, que se torna sobretudo notória “a atenção do pintor a certos caprichos morfológicos e aos efeitos ornamentais”.
Num exemplo, “Porta com Pa Kuá”, o ornamento e símbolo do espelho chinês que reflecte o mau fong soy e a própria imagem de quem o olha, carrega mais uma vez o simbolismo do obstáculo: a porta está apenas entreaberta.
Mas a porta de Macau, e da cultura chinesa, é apenas uma parte do trabalho realizado por Barreto em Macau. O território do qual o pintor viria a fazer casa em 1988 é também o retrato de uma colonialidade terminal, pintada com sarcasmo e ironia – auto-infligida também.
“Se quisermos falar da História da arte em Macau no período da transição o retrato ficará incompleto sem ele”, entende Konstantin Bessmertny.
“Gosto do trabalho dele, e julgo que ele tinha uma ideia própria sobre como mostrar Macau pelos olhos dos portugueses que aqui viveram durante longos anos e de processar a ideia de Ásia através de uma investigação”, considera o também pintor.
O pintor russo recorda também o papel determinante de Nuno Barreto na formação de muitos artistas locais. “O seu trabalho é único e dá direcções para um certo estilo, que influenciou muitos outros artistas em Macau e, provavelmente, até em Hong Kong. Já vi trabalho de outras pessoas que me recorda do seu estilo”, declara o pintor russo.

A escola de Barreto

Com a inauguração da Academia de Artes Visuais de Macau, em 1989, Barreto assume a direcção, coadjuvado pelo artista Mio Pang fei, que é subdirector da escola.
A Academia dá vários cursos de iniciação em diferentes disciplinas artísticas, e organiza também seminários e oficinas com reputados mestres portugueses, chineses, japoneses e ingleses.
Em 1991, a Academia é elevada a Escola Superior de Artes Visuais e Nuno Barreto passa leccionar o curso de Comunicação Gráfica, ao mesmo tempo que mantém a sua própria oficina.
“Quando cheguei a Macau, em 1993, a “sua” Academia de Artes Visuais de Macau já não tinha o fulgor de tempos anteriores. Por lá haviam já passado a maior parte dos nomes que compõem hoje a primeira linha de artistas do território. O que é certo é que esse projecto foi embrionário da Escola de Artes do Politécnico num momento em que a formação nas áreas artísticas era equivalente a zero. O seu papel fundamental na área da formação parece-me hoje em dia estar esquecido pelas instâncias superiores”, considera José Drummond, artista de uma geração posterior que confessa encontrar comunhão no trabalho do pintor portuense e de Macau na “honestidade e humildade no trabalho solitário do atelier, onde ninguém pode entrar”, embora não se identifique com o estilo de Barreto.
O jurista Paulo Cabral Taipa escreveu sobre o período de Macau, sobretudo no que toca às telas mais narrativas da galeria imaginária de Barreto, ser “um tratado sociológico e sentimental do encontro e cruzamento de culturas em Macau”.
O tratado do pintor está hoje disperso um pouco por todo o território, em várias colecções particulares na posse do Clube Militar, da Delegação da Fundação Oriente, da Autoridade Monetária, do Comissariado Contra a Corrupção, Banco Comercial de Macau, IPIM, IPOR, World Trade Center, Associação dos Advogados, Aeroporto Internacional e colecção do antigo Palácio do Governo.
Nuno Barreto era avesso a que as suas obras estivessem ao alcance de poucos. “A pintura, isolada nos píncaros supostamente prestigiosos da sua unicidade original, na torre de marfim da sua condição, a pintura é um luxo, um sinal de opulência e sofisticação da elite dos rich-and-famous. Ou seja, não tem condições para ser um dos terreiros de convívio da grande comunidade humana; é apenas um atributo de meia dúzia. Não é um desperdício que seja assim? Não haverá volta a dar-lhe?”, perguntava em 2006.
Várias das suas obras estão hoje patentes em colecções públicas em Portugal, em Lisboa e no Porto.

