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Trabalhar a pensar na História local

May 27, 2009

Rogério Miguel Puga defende política que promova estudo de Macau

Perto de assinalar um ano de existência, o Departamento de História da Universidade de Macau promoveu a sua primeira conferência internacional e interdisciplinar na área dos Estudos de Macau, que hoje termina. Um campo de investigação que interessa a cada vez mais académicos de todo o mundo, mas que falta divulgar a nível local nos currículos do ensino básico e secundário. Para o professor Rogério Miguel Puga, o Governo deve delinear politicas educativas que garantam o conhecimento da população sobre a sua própria História. Faltam também os materiais didácticos. Um trabalho que a UMAC está disposta a fazer com outras instituições do território.

- Qual é a importância da realização de uma conferência com uma abordagem multidisciplinar aos Estudos de Macau?
Rogério Miguel Puga – Para além da conferencia ser interdisciplinar, é também internacional. Podemos dizer que junta a maioria dos peritos, no que diz respeito aos Estudos de Macau, nas mais diversas áreas de saber para que haja uma discussão de conhecimentos interdisciplinar, para que todos nós saibamos o que está a ser feito noutras partes do mundo sobre Macau e haja uma partilha desses saberes. O resultado final será, com base nas comunicações que foram apresentadas, a publicação das actas e a divulgação para a comunidade científica. No fundo é fazer o ponto de situação no que diz respeito aos Estudos de Macau e partilhar também essa informação com a comunidade científica e população de Macau.
- Parece haver uma grande apetência lá fora em procurar Macau como objecto de estudo.
RMP – Sim, o próprio número de participantes na conferência, cerca de 70, demonstra isso mesmo: o interesse que há em estudar Macau. E, por outro lado, procura-se que a conferência seja uma plataforma de partilha desses conhecimentos, para que as pessoas se encontrem e debatam de forma inovadora e com qualidade as problemáticas que estão a estudar. O número de participantes e a qualidade das comunicações que foram apresentadas demonstra isso. O interesse das pessoas investigarem, partilharem conhecimento e aprenderem com metodologias e abordagens de outras disciplinas, que também lhes serão úteis.
- O que é que motiva este interesse por parte de investigadores que estão em Universidades do Brasil, dos Estados Unidos, Itália ou Reino Unido?
RMP – Penso que é o interesse antropológico, sociológico, histórico de Macau. É um local único do mundo, importantíssimo para a história da humanidade em geral, e para as relações entre o Ocidente e o Oriente ao ser a primeira porta de entrada ocidental na China. Isso, por si, justifica o interesse. E o desenvolvimento atroz e cavalgante que teve lugar em Macau nos últimos anos faz com que seja também um ‘case-study’ ideal, quer para estudos contemporâneos, quer até para estudos comparativos, quer com Hong Kong, quer com outras regiões da China. A importância de Macau no mundo justifica esse interesse, sobretudo no campo da História da Literatura – que é aquele sobre o qual mais me debruço. Macau é relevante não só para a histórias da China e de Portugal, como também para a história dos Estados Unidos, da Inglaterra ou da Suécia. Todos esses países tiveram presença na China através da Macau portuguesa.
- O corpo historiográfico de Macau também tem ainda muitas áreas em branco?
RMP – Qualquer área de saber tem, tem sempre. E quanto mais investigamos, mais nos apercebemos que há muito mais a fazer. Esta conferência é a prova disso. Há muitas pistas de investigação e vamos aprendendo uns com os outros. Por exemplo, na segunda-feira passámos o documentário da Catarina Cortesão Terra e do Tomé Quadros [Music Box] e senti que tinha aprendido tanto com aquele documentário como com uma comunicação académica, no que diz respeito à música e dança nas várias comunidades de Macau. Qualquer área de estudo tem sempre áreas em branco. Se calhar, Macau tem uma lacuna, que é o facto de não ter havido até agora na Universidade um curso de História – o que já está resolvido –, bem como o facto dos alunos não terem o contacto com a História de Macau de uma forma sistemática no ensino básico e secundário. Isso é que tem que ser resolvido. Os alunos chegam à Universidade e nós sentimos que temos de começar da estaca zero. Se os alunos já tivessem tido um contacto inicial com história local, o trabalho a desenvolver aqui teria de ser diferente. Mas o que é facto é que nós temos que suprir essa lacuna quando os alunos chegam à Universidade sem quaisquer conhecimentos sobre a História do território onde vivem.
- No fundo, houve sempre uma opção de localizar o ensino na história da China ou de Portugal, mas nunca em Macau?
RMP – Penso que isso poderá ter tido motivos políticos – antes da transição, e inclusivamente, depois da transição. Mas penso que o tempo modifica tudo isso e temos de pôr mãos à obra e resolver o problema. O que a Universidade pode ter é uma contribuição científica, formando futuros professores de História ou mesmo outros profissionais. Mas terá que ser sempre o Governo a tomar uma decisão de política educativa. Só assim é que a situação se poderá inverter.
- Para isso, estas contribuições académicas também têm de ser sistematizadas e pensadas em termos didácticos?
RMP – Terá de haver uma equipa de especialistas multidisciplinar e multinacional que prepare vários manuais para que sejam representativos de todas as áreas de investigação e de todos os períodos da História de Macau, para que possam ser utilizados pelos alunos. Têm de ser manuais credíveis dos pontos de vista pedagógico e científico.
- O Departamento de História, e as várias unidades académicas da Universidade, estariam preparados para realizar esse trabalho?
RMP – Obviamente. Tem é de haver uma equipa de várias instituições de Macau, e até de Portugal e da China. É um trabalho que vai começar do ponto zero. Portanto, a Universidade tem professores que o poderão fazer, mas acredito que tem de ser um trabalho realizado por uma equipa alargada e com consultores. Pelo menos, de início. Depois surgirão outros manuais, outras abordagens pedagógicas, e isso só enriquecerá a escolha dos professores do básico e secundário, e até dos próprios alunos. Quase todas as instituições superiores deverão e quererão com certeza dar o seu contributo para um projecto desses caso ele se venha a realizar.
- Será cedo para avaliar as actividades do Departamento de História [criado em Julho do ano passado], mas quanto aos Estudos de Macau que têm vindo a ser desenvolvidos nos vários departamentos, que balanço é feito?

