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As histórias que não se podem contar

June 4, 2009

Relação de Macau no apoio aos dissidentes é tema tabu

Uma década depois de Tiananmen, Ng Kuok Cheong contou que alguns activistas que fugiram para Macau terão acabado por ser devolvidos à China. Casos que nunca foram confirmados. Duas décadas volvidas, explica que há coisas sobre as quais ainda não se pode falar. Talvez um dia escreva um livro.

Isabel Castro

Tinha 31 anos e ideias definidas sobre o que deveria ser a abertura da China ao mundo. “Uma democracia que não precisava de ser igual à dos Estados Unidos ou da Europa”, explica. Em 1989, Ng Kuok Cheong tinha regressado há pouco tempo de Hong Kong, onde se licenciou, e desempenhava um cargo de responsabilidade no Banco da China. Tiananmen acabou por ter influência directa na sua vida profissional e na carreira enquanto político.
Em 1989, recordou Ng ao PONTO FINAL, foi criado um movimento em Macau de apoio ao movimento estudantil de Pequim. O pró-democrata era o porta-voz de um conjunto de pessoas que, entre outras tarefas, organizou várias manifestações no território.
A 4 de Maio, a situação na China já estava agitada. “Tivemos um fórum em Macau para discutir o futuro do país. Participaram muitas pessoas, incluindo o responsável máximo do jornal Va Kio. Muitos intelectuais famosos também vieram.”
A 20 de Maio, aconteceu a primeira manifestação em Macau. Uns dias antes, já os alunos universitários tinham feito um abaixo-assinado e marchado como foram de manifestarem a sua solidariedade para com os colegas da capital. Mas o dia 20 foi diferente.
“Estava tufão. Era um sábado. Estava a trabalhar, fui ao Banco da China, disse aos meus colegas para irem para casa. Fui à Rádio Macau e pedi às pessoas para saírem para a rua e trazerem os seus guarda-chuvas. A chuva era torrencial. Na altura podia-se fazer manifestações em qualquer sítio, com a cooperação da polícia.”
Ng Kuok Cheong sabia do que se estava a passar através dos jornais, mas as informações principais chegavam de Hong Kong. “Nessa altura, tinha alguns contactos com a Agência Xinhua, mas não sabia das lutas de poder em Pequim”, acrescenta.
Na sequência das acções de protesto que estavam a ser feitas, já estava planeada uma manifestação para o dia 4 de Junho. “Era domingo. De manhã soubemos o que se passou em Pequim e muita gente saiu para a rua. 100 mil, segundo o jornal Ou Mun. Era quase metade da população de então.”
E agora, era possível sair tanta gente para a rua em Macau? “Depende do que acontecer”, responde, lacónico, o deputado, que continua a ser organizador de algumas acções de protesto na RAEM.
Sobre o que se passou logo a seguir a Tiananmen, Ng prefere medir as palavras. Há uma dezena de anos, contou em entrevista ao PONTO FINAL que, “entre 1992 e 1994″, alguns activistas chegaram a Macau fugidos da China, mas acabariam por ser entregues às autoridades do Continente. Casos confirmados? “Não tenho os dados em meu poder. Mas na altura ainda cheguei a estar com alguns. Só que as autoridades locais diziam que não havia forma de saber ao certo se eram refugiados políticos ou emigrantes económicos”, disse na altura.
Dez anos depois desta entrevista, Ng Kuok Cheong ainda não abre o livro. “Algumas pessoas fugiram através de Hong Kong, outras a partir de Macau. Cada um recebia apoio de várias pessoas. Ouvi falar de casos em que foram devolvidas à China.” O pró-democrata hesita na escolha das palavras.
“Não posso falar muito, porque isto envolve outras pessoas, incluindo algumas instituições ainda em Macau”, diz, referindo-se à ajuda dada aos dissidentes. O deputado explica que “é muito difícil falar disso, porque algumas dessas instituições continuam a receber subsídios do Governo.”
Ng Kuok Cheong tem a sua teoria sobre os acontecimentos de Pequim, Junho de 1989. O deputado pondera, “se tiver tempo”, escrever a sua “análise completa sobre este período da História”. Talvez então se conheçam outras histórias, aquelas que os vinte anos o impedem de contar.

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