O local único que procura a natureza da sua literatura
Investigadores debateram definição da literatura de Macau
Que textos e autores cabem no cancioneiro de Macau? Esta foi uma das perguntas a que tentaram responder ontem alguns académicos na Livraria Portuguesa. As opiniões dividem-se, mas de uma coisa ninguém tem dúvidas – Macau é um caso único no mundo.
Rui Cid
O que é a literatura de Macau? A pergunta, ecoada há muito, foi ontem repetida durante um debate – ou reflexão, nas palavras da organização – que levou à Livraria Portuguesa alguns investigadores do projecto “Macau na Escrita, Escritas de Macau”.
Ontem, durante cerca de hora e meia, investigadores como Ana Paula Laborinho, antiga presidente do IPOR, Mónica Simas, da Universidade de São Paulo, Michela Graziani, da Universidade de Florença, e Gustavo Infante, da Universidade de Bristol, debateram o conceito de literatura de Macau.
A discussão, frisou Ana Paula Laborinho, é antiga e faz-se, sobretudo, a nível académico. O objectivo é perceber que escritos e autores podem ser definidos como fazendo parte da literatura de Macau.
Ultrapassada que está a questão da língua em que são escritos os textos – durante muito tempo os textos em língua chinesa não foram considerados literatura de Macau -, a discussão faz-se entre as correntes que defendem que os factores nacionalidade e tempo de vivência por terras de Macau são determinantes para se ser um autor do território, e, por outro lado, entre aqueles que advogam que o importante é sentimento que os textos exprimem.
Mónica Simas, da Universidade de São Paulo, é adepta desta última segunda corrente. A investigadora com uma tese de mestrado intitulada “Macau e a Literatura Portuguesa – Margens do Destino”, entende que a literatura não pode ser etiquetada por grupos.
“Estamos a falar de arte, não é só sentir. Uma pessoa pode viver muito tempo num determinado sítio, senti-lo como ninguém, mas depois não saber expressar esse sentimento em texto. Já certos autores, passam por um local e depois conseguem exprimir o que sentiram de uma forma muito intensa”, notou Mónica Simas.
Pelo mesmo diapasão alinha Michela Graziani. A investigadora de Florença que, na sua tese de doutoramento, se debruçou sobre a obra de Maria Ondina Braga, salienta que o escritor que está de passagem pode oferecer “um olhar profundo e conhecimento diferente” à literatura desse local.
“Maria Ondina Braga, que esteve cá pouco tempo mas se apaixonou profundamente por Macau, conseguiu, através da escrita, falar sobre a miscigenação das gentes do território, algo que está presente ainda hoje em dia”, destacou a jovem investigadora italiana.
Mais conservador é Piero Ceccucci, responsável pela cadeira de cultura macaense na Universidade de Florença. Para o docente, a questão da nacionalidade terá sempre de ser levada em linha de conta. Ceccucci concede que nos casos em que a ligação à terra é por demais evidente, “quando o escritor aqui se radicou e permaneceu por um longo período de tempo, até ao resto dos seus dias”, a sua obra seja considerada literatura de Macau. Mas esse, diz, “não é o caso de Maria Ondina Braga”.
Por outro lado, o académico destaca o carácter único da RAEM e reforça a posição de que os textos em chinês, de autores do território, não podem deixar de ser englobados naquilo a que se chama literatura de Macau. Escritos que, admite, dificilmente terão uma difusão tão grande no Ocidente devido à “barreira que o chinês é”.
Chegados a este ponto, percebia-se que esta seria, como anteriormente afirmara Mónica Simas, uma discussão “onde não se chegaria a lado algum”. Contudo, como destacou a académica brasileira, a ausência de conclusões acaba por ser a força motriz do próprio debate em torno destas questão, “por permitir que a discussão do tema se prolongue”.
Neste tema, salientaria posteriormente Ana Paula Laborinho, o mais importante “é o desenvolvimento de novas metodologias de pesquisa, susceptíveis de mobilizar investigadores de diferentes áreas disciplinares”.
A impossibilidade de as investigações ficarem paradas enquanto se procura definir ou quantificar o sentimento de pertença a um lugar levou a que, no projecto “Macau na Escrita, Escritas de Macau”, se opte por utilizar o conceito “escrever Macau”. Este conceito, explica a antiga presidente do IPOR, “é mais amplo e permite que não nos tenhamos de preocupar com a origem do autor, nem a língua em que se expressa”.
Um problema chamado tradução
Durante o debate de ontem, várias foram as opiniões que se fizeram ouvir. A maioria destacou a especificidade do território, e houve quem, como Yao Jingming, Fernando Sales Lopes e Ana Paula Laborinho, chamasse a atenção para o problema da falta de traduções.
É esta lacuna, nota Yao Jingming, que faz com haja muitos textos de e sobre Macau que são desconhecidos por grande parte dos investigadores que se debruçam sobre a literatura local.
“Os portugueses não conhecem os textos em chinês e os chineses não conhecem os textos portugueses. Há um problema de falta de curiosidade, mas há sobretudo um problema de falta de tradutores”, diz o poeta e professor na Universidade de Macau.
Reforçando estas críticas, Fernando Sales Lopes acusa as universidades locais de apresentarem graves lacunas ao nível da formação.
“Se repararmos, os tradutores que trabalharam a literatura chegaram de Pequim. Este é um problema antigo e pouco ou nada tem sido feito para o resolver. Mas já que o problema existe, temos de o resolver, por que não importarmos tradutores? Há dinheiro para isso, não há?” observa o escritor português radicado há largos anos no território.
O debate ia já longo, mas não terminaria sem antes Ana Paula Laborinho deixar um recado no ar: “Cabe também às organizações de matriz portuguesa promover a tradução de literatura portuguesa para chinês”.
