O rapaz com vergonha de tirar a camisa
Companhia de dança Hofesh Shechter na despedida do Festival de Artes de Macau
Descobriu que a dança lhe interessava porque o ajudou a descobrir a liberdade e a ultrapassar a vergonha de rapaz desajeitado. Hofesh Shechter, bailarino, coreógrafo e músico, é o responsável pela companhia de dança que baptizou com o seu nome e que tem a honra de fechar a edição deste ano do Festival de Artes de Macau. O PONTO FINAL foi saber porque é especial a dança contemporânea deste israelita que concebe espectáculos a pensar nas pessoas. Sem fronteiras nem categorias.
Isabel Castro
São dois espectáculos num só. Hoje e amanhã, a companhia Hofesh Shechter apresenta “Uprising” e “In Your Rooms”, duas coreografias pensadas em alturas distintas e com contornos diferentes, mas que fazem todo o sentido quando vistas uma a seguir à outra. É um espectáculo de dança “muito diferente”, promete Hofesh Shechter, o mentor de todo o projecto desta companhia que tem o Reino Unido como base de trabalho.
“É muito especial, muito diferente do que as pessoas estão habituadas a ver no seu quotidiano, e tem uma grande qualidade. Há uma série de elementos com os quais as pessoas se podem identificar. Não é algo estranho com o qual o público não consegue estabelecer uma ligação”, afirma, desafiado a encontrar uma boa razão para se ir ver o seu trabalho.
Hofesh Shechter, o homem em torno do qual giram as noites de hoje e de amanhã, já descobriu “muita gente que, na realidade, não é apreciadora de dança e que gostou do espectáculo”. Tal deve-se, acredita, à hipótese que os espectadores têm de se identificarem com as emoções que o conjunto de bailarinos transporta.
Na abordagem artística do bailarino, coreógrafo e músico israelita, as pessoas são o ponto de partida e o objecto principal do seu trabalho. Exploram-se emoções, desconstroem-se comportamentos para dar lugar a outras formas de estar. Tudo isto através de movimentos e sons que as palavras jamais conseguem descrever.
“São dois trabalhos separados. ‘Uprising’ é uma coreografia para sete homens e foi concebida em 2006. ‘In Your Rooms’ foi criado em 2007, é um trabalho mais longo, envolve mais pessoas. São 12 bailarinos e tem música ao vivo, com cinco instrumentistas. É um trabalho que foi feito a pensar em ser apresentado na mesma noite de ‘Uprising’, criado com a noção de que ‘Uprising’ seria a coreografia de abertura”, explica Shechter.
Embora haja esta relação de continuidade entre as duas coreografias, há diferenças evidentes. “‘Uprising’ foi pensada para sete homens. A música é gravada, não é ao vivo, e é muito percutida – é forte, groovy. É uma coreografia que funciona bem.”
Nesta primeira parte do espectáculo, lida-se com algo que, explica o coreógrafo, é “muito simples”: “São sete homens em palco que interagem entre eles e com o espaço, que é um contexto imaginário. É algo muito combativo, muito masculino no seu comportamento. Do ponto de vista coreográfico, não é simplista, mas a ideia em si é simples.”
Já em “In Your Rooms” há uma relação entre homens e mulheres, o que torna tudo diferente. A coreografia é “baseada no conceito de mundo de ‘Uprising’, mas vai-se mais longe e há uma maior profundidade”. É uma peça mais complexa. “Apresenta um quadro mais vasto de emoções e de situações”, que a música acompanha. “Em termos musicais, temos música ao vivo, cordas e percussões, e alguma música electrónica gravada. É uma experiência mais rica.”
No princípio era o piano
Além de ser o homem que concebe os movimentos que contam a história que imaginou, Hofesh Shechter é o compositor de “85 por cento” da música que se vai ouvir no Centro Cultural de Macau. Os restantes 15 por cento são samples que editou e que mistura com os sons que escreveu.
A música foi a primeira a chegar na vida deste coreógrafo-bailairino-compositor. E apareceu, como em quase todos os artistas musicais, por imposição paterna. “Fui mandado estudar piano quando tinha cinco ou seis anos, contra a minha vontade. Foi a minha primeira interacção com as artes. Não estudava muito. Tinha uma espécie de talento natural, mas não praticava o que era suposto. Gostava de criar as minhas melodias, em vez de tocar as que me davam para estudar.”
A dança foi um processo posterior. “Comecei a ter aulas de dança tradicional na escola. Era muito tímido e não me sentia confortável com o meu corpo. Mas a professora achou que tinha talento para a dança e disse-me para ir para uma companhia semi-profissional.” Uma ideia que Hofesh Shechter aceitou sem grande convicção, ao contrário do seu melhor de amigo de então. Foram juntos à audição. “Escolheram-me, mas a ele não.” E lá se foi o melhor amigo.
Shechter entusiasmou-se com o mundo da dança, mais por aquilo que ela representava do que pela prática em si. “Gostei do lado social de tudo aquilo. Senti que a dança poderia ajudar-me a ser melhor como pessoa, porque era tão tímido”, diz o coreógrafo natural de Jerusalém, de 34 anos feitos recentemente e de timidez mal disfarçada. “Era um rapaz da cidade, não gostava de ir para a praia nem de tirar a roupa. A dança tornou-se muito interessante porque era acerca de se ser livre.”
