O homem-caricatura
Última noite para ver Ennio Marchetto no Centro Cultural de Macau
“Ennio” é um espectáculo de estilo burlesco de um homem apenas. Sozinho no palco, Ennio Marchetto faz desfilar junto do público meia centena das mais conhecidas personagens do “star system” mundial num espectáculo de travestismo de papel aonde acorrem Marylin ou Tina Turner, a Mona Lisa ou a Abelha Maia.
“Sou meio mimo, meio palhaço”, descreve-se Ennio Marchetto, um dos comediantes mais populares de Itália, e com reputação um pouco por todo o mundo. Desde há perto de duas décadas que o italiano leva o seu espectáculo onde quer que o convidem.
Ennio tem, de facto, “um espectáculo único”, como o próprio salienta. Cada uma das personagens que interpreta durante uns breves 30 segundos – no máximo, talvez, um minuto – é um recorte de papel, um fato estilizado à maneira de uma caricatura, e muito fácil de trocar ao longo de todo o espectáculo.
“Uso o papel como material e faço o retrato de cinquenta personalidades diferentes do mundo da música. As mudanças são muito rápidas. É um espectáculo engraçado. Transformo-me em cantores famosos. Cada fato desdobra-se em três ou quatro personagens”, explica.
Se a vida são dois dias, e o Carnaval são três para a maioria dos mortais, já para Ennio, natural de Veneza, Fevereiro é sinónimo de dez dias de folia. E foi na tradição do Carnaval veneziano que surgiram os primeiros espectáculos de Marchetto.
“Numa noite tive um sonho em que vi a Marylin Monroe vestida de papel. Acordei e decidi recortar o meu primeiro fato. Tinha vinte anos”, conta o comediante. “Cinco anos depois decidi fazer outra personagem, mas a única forma de mostrar os meus fatos era usá-los no Carnaval, apenas dez dias por ano nas ruas de Veneza”, daí que tenha decidido fazer da arte de representar caricaturas de papel um emprego a tempo inteiro.
“Os primeiros espectáculos que dei foram em casa, para amigos. Depois actuei em discotecas e, mais tarde, em teatros. O espectáculo foi-se tornando mais interessante, com mais personagens”, revela. Hoje, são mais de trezentas. A mais recente aquisição do espectáculo de Ennio é um fato-caricatura de Amy Winehouse, a cantora britânica que se notabiliza não só pela música, como pela dificuldade em manter-se sóbria.
Ennio Marchetto admite não trazer porém muitas personagens asiáticas. Na verdade, revela, o que tem de mais próximo relativamente ao público chinês é uma caricatura de um dragão, com a qual dançará ao som do famoso tema da década de 70 “Kung Fu Fighting”.
Apesar de tudo, Marchetto não se identifica demasiado com a comédia, e as influências do italiano até são outras. “Fui influenciado por um mimo inglês. Também gosto muito de dança contemporânea. Os movimentos inspiram-me bastante. Aprecio o estilo de ballet contemporâneo de Pina Bausch ou da Companhia Martha Graham”, revela. “Não conheço muito o trabalho de outros comediantes”, admite.