RMP – Há vários departamentos envolvidos, desde os Estudos Ingleses, Estudos Portugueses, História, Antropologia, passando pela Sociologia. Quase todos fazem à sua maneira Estudos de Macau. Penso que o trabalho é positivo. Há sempre mais para fazer, como em qualquer profissão e em qualquer país. Quanto mais se fizer melhor, mas o balanço até ao momento é positivo. No Departamento de História essa é uma preocupação. Queremos afirmarmo-nos como um departamento sobretudo preocupado com a História local. Porque isso só enriquecerá os alunos e o valor do próprio departamento, a nível local e regional.
- Numa das sessões desta conferência foi levantada uma questão relativamente a uma alegada prevalência das fontes portuguesas na História de Macau. Disse a esse propósito que há hoje uma colaboração muito participativa entre investigadores chineses e portugueses, que fazem a História local conjuntamente.

RMP – Há e tem de haver. Quando faço algum trabalho sobre a História de Macau recorro sobretudo a um grande especialista em História local, Jin Guo Ping, que me faculta por vezes traduções de fontes chinesas que ele fez ou fontes que já publicou. Há essa colaboração, obviamente, e também entreajuda. Mas a questão levantada foi a de se alegar que os chineses teriam sido silenciados. Insurgi-me e reagi porque a verdade tem de ser dita, sobretudo em acontecimentos académicos. A verdade é que não houve silenciamento. Existem fontes chinesas e fontes portuguesas. Mas por um investigador não poder ler chinês, não pode afirmar que os chineses foram silenciados. Existe o que existe. Se a pessoa souber ler chinês, apercebe-se que existem fontes sobre a História de Macau em chinês. Obviamente que as fontes portuguesas são em muito maior número, já que era a língua da administração.
- Eventualmente, não haveria a comunicação entre investigadores das duas línguas?
RMP – Existe cada vez mais, e existem cada vez mais historiadores chineses que dominam o português. Os dois nomes de charneira são Wu Zhilliang, doutorado em História de Macau, e também Jin Guo Ping, que reside em Portugal e conhece todos os historiadores que se dedicam ao estudo de Macau. Essa colaboração existe cada vez mais. Por isso é que quisemos fazer deste colóquio um debate interdisciplinar com estudiosos de todas as partes do mundo, para que essa colaboração possa realmente ser cada vez mais intensificada.

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