Fora da torre de marfim

Barreto gostava que vissem as suas telas e gostava de ver as dos outros. Em 2006, na sua “Galeria Imaginária” contava a anedota de uma visita à cidade espanhola de Toledo em que pagou para ver por dez minutos para ver a “O Enterro do Conde de Orgaz”, de El Greco, sem que lhe fosse dado o tempo necessário para contemplar a obra. Um encontro fugidio que não permitiu o interesse de leitura que o pintor deve apreciar no espectador da sua obra. Barreto não era indiferente a quem o via.
“Prefiro a arte que nos desperta os sentidos para o mundo e que faz de nós uma pessoa um pouco melhor”, declarava o pintor que tinha como mestres de eleitos Piero della Francesca, Bruegel e Picasso, nas suas fases rosa e azul.
Barreto brincou também com este últimos dos mestres. Numa variação a partir de “Meninas de Avignon” pintou “O Diabo Não é Tão Mau Como o Pintam” – uma das telas onde figura uma série de provérbios populares.
“Do Douro trouxe Nuno Barreto o baú dos provérbios mais velhos, a displicência pelas hierarquias mundanas e aquele olhar de cima, a descobrir horizontes e incompatibilidades”, escreveu também Maria do Carmo Séren, coordenadora do Centro Português de Fotografia, no Porto.
No convívio, o pintor mantinha também o olhar crítico e o interesse pela vida social. “O Homem de Cultura não prescindia de revelar a sua condição de cidadão comum, profundamente humano, mas criticamente atento a tudo quanto acontecia no pequeno burgo”, descreveu também António Correia, amigo, que tal como Barreto, viveu em Macau longos anos.
“Ele era um artista culto, um pedagogo culto, amigo do amigo, um bom conversador, não era dado a grandes melancolias. Gostava de viver a vida e era alguém com quem se gostava de conversar”, recorda também Carlos Marreiros.
Os amigos que fez em Macau dedicam-lhe na próxima semana homenagem num cerimónia que decorrerá no Albergue da Santa Casa da Misericórdia, sob organização do Círculo de Amigos da Cultura de Macau, do qual o pintor fazia parte.
“Espera-se que o Museu de Arte de Macau, gorada que foi a oportunidade de lhe dedicar uma retrospectiva com a sua presença física, lhe preste agora a merecida homenagem”, defende José Drummond também.
Macau foi uma terra que lhe entrou no sangue para nunca mais sair – confessava Barreto numa entrevista ao PONTO FINAL em Abril de 2006, possivelmente a última que deu à imprensa do território.
“Aqueles dez anos finais da administração portuguesa foram muito positivos para mim, como pintor. Havia na cidade um ambiente optimista, fazia-se coisas que se acreditava iam ficar a marcar uma presença, havia muita gente interessada nas artes, constantes iniciativas e exposições, concertos, visitantes ilustres”, declarava o pintor ao jornal.
Nessa altura Nuno Barreto tinha já decidido nunca mais voltar a expor na RAEM, devido ao hábito de se piratearem as obras de artistas. O pintor admitia ser uma das maiores vítimas da falsificação. “Uma moldurista da cidade contou que só ela já tinha feito mais de 200 molduras para cópias piratas do meu trabalho”, lamentava-se Barreto que preferia também recordar Macau dos tempos da administração portuguesa.
“Com o arrear da bandeira portuguesa na Fortaleza do Monte encerrou-se também um capítulo da minha obra”, afirmava em entrevista publicada na “Galeria Imaginária”.
Na última entrada do seu blogue pessoal, “Sítio do Imaginário”, vêem-se imagens do casino-hotel Grand Lisboa ainda em construção, tiradas durante a sua última visita a Macau. Não voltou.
“Macau do século XX é já só uma memória, uma bela memória, diga-se”, declarou em 2006 Barreto num registo melancólico, que os amigos lhe conheciam raro.

M.C.

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