A descoberta do mundo da dança não o afastou da música. Depois de uma passagem por uma companhia profissional em Israel, tentou entrar no cenário artístico francês. “Estive em projectos diferentes, da dança ao teatro, todos eles muito experimentais. Voltei para Israel e depois fui para Londres. Não tinha sido capaz de encontrar um espaço para o desenvolvimento e a continuidade até ir para Londres. Quando lá cheguei, senti que havia um processo a acontecer e envolvi-me nele”, refere.
A companhia que tem o seu nome existe, enquanto tal, há apenas um ano, mas é alvo das atenções do panorama artístico europeu. “Sinto-me muito privilegiado em relação a tudo o que está acontecer em torno do meu trabalho e da minha companhia. Tem sido muito bem recebida, há muita curiosidade e muita confiança por parte de quem define os programas de festivais e eventos”, diz. Macau é o primeiro destino da Ásia do grupo de bailarinos e músicos desde que este assumiu o formato de companhia.
Do exercício da conciliação
No início desta fase londrina da vida de Hofesh Shechter, tudo começou com um dueto. “Estava numa banda de rock que acabou e numa companhia de dança onde não me sentia muito feliz. Na realidade, queria começar a fazer música, a minha própria música. Percebi que através de uma coreografia, teria a possibilidade de apresentar o que componho.”
Esta relação entre sons e movimento, agora mais evidente no trabalho da sua companhia, não resultou de uma decisão consciente. “Tinha muita curiosidade em torno do processo de composição e da coreografia. A dança era algo com que estava mais familiarizado, porque estava dentro deste mundo há muito tempo. Mas não via qualquer razão para pedir a alguém para compor uma peça para mim. E essa foi a parte divertida.” A articulação de todos os elementos certos de um espectáculo que vive do movimento, mas também dos sons que o enquadram.
Este processo de conciliação de muitas artes que se transformam numa só não é simples. Hofesh Shechter dança cada vez menos para poder sentir o espectáculo de fora, mas sente falta da relação uterina com o palco. “Ainda danço em ‘Uprising’. Em ‘In Your Rooms’ danço no início mais depois saio, o que me permite ter uma experiência mais objectiva”, diz, sobre o trabalho que traz a Macau.
“Quando concebo uma coreografia sinto muita vontade de participar nela, de perceber como é sentir aqueles movimentos. Quando estou de fora e vejo os bailarinos, sinto que, por vezes, funciona esta observação, mas não tenho a sensação de estar a viver o acontecimento por dentro. Tudo isto é uma nova experiência.”
Quanto ao processo de criação, é uma espécie de ovo e galinha – não se sabe quem nasce primeiro. “É difícil dizer por onde se começa. No início há uma sensação acerca do que deve ser a música. Não há regras. Posso ir para o estúdio e começar a trabalhar nalguns movimentos e depois ir para casa e começar a compor. Normalmente, já alguns sons, porque quando há sons para o trabalho, começa-se a perceber que tipo de movimento se irá adequar melhor. O som é algo muito forte. Mas não escrevo uma pauta para depois dançar a partir dela.” Dança e música acontecem em simultâneo. “É um diálogo”, diz o coreógrafo.
A política das pessoas
Por ser de Jerusalém, por ser israelita, o trabalho de Hofesh Shechter é frequentemente catalogado como sendo político. O coreógrafo tem outra perspectiva acerca do que faz.
“Os meus trabalhos só têm uma conotação política por causa do sítio de onde venho – as pessoas olham para os meus espectáculos de uma forma específica”, explica. “Os meus trabalhos são apenas de dança e são, sobretudo, acerca dos indivíduos, não sobre estruturas sociais complexas. Acontecem como reflexo dessa estrutura social ou da ausência dela.”
Em palco não se vêem os contextos das peças – o espectador está a olhar para pessoas na sua condição individual. “De algum modo, é o oposto à política: é acerca da privacidade, das emoções, de como as pessoas se sentem, talvez num determinado contexto social, que não sabemos qual é.” Ou seja, “não faço um manifesto, uma declaração de intenções”, vinca.
Mas Shechter tem a noção perfeita de que o facto de ser oriundo de um local com “uma história e uma realidade política muito fortes” faz com que haja uma carga na forma como é observado.
“Como é óbvio, o meu passado e o contexto em que vivi têm um efeito em mim, e por vezes o trabalho surge dos sentimentos que tenho acerca disso, mas não ando à procura de fazer passar uma mensagem política. Estou concentrado em perceber como se é um ser humano dentro de determinadas situações. Foco-me nas pessoas, em vez da política.”
O bailarino não se sente incomodado com as catalogações. E tira proveito dos pré-conceitos em torno da sua proveniência. “Vejo isso como um instrumento. Como sei que as pessoas vão olhar para o meu trabalho de determinada forma, talvez tenha de fazer menos para provocar certas emoções. É impossível estar à espera que as pessoas não tenham qualquer conceito pré-estabelecido antes de verem os meus espectáculos, o que pode ter um efeito negativo ou positivo, dependendo do que Israel significa para elas”, afirma.
Hofesh Shechter tenta “desconstruir percepções”: “Os governos são virtuais – são feitos de pessoas. Os países são virtuais – são feitos de pessoas. Eu não faço categorias. Mas tenho consciência de que entro numa categoria, que é a de ser israelita e vir de Israel. E isso é bom.” Entra aqui o efeito surpresa. “Posso surpreendê-las e mostrar-lhes algo de que não estão à espera dentro desta categoria.”
Hofesh Shechter e a sua companhia de bailarinos estão hoje e amanhã no grande auditório do CCM. O espectáculo começa às 20h.
